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Que sei de capoeira? Talvez apenas o fascínio causado por um aluno de escola pública, jovem capoeirista que um dia seduziu o próprio Ziraldo representando Flicts em uma escola pública de subúrbio. A pele de açúcar mascavo, as espáduas largas no corpo espigado, o dorso nu jogando com pernas e braços, ele era uma escultura cubista no ginásio escolar. Pra quem não lembra, Flicts era uma cor estranha e sem lugar, que buscava espaço na caixa de lápis de cor, na primavera; no buquê de flores? Cor frágil, feia, aflita, Flicts era masculino, e nosso Jomar caiu às mil maravilhas para forçar a roda, tentar abrir a caixa de lápis, tentar meter-se dentro, incorporar-se ao coletivo, ser plural em seu singular. Não consegue, claro. O sentido da narrativa era o de realizar a jornada para alcançar a identidade, rara, e necessária à ordem do mundo.

Escrita no momento em que o ser humano pousa na Lua, obra-prima híbrida construída entre palavra e cor, Flicts é uma elegia à solidão capaz de contemplar-se e admitir-se completa no estado de ser único. Em nossa representação escolar, Jomar-Flicts contraria o criador e, exausto de tentar pertencer, joga sua capoeira contra as barreiras levantadas ao redor, integra-se à ciranda.

Jomar emprestou o nome ao protagonista de meu Manual de Tapeçaria, como signo de resistência na luta do corpo que dança e diz ao inimigo que está aqui, quando já está lá. E outro dia, voltando de Trancoso, distrito de Porto Seguro, sul da Bahia, depois de meter-me em tempos sem tempo, de saber a vida urbana como página de ponta dobrada no livro do presente, tomo o táxi para o aeroporto. Distância razoável, dá para um bom papo, Tiago Procópio gosta de conversar, é bom viajante, a conversa bateu na Suíça, Lausanne, imaginem. Ele conhece, esteve lá mais de uma vez. É do grupo Capoeira Sul da Bahia, viaja o mundo apresentando expressão, arte e ofício.

Não é religião a capoeira. Mas traça hierarquias, limites, disciplinas. Tiago me explica o uso dos tambores, não é qualquer um que pode tomar o instrumento, fazer vibrar o som que se estende, ponte entre uma era e outra, arco de energias passadas e presentes. Um terreiro não cabe só o que tem, afirma Procópio.

A conversa foi leve. Dominada pela lembrança de Jomar, sua força de afirmação, “vou entrar nessa roda”, retive pouco do que Tiago me contou. Sei que vai haver um encontro mundial agora em agosto em Arraial d’Ajuda, sei que a capoeira é uma manifestação plena de cultura e história do povo brasileiro. (Tiago, nem uma palavra sobre arte marcial.)

Sei um pouco mais, dança que não fiz, saltos que desejei, o corpo, flecha retesada na ponta da alma, tomou outros rumos, disparou-se por si, sem alvo nem pouso.



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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