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Adeus às coisas



2015-07-06

1. Entendo os faraós. Tutancâmon morreu adolescente e foi enterrado com vários cacarecos: tecidos, colares de concha, cadeiras, mesas, banquinhos de cozinha, espadas sem fio, adagas cravejadas de strass, fitinhas do Senhor do Bonfim e livros, muitos livros. Certo estava Tutancâmon. Vai saber se na vida de lá a gente não precisará reler o Inferno de Dante para se guiar.

Arrenego de quem diz que da vida não se leva nada, só a alma. Só os desalmados não veem que as coisas também têm a alma delas. Não preciso ser enterrado com nada, aliás prefiro ser cremado, mas quando eu morrer quero que toquem fogo nas coisas que amei. A fumaça dos meus cadernos de escola terá a alma da minha infância. As cinzas da minha carteira de trabalho lembrarão o tanto-tempo que vendi para os meus semelhantes em troca de comida. As cartas de amor, como é que não têm alma as cartas de amor? Nem é preciso ir tão longe (o amor é longe): as mensagens de celular também têm alma. Olha bem. Um telefone não é só carcaça.

2. Meu computador está morrendo. Depois de dez anos de vida, ele começa a dar sinais de senilidade: os dentes apodrecem (uma tecla de Ctrl caiu, outras não funcionam mais), a webcam está caolha, os microfones não ouvem tão bem quanto costumavam... A máquina na qual escrevi todos os meus livros e que me viu morar em três cidades diferentes, as teclas onde deixei as gorduras dos meus dedos, meus dedos de homem, que há bem pouco tempo eram dedos de garoto. Você pode dizer que o brilho azul-leitoso deste monitor não é uma alma como a sua ou a de Garcia Lorca – mas, se é algo menos que alma, é algo mais do que brilho.

É mais fácil conceder alma a livros, medalhas, fotos, sinos ou joias. São objetos feitos, em princípio, para durar. Entender que os trecos descartáveis que inventamos também têm mistério demanda um salto maior. Celulares e laptops são fabricados sem drama: dali a alguns meses serão substituídos por outros modelos, mais potentes, mais tecnológicos. Esse é o combinado. Mas nós fazemos isso de propósito. Na Califórnia existe uma lâmpada com nome poético, a Centennial Light, que está acesa há 114 anos. Uma senhora nascida antes da obsolescência programada.

3. Em breve nós ouviremos falar de um livro chamado Vibrant Matter. Os americanos e os europeus o adoram, logo-logo vai chegar aqui. Foi lançado em 2010, pela filósofa Jane Bennett, que passou anos pensando naquelas pessoas que guardam tudo, até as coisas mais irrelevantes: pacotes de bala, potes de danoninho, fitas VHS, latinhas de coca-cola. Eles também veem alma nas coisículas.

Jane Bennett quer pensar calmamente: por que dividimos o mundo em duas categorias, as coisas (a matéria crua e dura) e a vida vibrante (nós, os Seres)? Ela quer que nos lembremos da vitalidade das coisas, dos poderes vitais da matéria supostamente inerte. O lixo que gera tempestades de metano, os ácidos intestinais que alteram os humores dos homens. O etcétera todo.

Ela quer dizer: quando pensamos nas coisas só como instrumentos, a nossa sanha de consumir e destruir não tem limites. Precisamos reeducar nossos sentidos, porque há potências não humanas ao nosso redor (e dentro de nós), que nos definem. Ela quer fazer uma pergunta política, apocalíptica: como reagiríamos aos problemas atuais se considerássemos, à vera, a vitalidade da matéria?

Jane Bennett, claro, é mais rigorosa do que eu, que não sou filósofo. Mas e se imaginássemos a alma do petróleo?

Meu computador, quase todo feito de derivados do petróleo. Eu acenderia uma vela para ele. E outra para a nossa alma inflamável.    



Victor Heringer

O poeta, cronista e ficcionista Victor Heringer  nasceu no Rio de Janeiro em 1988 e faleceu em 2018. Publicou Glória (7Letras, 2012, Prêmio Jabuti), O escritor Victor Heringer (7Letras, 2015), Lígia (e-galáxia, 2014), entre outros. Colaborou para a revista Pessoa entre 2013 e 2017.




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