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Formas de oração

Foto: Joanna Kosinska



2022-01-19

Ao Brasil, com amor: uma troca mensal de cartas entre dois “estrangeiros” que nos levará até meados de 2022. Jamil Chade (em Genebra) e Juliana Monteiro (em Roma) compartilharão suas reflexões sobre o que será e quem seremos nesse momento de revolução. São cartas digitais. Mas os sentimentos, angústias e buscas são tão reais quanto seus próprios sonhos.

 

Genebra, 19 de janeiro de 2022

Querida Juliana,

 

O ano de 2022 começou como havia sido prometido: intenso, gozador e desafiador. Esta carta que te mando é uma das primeiras coisas que consegui escrever, depois de semanas incapaz de organizar minhas ideias, tomadas por um turbilhão que parece querer desfocar a imagem do meu destino.

Por uma combinação de eventos, me descobri orando baixinho. Meu amadorismo em ritos me faz lembrar os versos de Chico César quando ele também rompe a liturgia, apela à religião e pede:

Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde ilumine e zele assim

Mas, ao final de cada oração que eu tropeçava, vinha também em minha mente uma pergunta incômoda: por qual motivo estou fazendo isso?

A indagação não era resultado de falta de escola dominical em minha infância. Nem de estudos sobre a história das religiões e, suponho, nem por falta de fé nas décadas seguintes, haja vista o comportamento em cada jogo da seleção em Copa do Mundo. Mas ela continuava a martelar meus ossos.

Me lembrei, com a morte de Desmond Tutu, um encontro que tive com ele, ainda em 2010. Era justamente véspera da Copa do Mundo, a primeira a ser realizada na África. Diante da fragilidade do time da casa, eu perguntei de forma despretensiosa qual seria o time que o arcebispo escolheria para torcer, caso os sul-africanos fossem eliminados no começo do Mundial. E a resposta do religioso foi tão malandra como profunda: “Vou torcer pelo Brasil. Precisa rezar menos”, e soltou sua gargalhada inconfundível.

Anos depois, na primeira vez que estive com teu vizinho em Roma, o Papa Francisco, ele me disse com um sorriso pícaro de um latino-americano: “fique tranquilo, o Papa é argentino. Mas Deus é brasileiro”.

Fiquei, ao longo das últimas semanas, com a impressão de que ambos tinham, na ironia, duas mensagens importantes: minha fé serviria como ferramenta e teria gente ao meu lado para me dar a mão, talvez de um lugar onde me sentiria identificado. Mas não para que eu transferisse responsabilidade para um milagre improvável. A ciência, o trabalho, o foco e resiliência teriam de vingar.

Talvez minhas dúvidas venham de um sentimento que permeia minha relação com a religião e seus arautos: a da constatação de seus paradoxos e hipocrisias.

Sempre me chamou a atenção como um tirano escolhia a religião que adotaria em seu reinado com base nas alianças que gostaria de construir, no poder que almejava conquistar. Tratava-se de uma decisão geopolítica, depois transformada em decreto que obrigaria cada súdito a rever suas crenças mais íntimas.

O nosso nojo também foi ensinado, inclusive para poder distinguir entre santidade e bárbaros. Por séculos, o chão de uma sociedade também foi uma obra cuidadosamente preparada, num livro cujos versículos foram manipulados, escolhidos e editados para justificar uma ordem de poder.

Se o cristianismo foi tão revolucionário ao dar espaço para mulheres e escravos naquele seu momento de nascimento e tão rebelde por falar de igualdade, é perturbador como foram necessários quase 2 mil anos, escravidão, imperialismo, a aliança entre a cruz e a espada e genocídios em nome da fé para que alguns desses princípios se tornassem leis na Justiça dos homens.

Quando ouço “a orquestra irônica e estridente” que é relatada em versos do poeta sobre os ferros que rangem nos pulsos de escravos, enquanto o som de chicotes marca o tempo num navio negreiro, sinto nojo de uma estrutura eclesiástica que abençoou aqueles crimes.

Quando me sento diante do Guernica, sou tomado por uma profunda repulsa diante da “sacralización” do golpe de 1936, transformado em guerra santa.

Foi necessário o abalo sísmico da Segunda Guerra Mundial para que a busca por sentido da vida reaparecesse na agenda política. Claro, enquanto o genocídio era negro, indígena ou simplesmente longe dos olhos dos centros de poder, isso não parecia uma urgência.

O fato é que o longo caminho para tornar ilegal o horror culminou na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não se trata de um livro entregue a nós no pico de um monte, enquanto o céu se abre para uma revelação divina. Mas, ainda assim, pode ser lida como uma espécie de oração.

Num certo trecho, o texto afirma que os povos proclamam "a sua fé nos direitos fundamentais do Homem, na dignidade e no valor da pessoa humana, na igualdade de direitos dos homens e das mulheres e se declaram resolvidos a favorecer o progresso social e a instaurar melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla". Em que religião isso não caberia?

A bússola moderna foi escrita por homens e mulheres, de diferentes religiões ou de diversos antecedentes filosóficos. Sabemos seus nomes, suas desavenças, onde ficaram hospedados enquanto negociavam o texto. Tinham acabado de sair do horror do Holocausto, momento em que o óbvio tinha sido esmagado pelo fanatismo, inclusive contra uma religião.

Eles precisavam resgatar o óbvio da vida como um direito. Numa nova insurreição tão profunda quanto a copérnica, o centro era recolocado de volta à humanidade. Os versículos falam em direitos inalienáveis, enquanto se declara uma rejeição revolucionária contra a tentativa de qualquer autoridade em controlar tua fé ou a ausência dela.

O que mais preocupa, Juliana, é que hoje essa obviedade parece uma vez mais perder terreno. O historiador Yuval Harari corretamente pergunta: e se essa autoridade no centro do indivíduo que acreditamos ser parte de nós tiver sido sequestrada sem que tenhamos dado conta? E se os humanos foram hackeados? E se a tecnologia é capaz de manipular sentimentos e crenças, em uma escala inédita?

Estaríamos vivendo, pergunta ele, a falência filosófica de um mundo que criamos e onde colocamos o sentimento no centro? Se isso for a nova realidade, é o próprio fundamento de nosso mundo que desaba. E, com ele, os valores da democracia. 

O santo graal da busca pelo poder não é mais o controle de um território. Mas saber o que eu, você e nossos filhos sentimos. Com certas tecnologias, experimentos começam a ser testados para descobrir tuas decisões futuras, antes mesmo de você saber quais são. Magia? Não. Coleta de dados. A quantidade de canções de amor adicionadas à tua playlist, tuas buscas no Google, quanto segundos você para na foto de alguém enquanto espera o ônibus. 

Agora, se eu posso saber teu futuro antes de você, eu também posso te direcionar para criar um futuro e te conduzir a tomar decisões.

Hoje, no Brasil, vivemos mais um capítulo do sequestro da fé para fins políticos. E parte dele ocorre usando exatamente essa tecnologia manipuladora. Na busca por controle, vendedores de ilusões transformaram a busca legítima de uma pessoa por um sentido na vida em instrumento de poder.

Charlatães que vendem esperança como política pública, em troca de votos e dinheiro. Criminosos que, diante de uma era de incertezas, recorrem a instrumentos de persuasão. Usam a fé para legitimar a discriminação, o racismo e a violação aos direitos humanos.

Isso não é uma exclusividade brasileira. Lembro-me de uma empresa americana que se recusava a incluir no seguro de saúde de seus milhares de funcionários um pacote de saúde reprodutiva, sob a alegação de que os donos evangélicos da companhia acreditavam que ali estava uma brecha ao aborto. Logo, porém, foi descoberto que esses mesmos magnatas usavam parte do lucro gerado por esses mesmos trabalhadores para investir, na surdina, numa empresa que ganhava dinheiro vendendo... pílulas do dia seguinte.

Quando penso nisso tudo, Juliana, dá vontade de estender o banho para tentar esconder a oração envergonhada no barulho da água do chuveiro.

Mas acho que também rezo para não desistir. Se abrirmos mão da esperança apenas por ela ter sido sequestrada, a hipocrisia terá vencido. E isso vai exigir banhos ainda mais longos no futuro para esconder a vergonha de nossa geração. Anita, Pol, Gael e Marc – hoje pequenos – mais tarde nos perguntarão onde estivemos enquanto esse sequestro ocorria. E quero ter a coragem de responder, sem ter de me esconder.

Certa vez, o padre Júlio Lancellotti me explicou o significado da oração. “Temos de orar não para nos conformar. Mas para nos motivar”, disse. “A oração é compromisso com a vida. A nossa oração é de luta e resistência”, me disse o padre, que chacoalhou as consciências ao martelar pedras que tinham sido colocadas sob um viaduto para impedir que pessoas em situação de vulnerabilidade encontrassem um abrigo.

Em 2022, decidi que não vou precisar do barulho do chuveiro para camuflar minha oração. Ela será um dos instrumentos de indignação, para buscar soluções humanas para problemas humanos, para descobrir o que eu sinto, para ter forças para resistir e reconstruir um futuro.

E, por que não, para evitar outro 7 x 1 na próxima Copa.

Vou ficando por aqui, Juliana, ávido por receber tuas respostas desenhadas como obras de arte.

Te mando um abraço carinhoso, uma outra forma de oração.

 

Jamil

 

Para ler a carta de Juliana Monteiro a Jamil Chade, clique aqui.



Jamil Chade

Jornalista, graduado em Relações Internacionais. Com passagens por mais de 70 países, atualmente é colunista do UOL, El País e do Grupo Bandeirantes. De seu escritório na sede da ONU em Genebra, ele tem contribuído com veículos internacionais como The Guardian, BBC, CNN, Le Temps, Swissinfo, CCTV, Al Jazeera, France24 entre outros. É autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Ele também venceu o prêmio Nicolas Bouvier, na Suíça, foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se e escolhido como um dos 40 jornalistas mais admirados do país (Maxpress). Em 2020, o jornalista venceu o principal prêmio do ano da Associação Internacional da Imprensa Esportiva por suas revelações sobre a corrupção no futebol e, em 2021, recebeu o troféu Audálio Dantas por seu trabalho sobre direitos humanos e democracia




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