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Estorvo



2014-12-09

Como cancionista, talvez Chico Buarque já tivesse contado suas melhores histórias quando resolveu escrever um romance. Boa parte de suas canções são narrativas, e muitas delas, obras-primas inquestionáveis do, por assim dizer, conto musicado. Estorvo (1991), por isso, é muito bem escrito mas fica aquém do que um admirador teria o direito de esperar daquele compositor fulgurante, capaz de imaginar a Ópera do malandro.

Para começar, o narrador-personagem é, psicologicamente falando, quase um zumbi. Sua amoralidade pode ter algum charme para quem não conheça o protagonista das Memórias do subsolo, publicadas em 1864 por Dostoiévski, mas nada acrescenta ao patrimônio da ficção brasileira. Sempre será, é claro, possível tirar dessa espécie de narcisismo às avessas uma daquelas interpretações “sofisticadas” eternamente na moda.

O relato de Chico é uma sucessão frenética de aventuras, às vezes no limite do puro devaneio. O número de personagens é excessivo, embora claramente inscrito no projeto narrativo. Ninguém dirá não saber o autor o que estava fazendo; apenas...

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Eloésio Paulo

Nasceu em Areado, Minas Gerais. Doutorou-se em Letras pela Unicamp em 2004. Publicou Literatura e ideologia em dois romances dos anos 1970 (2014), Os 10 pecados de Paulo Coelho (2007) e Teatro às escuras (1997), além dos livros de poemas Primeiras palavras do mamute degelado (1990), Cogumelos do mais ou menos (2005), Inferno de bolso etc. (2007), Jornal para eremitas (2012) e Homo hereticus (2013). Foi resenhista de O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e O Globo. Pela editora Dubolsinho, publicou em 2010 Parque de impressões, poemas para crianças. No site da revista Pessoa, Eloésio publica resenhas de romances dos séculos XIX e XX, que integrarão seu próximo livro, o Pequeno guia do romance brasileiro.




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