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Onde não cabem suspiros



2014-05-06

Está morrendo, a saudade. Mais um desvanecimento que assassinato, excluídas de antemão as causas naturais. Tantos recursos para chamar ao pé de si o outro que está longe. Pode-se mesmo vê-lo, acompanhá-lo em seus movimentos, a câmera revela tudo. Não há suspiro que resista ao Skype.

É certo, o mundo se renova, e pisar o chão da relatividade é tarefa delicada. Saber, e considerar esse peso, que a liberdade não é natural, que dizer e contradizer não faz muito tempo eram dados como impossibilidades públicas. Até em família, vá lá se saber quem era exatamente o primo, ou a cunhada torta. Desgraça feita por palavra mal posta era muito comum.

E os fados não podiam cantar os amores abortados por pena do Estado, as escolas não podiam ensinar que tudo existe para acabar num livro.

Nem Mallarmé, nem Pessoa que não fosse correto. Nas pautas escolares o lugar do número 1 era garantido,  o 2 tinha lá também sua reserva. O 3 ainda não tinha sido inventado, assim como o destino dos cravos era enfeitar a jarra de porcelana branca sobre a mesa da sala de jantar. Mas de passo em passo, Mallarmé entrou na dança, Pessoa veio a revelar-se vago, o 3 apareceu como alternativa, os cravos foram distribuídos nas ruas. A liberdade entrou em pauta, essa coisa admirável que é a contradição passou ao curso da história.

Quem veio depois manuseou páginas em que o medo era só uma nota de rodapé. Outros textos foram se formando, outros sentidos criados para o lugar da juventude, que hoje prefere fechar a boca, guardar a energia para o sucesso que é preciso alcançar. Como a política é mal vista, a ideia da polis cai por terra, o indivíduo se guarda a si. Partir, se preciso for, ainda uma vez, mais uma vez. Alguns voltarão batidos, rabo entre as pernas, outros virão de cauda abanando, alegria e confiança.

O futuro de Portugal, em face da crise econômica? O país se restabelece, embora a Europa queira lhe aplicar amputações sem anestesia. Os caminhos virão.

Lídia Jorge confia, acalenta sabedorias e paciências, nesta noite de lançamento de Os Memoráveis, na livraria Portugaise & Brésilienne. Impressiona o auditório com aqueles atributos já sabidos, e mais admirados quando experimentados fora das páginas de resenhas ou estudos. É clara, firme, suave no expressar, visionária com seu Portugal.

Mesclei minhas expectativas às dela, verti em meu estilo as falas desta escritora admirável, anfitriã cuidadosa com os convidados. Pergunta o nome, a história, em que trabalha, o que está fazendo aqui? – diz, se tem à frente um português ou uma brasileira. Em interesse genuíno, debruça-se sobre sua leitora como se fosse ela a presenteá-la com um texto. Faz da dedicatória um verbo de ligação com essa ou esse que atendeu ao convite e foi ouvi-la, pedir o autógrafo.

Todo lançamento devia ser assim, acontecer em compasso de troca entre uma autora e quem mergulha em suas águas. Nessas águas, Os Memoráveis me esperam.



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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