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A longa estrada dos ossos (do ofício)



2015-04-09

Longe, encontrar o perto. Lugar comum, experiência antiga. Pai, mãe e filha, nenhum nome próprio, a situação conhecida da separação, a nova família do pai em outra cidade não esperando por uma visita de cortesia que a mãe insiste para a filha fazer. Não é de cortesia, a visita devida ao pai distante, escritor prestes a ficar cego. Pequenos desastres de comunicação, o retorno antecipado sem que nada pudesse ter sido dito, a admiração passada da menina pelo pai, como tantas outras coisas, sufocada na garganta.

Na volta, bagagem extraviada, o percurso desolador do aeroporto a casa exibindo uma cidade que mata seus peixes, separa moradores, enche o caminho de containers que se multiplicam como os pães e peixes da Bíblia sem que a fome seja saciada. O corpo manifesta suas dores, garganta que arde, peito que lateja, e os ossos que vão restar.

A coleção Sonho Verde, de que A longa estrada dos ossos, de Adriana Lunardi, faz parte, é idealização de Mirna Queiroz, e foi editada pela DSOP, sob direção editorial de Simone Paulino. “A ideia é despertar os jovens leitores para os desafios impostos pelas mudanças climáticas ou pelo consumo desenfreado.” Enxuta, sensível e provocadora, a obra de Lunardi dignifica a literatura brasileira que os jovens também podem ler, ou sentem-se atraídos a ler pela própria opção editorial.

A autora não dá respostas, nem apresenta conclusão ou lição de moral, só a determinação da jovem que recusa a se acostumar.  “Não quero me acostumar com os peixes mortos, com as famílias sem rede pluvial e com as roupas da China. Não quero me acostumar nem comigo. São meus ossos que insistem.” Em busca de caminho diferente das vias paterna e materna, deposita nos ossos, no esqueleto que põe de pé o corpo, o corpo capaz de movimentos e ações, o foco de sua percepção. Esses ossos que restarão, ao fim e ao cabo.

Adriana ocupa-se igualmente dos ossos do ofício, e fala de seu trabalho de escritora, da dúvida em dar-se esse nome, do aprendizado da escrita a partir dos roteiros que produz para documentários. Enfatiza a necessidade de a escritora romper a porta, sair do armário, matar o anjo do lar, como Virginia Woolf já o havia dito de maneira sábia e oportuna. Questiona a divisão cruel – aqui ganho dinheiro, aqui escrevo –, onipresente na vida de quem escreve por arte e ofício.

Terreno de liberdade, a literatura pede a escritoras e escritores que se libertem. Matar as fantasias que os outros constroem acerca de nós, reinventar-nos. O mimo é essencial. O melhor de si para escrever, esta caneta, jarro de flores sobre a mesa ou madeira nua, a janela que se abre plena ou controlada. Ao sair para comprar o mimo, a arte pode pousar, tática e descuidada, pelo caminho.

Adriana Lunardi comoveu um auditório, não faz muito, no I Encuentro  de  Programas  de Creación Literaria y Escritura Creativa de las Américas. Ainda bem que eu tinha o livro na bagagem e selamos assim nosso encontro em Bogotá, 2015.

* Adriana Lunardi. A longa estrada dos ossos. Il. Catarina Bessell. São Paulo: DSOP, 2014 (Coleção Sonho Verde) p. 43.  



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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