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E vai que tenho uma amiga chamada Pensilvania. Nunca estranhei o nome, versada que sou em geografias, e logo me encantei pela fala mansa de cadência sábia, na pessoa doce. Nos conhecemos em escola pública, num trabalho libertário como poucos.  Gostávamos de conversar, fosse matéria de trabalho, fosse caso de vida presente e passada. De pé no portão da escola, à saída do turno, esticava-se a conversa que tinha começado lá dentro e não achava jeito de se despedir.

Um mundo diverso e atraente vinha dessas conversas, cheiro intenso de mar, sabor de quintal, árvore e frutas, luta digna para educar menino, em família grande com dinheiro curto. Alguns costumes semelhantes aos de minha família, outros bem diversos.  Todo um imaginário de que me apropriei como o caçador em terras alheias, de que fala Michel de Certeau. E tão bem o fiz que botei seu Guerra, pai de Pensi (a minha amiga,para os familiares e íntimos), como parte de As fatias do mundo, um de meus primeiros livros.

E agora recebo o convite para uma festa, e logo depois o correio traz a coletânea comemorativa do centenário de Esther Pitanga de Guerra. “Não se astreva”*, forma peculiar de Esther pronunciar ameaças e limites, traz “lembranças, muitas lembranças de nossa mãe pelo olhar dos seus genros, noras, netos e bisnetos”, coloca a amiga na dedicatória. Começo a ler, estou de novo no portão da escola, ouvindo Pensi e toda a família a me contar coisas que ainda não sei de dona Esther. Vejo Daniel Rui, menino que ajudei a partejar, hoje médico incomum, como autor de um texto que é reverência à avó e penhor de paz após toda guerra.

Deleuze me fala ao ouvido, a literatura é uma força. Um professor de filosofia desdobra: “É uma potência de devires que nos força-a-pensar. A Literatura como agenciamento maquínico, é o que faz o homem se metamorfosear até um devir imperceptível.”**

Recitando no cotidiano Castro Alves, Junqueira Freire, Gonçalves Dias, Esther deu a filhos e filhas a força da literatura, agenciou o devir. Em “Um olhar sobre minha mãe”, Pensilvania lembra os versos ditados nos momentos de aflição: “Não chores, meu filho;/ Não chores, que a vida/ É luta renhida: /Viver é lutar./ A vida é combate/ Que os fracos abate,/ Que os fortes, os bravos/ Só pode exaltar.***

Encontrei dona Esther poucas vezes, e também recebi em herança, por intermédio de Pensi, os versos a prover o devir. Voz indígena, a “Canção do Tamoio” reverbera em mim, a traduzir os sonhos de liberdade de uma rainha hebreia, salvando seu povo de ardis inimigos.


* GUERRA, Gutemberg Armando Diniz et alii, org. “Não se astreva!” Coletânea comemorativa do centenário de Esther Pitanga de Guerra. Salvador: Gráfica Santa Bárbara, 2014.

**Paulo Petronilio Correia. In: http://seer.ucg.br/index.php/guara/article/viewFile/2157/1329 Acesso em 6/06/14.

*** Gonçalves Dias. “Canção do Tamoio”.



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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