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Uma memória coletiva cantada por mulheres

Foto: Integrantes do CRUA. Por João Costa



2021-07-07

Numa geografia urbana, no Porto, 6 mulheres juntam-se todas as semanas num desabafo, movidas pelo prazer de cantar e tocar. Aqui, o grupo conta, sempre na primeira pessoa do plural, o que é esse desejo comum chamado CRUA.


 

Somos 6. Ana Costa, Ana Trabulo, Diana Ferreira Martins, Isabel Martinez, Liliana Abreu e Rita Só.

Singulares como flocos de neve nos seus desenhos particulares quando reagem ao vento Norte. Temos todo um mundo na nossa polifonia pessoal;
Os cabelos negros entrançam nos claros de tardes de sol;
Os olhos grandes e amêndoa cruzam-se em olhos redondinhos, pequeninos e verdinhos; Bocas de sorrisos rasgados e dentes rebeldes chamam lábios finos mais contidos; corpos de curvas generosas desenham o risco a par de entes galgazes.

Invólucros diferentes com gente diferente dentro, que o mundo é tão mais bonito quanto mais textura singular se encontra.

Se a presença é diferente, o pensamento também. 

Do outro lado da mente
Do outro lado da gente
Do lado da gente do outro lado
Do lado da gente que vive de frente
Da gente que vive o futuro presente.

Como nos cantou, e cantará sempre, Zé Mário Branco na "Margem de certa maneira" (Dez,1972), praticamos a empatia como doutrina para que o espaço se mantenha entre

A corda que faz o laço
A força que faz o braço

e que possibilita acordar o pensamento. Vivemos em muitas frentes, agora e aqui e CRUA toma forma, religando-nos no gesto simples de parar e cantar. Secundarizar o virtuosismo das vozes e do toque, que o há também, dando espaço e tempo ao prazer, à relação, à pesquisa de cada uma com uma linguagem intemporal.

Intemporal ao cantar uma memória colectiva e mais ainda por, quase numa relação arquétipa, potenciar quem somos e o que queremos dizer a quem ouve. 

Numa geografia urbana, no Porto, 6 mulheres juntam-se todas as semanas, em desabafo. Desabafo de voz, de toque, de pesquisas musicais que acompanham o fluxo da vida.

Levamos avante a nossa lavoura pessoal com a sonoridade que impulsiona o nosso movimento interno. O cancioneiro popular, tendencialmente português mas também de outros pontos do mundo com afinidades linguísticas ou sonoras, traz-nos a possibilidade de mergulhar não só nas letras mas na melodia, na intenção, na relação física do som em comunicação com o corpo. O corpo de hoje, corpo muito cérebro, corpo objetificado, corpo de lutas. As letras contidas nos temas, muitas vezes, re-ligam uma dimensão antropológica cíclica pela qual observamos, sem necessidade de nomear diretamente, assimetrias, dicotomias, pré conceitos. A letra datada que conta algo, numa abordagem tida como simplista, distante e ausente da vida de hoje. Será mesmo assim? A memória é política. Olhar o passado para refazer o presente. Sentir a melodia da avó para ninar os vindouros. 

Somos muito mais aquilo que não somos do que aquilo que é visível ser. Sim, somos mulheres, mas não olhamos para a mulher como universal, buscamos na relação viva de grupo desvendar o processo vivo de produção de identidades, plurais, de género, alternando entre o centramento e o descentramento das normas que as constituem.  Não assumimos para nós, nós colectivo, discursos de poder, CRUA é um encontro de sentires fora das demandas normativas e dos processos excludentes, partindo do fazer para o pensar.

Começámos como uma oficina de adufe e percussão há três anos. Fluido e participativo, muitas pessoas passaram já pela sala de ensaios no Centro Comercial Stop. Sentimos vontade de circunscrever a participação para chegarmos mais fundo a esse lugar de Desabafo que intencionamos. 

Mastigamos e cantamos o cancioneiro e a música de raiz tradicional por consequência de vivências. Somos fruto de experiências incontornáveis no panorama musical e cultural do Porto, como o surgimento do Contagiarte e a intensificação do movimento Folk na cidade, onde cruzamos recolhas, instrumentos, vozes e pensamento. Somos, já, uma geração inspirada por outras gerações que rumou aos locais mais longe dos centros urbanos e recolheu, aprendendo. Ouvimos e lemos os que, primeiro e antes, rasgaram estéticas e reinventaram o que nunca foi estanque. Para que esta linguagem nos fosse tão familiar e acessível, muitos e muitas fizeram e fazem para que a tradição oral continuasse. Mesmo quando se grava, escreve ou transcreve, o carácter transgressor e resiliente da transmissão não se perde. 

O nosso processo de criação e recanto das músicas que fazem parte do repertório é uma súmula do que vos contamos. Cada tema é olhado como um todo, partindo do sentir, particular na abordagem e sem uma regra a priori definida, a não ser que nos dê prazer e que toque a quem ouve. Simples para uns, até redutor para outros, mas é mesmo assim. Depois a composição rítmica, mais ou menos tradicional, o tipo de toque, os instrumentos, a forma de cantar surge nessa busca. É urgente trazer o prazer para o quotidiano, em cada e pequena coisa que fazemos. E é nessa dimensão quase onírica da partilha, do cantar mesmo juntas que decidimos tornar CRUA um concerto, um espectáculo, uma performance. Muito mais do que objecto comercial, esperamos criar um lugar de relação entre quem canta e quem ouve. A horizontalidade do cantar em grupo, no campo, na eira ou na rua, na cidade ou na montanha, harmonizado pelos pássaros ou os carros que passam, pautado por quem faz e potenciador de quem ouve. Uma espectadora participa na performance refazendo-a à sua maneira. Por exemplo, afasta-se da sua energia vital para dela fazer uma pura imagem e associar essa imagem a uma história que leu ou que sonhou, que viveu ou inventou, como elabora Jacques Rancére em O espectador emancipado.

Afirmamos, em jeito de despedida, que encontramos sempre mais perguntas do que respostas e, nesse modo ativo de praxis continuamos na simplicidade de cantar e tocar, convosco e em nós, com a mesma entrega e devoção para além do conceito de lugar ou tempo. Cantamos em prazer e desabafo, numa oferenda de ar melódico expirado com esperança que se torne vosso também.

 

 



Revista Pessoa
 



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