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Reflexivo ao molho pardo

Foto: Afonso Morales



2021-02-14

Nos últimos anos, tenho sofrido o assédio dos defensores do me, te, se, lhe, frequentadores contumazes das aulas de gramática jocosas da professora Norma. Quem é que não fez a piadinha do me te se lhe? No auge dos usos gingados, ainda encontramos os baianos, que são capazes de dizer, sem resquício de estranhamento, lhe amo, amor de que outra parte do país não é capaz.

 

O conflito era flagrante: sincronia ou diacronia? Considerar os usos ou obedecer cegamente ao dicionário? A professora de português, gramatiqueira que só, enfaticamente nos ensinava que quem suicida se suicida. Enquanto, na hora do recreio, suicidávamos as pessoas sem o menor pudor de desdizer o se. Alguém um dia trouxe o argumento, que por vezes serve de munição: sui já é eu, então o se redunda. Não sei de onde tiraram, não se falava nisso e referência bibliográfica era um bicho desconhecido, mas soava convincente, então usávamos à revelia da mestra esforçada.

Só fui me deparar (ou deparar sem me?) novamente com essas questões reflexivas depois de adulta, quando alguém-outro me revelou que nós, falantes do português mineiro, não usamos tantos se ou me quantos seriam necessários. Pelos esgares da pessoa que assim dizia, devia mesmo doer nos ouvidos aquela nossa dispensação. E era verdade.

Não sei de mineiro ou mineira próximos que digam, com ares de justeza e espontaneidade, que se deitou e apagou a luz. Fazendo na primeira pessoa fica ainda pior: Ontem eu me deitei logo e apaguei a luz. É improvável ouvir esta frase aqui pela vizinhança e que me desculpem os mineiros e as mineiras gramaticalmente corretos/as, mas olha... o argumento é dos bons: reparem a quantidade de referências ao mesmo eu que há nessa construção! Assim não é possível. Vamos contar? Eu me deitei... Só aqui são três. Então o povo, esperta e economicamente, trata logo de extinguir alguns, considerando que já deu para entender.

Meu contato íntimo e frequente com um gaúcho muito sabido e estudado sempre me leva a situações em que se ilumina minha quase completa ausência dos pronomes reflexivos, enquanto os dele ficam vívidos e nítidos, tornando a comparação fácil e a risada, frouxa. Não raro, sou corrigida a respeito de um me que garfei, sem dar por ele, embora dê por mim, mesmo sem pronome. Absolutamente normal e sonora minha frase. Alguns casos, só para fazer uma listinha, são o do esconder e o do formar, que me saem lepidamente como “formei nos anos 90” ou “escondi atrás do pilar”, emissões que arrepiam muita gente por aí, em territórios onde o reflexivo é rei. O gaúcho, quando fala, não me soa tão diferente, mas ele se exaspera com as lacunas que não preencho desde a escolinha, e me diz, em tom amoroso de troça: é me escondi e é me formei. Talvez meu cérebro esteja apto a não notar a marca ou talvez já ouça sem ela, tão treinadinho é. E eu, cá comigo, digo: para que tanto reflexivo, meu Deus?

Nos últimos anos, tenho sofrido o assédio dos defensores do me, te, se, lhe, frequentadores contumazes das aulas de gramática jocosas da professora Norma. Quem é que não fez a piadinha do me te se lhe? No auge dos usos gingados, ainda encontramos os baianos, que são capazes de dizer, sem resquício de estranhamento, lhe amo, amor de que outra parte do país não é capaz.

Para tornar a treta ainda mais complexa, enrola-se a situação dos reflexivos com a da famigerada partícula apassivadora, que à custa da ocultação de sujeitos, objetos e bens imóveis, termina por não ser aprendida nunca. Vende-se casas ou vendem-se casas é assunto para a delegacia, não para as salas de aula.

Olha, circula aqui pelas Gerais uma lenda que dizem ser líquida e certa, comprovada por vasta documentação fotográfica. Havia ali para as bandas da região metropolitana de Belo Horizonte um pequeno açougue, portinhola com outros comércios, mas que se destacava por ostentar no alto da porta uma placa com o seguinte anúncio: vende-se frango-se. Diz que nunca tiveram dúvida na hora de comprar e almoçar o bicho ao molho pardo.



Ana Elisa Ribeiro

É mineira de Belo Horizonte, onde trabalha e reside. É professora e pesquisadora do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, onde atua na área de Linguagem e Tecnologia, em três níveis de ensino. Publicou mais de trinta livros para crianças, adolescentes e adultos, sendo os mais recentes os poemários Álbum (Relicário, 2018) e Dicionário de Imprecisões (Impressões de Minas, 2019). É colunista do Digestivo Cultural e da Revista Pessoa. Fotografada por Sérgio Karam.




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