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Sai o lago de uma torneira



2015-07-01

E aconteceu a Festa Literária Internacional de Belo Horizonte – FLI-BH, aqui antecipada em “Fábrica de ladrilhos”, minha crônica anterior. Não deu para participar de tudo, cheguei a meio, e soube da palestra de Milton Hatoum abrindo o evento, soube da oficina (nome que se vincula ao fazer prático) de Luiz Percival sobre conceitos fundamentais das práticas de leitura, assisti à mesa em que Marina Colasanti, Cristina Agostinho e Ernani Ssó se ocuparam do Quixote, do encontro entre José Eduardo Gonçalves, Ana Miranda e Luís Giffoni sobre Literatura: expansão da realidade, ouvi Luiz Ruffato e Juan Pablo Villalobos discorrendo sobre a cidade na literatura, o conceito de pertencimento que as migrações forçadas destroem, criando a impossibilidade de uma relação cordial com o espaço e os humanos que aí habitam.

A cubana Teresa Cárdenas, a poeta mineira Dagmar Braga e eu partilhamos a mesa sobre Vias presentes da literatura, e a discussão enveredou sobre a existência de racismo na Cuba contemporânea, após cinquenta anos de triunfo da Revolução. Não há uma lei em Cuba que puna o ato de racismo como um crime, diz Teresa, e menciona a ironia com que é tratada ao fazer qualquer observação do gênero. Falamos sobre mentalidade, o difícil que é mudar, o tempo de que necessita uma ideia para se colocar de outra maneira. Ao final da fala, naquele momento inestimável em que uma ou outra pessoa do público se aproxima para falar do afeto posto na leitura de uma obra sua, Anésia vem para dizer que Viver é feito à mão / Viver é risco em vermelho foi lido por ela, inúmeras vezes, com as alunas de formação de magistério, para discutir discriminação racial. Alguém está junto de nós, Íris Amâncio, talvez, e reafirma o empenho com que a leitura se dava.

Como toda escritora que se expressa ouvindo as vozes internas, continuo a me espantar ao falarem dessa ou daquela direção dada à leitura de meus livros. Não escrevo para, mas por. Demorei algum tempo para me dar conta de que vários personagens negros habitam minhas páginas, com sua história de luta, resistência e a alegria da reinvenção. E chegou a hora de ouvir Inês Pedrosa dizer coisas caras a este tempo presente, a esta mulher que escreve. Com o tema A escrita e o cotidiano, Inês constata que o cotidiano é o que nos dá a escrita, o que nos impede a escrita. Consumimos a nós enquanto seres humanos de uma forma sôfrega e automatizada, sem permitir as condições de ir a um lago, vê-lo em sua realidade, para voltar e fazê-lo jorrar de uma torneira. Diz Inês: “Para dizer que de uma torneira sai um lago é preciso não ter o nariz na torneira e ter visto um lago”.

Sai o lago de uma torneira, nesta festa gratuita para todos, nos vários espaços para muitos gostos, e o bom investimento do Estado, com apoio de algumas instituições privadas, na difusão da cultura que implica em refinamento e pensamento crítico. A Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte sustenta o que a ilustração de Marilda Castanha concebe para o material de divulgação: o livro e sua cultura são o suporte privilegiado para expressão de patamares ascendentes de compreensão da própria subjetividade e das razões do outro.



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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