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Sobre ir embora do Rio

Foto do acervo do autor



2014-05-22

1. Quando me mudei para São Paulo, há poucos meses, a resposta à pergunta Mas por que ir embora do Rio de Janeiro? ainda não era esse óbvio todo. Então, eu tinha que responder como podia: (ah,) porque a cidade ficou cara demais; (b) porque ficou higiemonopólica demais; (c) porque eu precisava mudar de ares; (d) porque hoje em dia só dá para ser carioca fora do Rio.

O Rio de Janeiro, como Buenos Aires, Nova York ou certos monstros mitológicos, não é só um lugar, um continente, um estado de espírito. É outra coisa além, algo que entranha na identidade do sujeito e não sai mais. Por isso, saí do Rio e fiquei ainda mais carioca: o carioca leva o Rio de Janeiro consigo, é capaz de fundá-lo em qualquer lugar, até onde não há corcovados nem leblões, nem glórias.

2. Sou jovem demais para sentir saudades do Rio do meu tempo, mas é isto mesmo o Progresso: corrói rápido a época, devora quilômetros e quilômetros de calendário. O Rio me envelheceu 50 anos em 5. É preciso avançar e tchau-tchau, tchau isto, tchau aquilo — tanta coisa se perdeu que não quero elencar.

Mas o Rio sempre foi assim, alguém vai dizer: pensa só no arrasamento do morro do Castelo. Havia uma montanha na paisagem que não há mais! Nós devíamos estar acostumados. (São as dores do crescimento! As dores do crescimento!)

Não sei. O Rio é uma coisa que entranha na identidade do sujeito e não sai. Como escrevi nuns versinhos, há muito tempo: a linha das montanhas da cidade = linhas de um eletrocardiograma, do carioca e do Rio. Aposto que houve mais de um que morreu de infarto quando arrancaram o morro do Castelo da paisagem, uns tantos outros que se sentiram amputados.

Quanta gente, hoje, não deve se sentir amputada?

3. Espero, sinceramente, que esta fique conhecida como a era da debandada dos poetas. Muitos de nós somos economicamente confortáveis, filhos de gente cômoda (alguns somos escritores por esse motivo mesmo), ou membros da artistocracia carioca. Mas muitos de nós não somos. Por isso gosto deste trecho da despedida que a portuguesa Alexandra Lucas Coelho publicou nO Globo (em fevereiro de 14): não quero morar numa cidade em que todo o tempo seja gasto tentando arrumar dinheiro para morar lá. [...] certamente a cidade mais bela do mundo capitalista. Como o Rio não vai perder os seus poetas?.

Gosto deste trecho do petardo-poema do Lucas Matos:

quando chegam no rio
é o caos total
mas o mais engraçado
é que na peça os cariocas
estão o tempo todo dizendo
adeus
adeus mulata
adeus bonde de santa teresa
adeus marília garcia
adeus ladeira da lapa
adeus poesia incompleta
adeus victor heringer
adeus
[...]
foi quando eu me toquei
ainda vai levar muito tempo
até a cidade voltar ao
muito tempo até a cidade
voltar ao muito tempo até
a cidade voltar
[...]
não sou dessas que
falam facilmente adeus
adeus luca argel
adeus geringonça
adeus discussões cromáticas das linhas de ônibus
adeus rua da carioca
adeus guitarra de prata
adeus morro da conceição
adeus pântanos e charcos
pântanos e charcos
pântanos e charcos adeus


Fui embora, vim. Talvez volte: foi quando eu me toquei ainda vai levar muito tempo. Quão provisório é um tchau? Vai saber se vou acabar como o Luis Martins, tendo escrito um romance com nome de bairro carioca (vizinhos, inclusive: Lapa e Glória) para ter vindo morrer em São Paulo, com dupla cidadania. Morreu na estrada para o Rio, aliás.

4. O êxodo econômico se junta ao exílio simbólico. A nossa dieta de símbolos foi radicalmente alterada, mas este novo mal-estar da civilização carioca é difícil de precisar. É enjoo político, mas quando é que a política (a politicona dos politicães, quero dizer) não foi intragável? É a carolice, a tradição-família-propriedade que fermenta nos nossos fígados, a burrice bronca, o fundamentalismo, o te-amor à autoridade... e é outra coisa completamente diferente. É que a polícia violou diversas vezes, e bombástica como de costume, a praça São Salvador e a praça São Salvador apedrejou uns ônibus do Choque de Ordem? É que somos bichos facilmente agitáveis? Redundaremos sempre e sem remédio na nossa dura biologia? É que esquecemos quem foi Prata Preta? É que logo vamos esquecer o Amarildo e lembrar para sempre da queda do Batista? É que compraram e mandaram demolir a casa onde nasceu a umbanda? É que Madame Satã se semi-hollywoodizou? É que o Rio, enfim, está se zé-carioquizando em vez de se zé-pelintrar? Como precisamos de um poeta que cante a batalha velha entre estes dois zés, o Zé Carioca e o Zé Pelintra...

Foi um roubo de identidade, falsidade ideológica? Sequestraram o Rio de Janeiro e o substituíram por outra cidade idêntica, mas toda feita de isopor, adocicada e por isso mesmo sem gosto? Sei não.

Busco na bíblia do meu povo uma resposta qualquer (bíblia carioca é a Rio de Janeiro em Prosa e Verso, antologia organizada pelo Bandeira e pelo Drummond para comemorar os 400 anos da cidade), mas resposta não há.

5. No fundo, ir embora do Rio é igual a qualquer outro ir embora. Ouço uma canção da Onda Vaga que costumava ouvir no caminho para a Ilha do Fundão (durmiendo tan poco nada es suficiente que las cosas están cada vez más caras sólo eso te quería decir...) e certo acorde me põe na cabeça uma esquina do Catumbi, um ô-ô-ô me lembra aquela igreja de pedra cinza (tão gótica no calor infernal...), o suor e os alunos da UFRJ sacolejando no ônibus. Dá vontade de chorar. Igual!, tão igual é a nossa experiência. E tantas, as nossas diferenças.

6. Uma foto, tirada pelo escritor e companheiro de revista Bolívar Torres, nunca mais me sairá da memória. É por meio dela que vou tentando entender por que abandonei Sebastianópolis tão de impulso e por que guardo tanta decepção do que deixei por lá. É carnaval no Rio, 2014. Eu não vivia mais na cidade (eu, que duvidava da existência de outras terras e gentes quando era carnaval, passei o de 2014 em casa, com a minha recém-adquirida frieza de paulista, como no poema do Mário). Na foto, Marilyn Monroe, debruçada na grade, observa os escombros do elevado da Perimetral, demolido para arejar a zona do porto. Cena de filme de pós-fim de mundo. Uma capitã de navio conversa com uma Charlie Chaplin. Uma diabinha também observa os pilares arruinados. Outras meninas, uma cogumelo do Super Mario. Gente. Gente diante do colosso em ruína. A Perimetral era um trambolho, serviu mesmo para ser demolida, para que o Bolívar tirasse essa foto, para que ela acabasse por se tornar símbolo do meu Rio de Janeiro. Concreto morto maquiado de alegria, enquanto a alegria – a verdadeira – olha meio espantada.       



Victor Heringer

Victor Heringer (Rio de Janeiro, 1988) é escritor, autor de Glória (7Letras, 2012, Prêmio Jabuti), O escritor Victor Heringer (7Letras, 2015), Lígia (e-galáxia, 2014), entre outros. Colabora na revista Pessoa desde 2013.




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