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Praça da Liberdade e um circuito literário



2015-01-20

A leitura está em cena, a literatura vem ganhando a cena num país ainda de baixos níveis de fruição literária. No início dos anos 2000, Silviano Santiago observava que o brasileiro consumia mais a vida e o glamour do escritor que sua produção.* Chamo o pretérito imperfeito em defesa de minhas expectativas, pois testemunho deslocamentos, e muitos. Há um bom tempo, o que pode compreender meus tantos anos de magistério em níveis variados e a pesquisa exercida nas ações desse magistério, mais as viagens como escritora ou palestrante do Programa Nacional de Incentivo à Leitura, o PROLER, da Fundação Biblioteca Nacional, ou como viajante mesmo, verifico as apropriações da cultura letrada em curso neste país por parte de camadas populares.

Certo é que viajamos em busca do duplo, do outro, ou de um morto que não sabemos.  Meu duplo é na letra, no verso do vívido. Às vezes, o roteiro de viagem acontece por minha inteira conta. Às vezes, vem convite. Como esse que me levou, em novembro, a Belo Horizonte, cidade que me afaga. Carrego no pulso o relógio que foi de Bartolomeu Campos de Queirós. Foi numa esquina dessa cidade, em conversa despretensiosa, que vi o relógio no pulso dele, no mostrador em vez de números a frase inacabada de Proust: “Por muito tempo, me deitei cedo. Às vezes, mal apagada a vela, meus olhos se fechavam tão rápido que não tinha o tempo de me dizer, ‘adormeço’. E,”

Disse, espontânea, que lindo, Bartolomeu. Ganhei o relógio, algum tempo depois, chorei sobre o presente, porque entendi. Por insistência dele, troquei a pulseira caramelo de corte masculino por outra de cor branca; guardei-o para eventos especiais.

Nesse I Circuito Literário Praça da Liberdade, organizado pelo Instituto Cultural Sérgio Magnani, com apoio do Ministério da Cultura, o relógio me acompanhou. Se não pôde ir, imagine. Muitas escritoras, muitos escritores, se nem todos os do seu desejo, alguns muitos, outras mais, com certeza. Todos, todas, aqui, ali, de endereço fácil no caderno de programação. Palavras vivas, contato direto, a literatura em fruição. A pergunta, o debate, atenção a todas as idades.

Se foi como convidado a trabalhar, observou a organização, recebeu o cuidado do bom hotel, sem excessos, mas sem faltas. O motorista pontual e atencioso; o obséquio quanto aos horários. Se participou na qualidade de convidado a usufruir, observou a atenção dispensada a todos e a cada um; os locais bem escolhidos, a Liberdade (praça e memória), feita momentaneamente Cidade das Palavras.

No balanço, a alegria de encontrar colegas, partilhar emoções e buscas. Os textos entremeados na prática do tecer, as ilustrações projetadas em diálogos inusitados, a palavra em corpo e pedra, minério, feijão. A caminho do aeroporto, um pouco mais de histórias pra trazer para casa, dessa vez menos causos, mais política. Sustos. A palavra, veneno e cura, latejando na mente, pensando a ferida. A esperança, matreira, voejando entre rotas possíveis: ano que vem tem mais?

*Uma literatura anfíbia. In: O cosmopolitismo do pobre. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004.

** Confirma fotos em https://www.flickr.com/photos/circuitoliterariobh/

Para finalizar, meus votos para 2015.



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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