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Depois da feira, mas antes da arrumação de frutas & legumes, a descoberta da hóspede a esperá-lo em casa. O sujeito a encara, puxa conversa, sabendo do patrimônio que representa. E desespera-se, quando ela parece sumir. Tivesse vindo na sacola como bagaço, palha seca, papel ou teia esponjosa envolvendo fruta, era fácil. Segurava-a entre os dedos, nunca mais sozinho, pelo menos a solidão ao lado para trocar ideias, mirar-se. Mas ela precedeu-o, autônoma, e dispersou-se volátil, fiapos de si entre palavras. Pois se para isso nascemos: mover-nos entre palavras, entrever ficções em meio a verdades. Daí a razão de narrar, ou de ouvir: “Queria contar-lhes uma história, talvez duas, estou por decidir. Sentei aqui só para isso. Contar por contar, sem qualquer motivo.”

Contar sem motivo. Mente este narrador, emprestado por Alexandre Brandão. É por conhecer a dura matéria, a frágil matéria, que ele conta. Conta para obter compreensão, ou perplexidade. Sobre isso se debruçam seus personagens. “O bravo touro de pata amarela”, por exemplo, que “Se vê às voltas com muitos porquês.” Narrado de dentro, como brinquedo que criança estripa para entender como é feito, esse Minotauro contemporâneo afiança a decisão irrevogável que precisa tomar. Movem-no solidez e debilidade, pátria de todo homem, mesmo os apátridas.

Brandão firma bem a sua pátria, e não é de hoje que o faz. Estão Todos Aqui e Contos de Homem antecederam este volume, maduro que só, a provocar “enorme ferida na quietude”. O blog “No Osso” traz com regularidade o olhar condoído ou gozoso desse mineiro, ciente do chicote com que o real fustiga sem parar o leitor, para tormento ou gozo. Há os que gozam, sabemos. Na impossibilidade de saber de antemão, resta ao narrador ou personagem que (se) observa experimentar a sensação de Mersault, estrangeiro aos sentimentos comuns. Camus soprou no ouvido de Brandão, vai lá, põe o teu Tony no espelho, deixe que enxergue as impossibilidades que ele mesmo se deu, na vida de contramão.  Porque é certo, tem sempre um ralo à disposição para sorver águas servidas, testemunha o doloroso “Sob Chuva”.

O corpo encharcado de álcool, a cidade encharcada de chuva, a malsucedida urgência cirúrgica. A vida é patética, um improviso no sax, às vezes bate agradável, às vezes é agulha no ouvido.  A lentidão pode ser um modo de vida, o sexo pode ser grata surpresa, embriaguez e sobriedade a justificar percalços, estragos inevitáveis. Capitu atuando em Bentinho, um eco nas evocações amorosas.

Em outra face do prisma, a vida pode traduzir-se em qualquer coisa calada e doída que se carrega no peito a ponto de explodir. “As Cinzas do Carnaval” depositam, entre vivos, um estupendo diálogo dos mortos, à maneira de Luciano. Saído das minas, Brandão volta para elas, escavando sem descanso, para colocar na bolsa de valores as palavras que digam o que há para dizer com a mesma competência com que, naquele encontro fortuito, a Solidão descascava laranjas.

*  Alexandre Brandão. Qual é, solidão? Rio de Janeiro: Oito e meio, 2014. (Textos citados extraídos às pp. 73, 82, 20; menção a “O Solo de Tony”.)



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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