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A Ciudadela de Juliana Frank



2015-12-15

A Revista Pessoa adianta com exclusividade um trecho do novo livro (ainda em processo) de Juliana Frank, roteirista e autora de Quenga de Plástico (7Letras),  Meu Coração de Pedra-Pomes (Companhia das Letras) e Cabeça de Pimpinela (7Letras).    

En esta ciudad donde nadie sabe quien soy, de Juliana Frank.

Ciudadela é um lugar desprezado, no oeste de Buenos aires. A única estátua, rodeada de flores cadavéricas, é do padre Elizalde. As ruas se chamam Elizalde. As escolas são variações do nome de Elizalde. O lugar é todo de papa-hóstias, bestas paraguaias que acordam as sete da manhã para ir a igreja Santa Joana D`Arco, que com certeza chupava a pica do padre, Elizalde. Eu amarro cadarços ali, na escadinha da igreja, sempre mal amarradados. E meu nome é Loli Rouge. E as donas das boutiques de roupas cristãs me dizem logo que estou desatada, ou deve ser só o cadarço. São palavras, nada mais do que balanços elegíacos de quem não aprendeu a amarrar bem as coisas.

A novidade é que agora, sei lá desde quando, existem os trens, são modernos e lembram o máximo do bom gosto japonês. Gosto de dançar nos vagões, entrelaçar meu corpo de escultura renascentista, treinado em ladeiras, nos cabos de aço. Aqui não falo. Por isso estou segura. Em cidadela eles não sabem disso nem daquilo  sobre mim. Não espalham porque não tenho história, sou a menina sem um passado, nenhum caleidoscópio na mão. Se eu tivesse, não se importariam. Porque na província quem pensa-tudo-sobre-quanto-fala é gil, mierda, conchudo, hijo de una sagrada puta-madre-que-lo-pariu. Desimportante. Todos nascem pensando neste lugar, a inteligência é uma secreção natural do cérebro argentino. A maior ascensão, a fantasia mais quimérica não se trata de fazer grandes elucubrações ou formular boas frases. Aqui o que liga e brilha é ser dono, proprietário ou criminal. Não cobiço bocas de droga, casas tomadas, lojas e seus alvarás mal resolvidos. Não cobiço o dinheiro porque já vi gente sendo destruída por ele jurando causas naturais. Nunca sabem se sou moralista como Péron ou idiótica como Eva. Enfim passo confiança. Uma pessoa que só quer escrever não oferece nenhum mal em um país letrado, culto, que escarra o fantástico nas anotações do verdureiro. Anoto no meu caderninho com capa de cachorro besta e não falo, vou seguindo assim, despercebendo. Sou vista com curiosidade, desprezo. Me olham como se eu fosse desdotada. Alguém parada na janela fazendo anotações. Uma mulher traumatizada, sensível. Que inventaria o comboio, as letras e Chigaco na janela, mas sabe que tudo isso já está inventado. É assim que me decifram. Os mais delicados, disfarçam. Os mais rústicos, declaram. Mas aqui neste País não conheci a crueldade. No fundo, estão todos prontos para montar lojas de doces e tocar violinos. Os argentinos não conhecem a maldade exercida pelo simples prazer, como eu vejo das esquinas da Rego Freitas a Ladeira da Barra. Blá. Estamos acostumados com ataques. Deixo que façam pouco caso de mim, me humilho, recebo pequenos favores, todos aceitos. Admiro a confiança que depositam, docemente, em minhas mentiras. Aqui sou a única que não mantém sonhos e que não finge lutar por eles. A única que enlouqueceu e fica horas na janela desinventado. A autista, afinal. Mas eu sei o que quero e o que sou, apenas não digo. Porque seria mentira mentir. E a grande lorota é que construí, nos últimos anos, um defeito: estudei e, lá de onde eu venho, as pessoas sabem disso. Descobriram já que sei-sobre-tudo-quanto-falo. Mas também não sabem a verdade verdadeira: que eu sou stripper e minha grande vocação é ser violada.

Homem só presta pra atrapalhar e fazer falta. Então Miguelangel alterna, confusamente e como se deve ser, o bem e o malefício. De um jeito já programado, por isso não surte em mim qualquer inflamação de espirito. Se fosse outra época eu colocaria fogo nas roupas dele. Saltaria como uma cabritita, implorando um amor mais tedioso, faria mais escândalo, cada vez mais e, de uma maneira cômica gritaria furiosamente pedindo a paz. Pediria paz com minha 3.8 apontada na testa dele. A testa infelizmente linda. Quando M. Angel está bem, quer dizer que nos próximos cinco minutos ficará mal. Se está mal, fará de tudo para envenenar meu dia com suas exasperações de menino órfão, peronista, franco atirador. E assim, nos próximos minutos já será o momento exato de me acusar de exagerada e relaxar na cadeira vermelha que gira em rodas. E girando nas rodas, acenderá mais um cigarro para logo murchar seu sorriso e, mais uma vez se queixar da vida, da realidade, das fantasias e todos os elementos e utensílios de cozinha, respirações, lâmpadas e revólveres que o cercam. Porque copos são asquerosos, e vizinhas são chateadas, e seu trabalho é perverso, e sua história não quer dizer nada e assim por diante, sem nenhuma tranquilidade e para sempre. E ele me conta seu nascimento, sua tragédia, garante que foi um erro. Que não deveria deixar de existir e sim encontrar uma forma de nunca ter existido. Stop! Desde que ele perdeu a importância para mim, todos os seus movimentos calculados se tornaram facilmente arrematáveis. Enquanto ele esperneia seus problemas políticos e emocionais, enquanto ele trama formas de descarrilhar nossa vida, olho para a janela. Seguro minha xícara de café e silencio qualquer ação. Algo quase se instila. Mas continuo embotada, analisando a falta de horizonte da cidade. Hoje o dia está mais escuro do que de costume, é um cinza que lembra a guerra, a fome, as tonturas da alma. Um tempo encerrado. Esse  quase sol. Mas aí já vem ele. O sol laranjão eclipsado.

Penso em como será hoje meu stripper. Venho treinando técnicas com bailarinas russas. Tudo pela internet, nuns vídeos que eu vejo. As russas se penduram em telas e giram seus corpos leoninos, as maquiagens são propositalmente borradas. Sempre existe um refletor em seus vídeos, e uma parede mal pintada que denuncia a miséria.

Lá fora faz sol. Não mais que sol. Fumo mais que mulher divorciada, embora não tenha ficado solteira nem quinze minutos nesta história. Não mais que um sol. E eu assopro as cinzas.

Sempre sinto que jamais poderia romper o imobilismo das palavras e descrever como são, realmente, minhas horas de stripper. Piteiras que comprei em San telmo, um vestido branco muito tapado, Chanel. Os olhos pintados de renda. Lingeries tingidas direto na pele. Diante do espelho, ensaio movimentos felinos. Finalmente tenho uma profissão perene. Não preciso mais me arrastar pelos corredores de agencias de publicitários implorando qualquer página autoral. Inclusive, substitui a palavra autoral por sutiã descomunal, breafing troquei por pija dura. A palavra elipse dramática foi trocada pelo lema: planos certos e amantes errados. As caras de quem tá trabalhando que eu era obrigada a fazer mesmo quando não estava nem um pouco ali deram espaço e forma para uma cara nova, uma expressão de febre nos baixos fudetórios. E quantas vezes gozo por dia? Sempre me esfregando nos tapetes, nas cortinas desse quarto, dentro dessa cidade onde ninguém sabe quem eu sou. Meu dia a dia era vivido as pressas por mim como uma patética economista das idéias. Nada além de uma roteirista de projetos fajutos trajada em terninho preto e gola circular. O que mais me chateava era meu nome de verdade sublinhando contratos pré-fracassados de filmes que jamais serão exibidos. Agora tenho essa cara floridamente desarvorada. Subo no poste e grito como quem é. Sou. Loli Rouge, a verdadeira. A puta. A nua. A amante persefóna de Henry Miller, a traiçoeira. A que dança enroscada em saia de tuli com a boca colada no revolver de homens destruídos. Mas eles jamais atiram ou vão atirar. Porque são homens destruídos e sabem reconhecer verdades que pulsam. Sabem do que estou falando.



Revista Pessoa
 



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