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Relógios, máquina de lavar e avião



2015-04-08

A Revista Pessoa publica com exclusividade alguns poemas de um livro inédito de Adriana Lisboa a ser publicado pela Iluminuras, ainda sem data de lançamento.   Romancista, poeta e contista, Adriana Lisboa é autora, entre outros livros, dos romances Sinfonia em branco e Hanói (Alfaguara) e dos poemas de Parte da paisagem (Iluminuras). Entre os prêmios que recebeu estão o José Saramago e o Moinho Santista. Seus livros foram publicados em mais de vinte países.    

Relógios  

O que o meu avô reformou
na sala
precisa de corda – quando para e
não nos damos conta
tudo para junto
imobilizamos nosso dia às
11:05 da manhã
e logo a fome do almoço
é um cachorro vadio latindo para ninguém  

no meu relógio de pulso
em vez de números lê-se
agora
agora
agora
– o paradoxo de requerer
um metrônomo
para reger o passo
do que por ser sempre
quase sempre
me despista e ultrapassa  

na memória o velho cuco
que não precisava marcar nada
contanto que
de tempos em tempos
inflasse o seu pulmão de mola
e cantasse.  

*  

Máquina de lavar  

Eu gostava de abrir a tampa
espiar as roupas girando lá dentro
o esforço do agitador
todo eficiência
o pontilhado azul-claro do sabão
antes que se dissolvesse
e a vanguarda sonora
da máquina de lavar
em seu ruído sincopado
seu compromisso
com a integridade das roupas
das toalhas e lençóis
do meu uniforme escolar
que minha mãe depois estendia
e o vento leve abanava no varal  

a máquina de lavar
caía então num silêncio enxuto
anônima
germânica
respirando meditativamente e pouco
até a próxima ordem de funcionar.  


*  

Avião  

Mais pesado que o ar
descolando do chão de Brasília
a cidade desenhada
aliás
em sua homenagem
todo ruído supra-humano
e fuselagem esplêndida  

(ainda assim desconfio haver nele qualquer coisa de canhestra e bruta e um íntimo pendor à senda da compostura)  

mais suscetível do que
parece possível acreditar
mortal também ele
embora nem bicho
nem deus
descolando do chão de Brasília
cortando o sanguíneo fim de tarde
do céu de Brasília
sonhando-se
mais leve que o ar.        



Revista Pessoa
 



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