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Julho é um bom mês pra morrer



2015-07-08

Confira trecho do novo livro do paraibano Roberto Menezes, que em breve será lançado pela Patuá. Roberto tem quatro livros publicados: Pirilampos Cegos (romance), O Gosto Amargo de Qualquer Coisa (romance), Despoemas (contos) e Palavras que devoram lágrimas (romance), este último integra a Coleção Latitudes, da Mombak. Foi vencedor do Prêmio José Lins do Rego (2011). É professor da Universidade Federal da Paraíba e dos um dos criadores da FLIPOBRE.

Julho é um bom mês para morrer conta a história de uma blogueira de trinta e cinco anos obrigada a sair do seu apartamento após uma sentença judicial irrecorrível. Emparedada em seu quarto do pânico improvisado, enquanto o mundo lá fora rui à sua volta, ela decide escrever uma carta que nunca será entregue à mãe, uma figura enigmática e ausente desde a sua infância. 

*
O século arrebentou. Na virada, fui pura euforia. Na boate da praia de Pipa, eu e Lara, a gente foi além das diferenças e comemorou. E eu mal sabia, Lucy, que era a despedida dela. Lara não tinha nada a ver com você. Não era de neura, de noia, nem era de conviver comigo. A gente só tava junto aquele dia porque... nem sei por quê.  Naquele mesmo dia, no carro ainda, teve uma hora que olhei pra ela e pensei comigo, por que não esquecer esse negócio de encontrar essa minha mãe que abandonou a gente? Por que não começar a conviver com minha irmã? Nem sei o que faria dali pra frente. Nem tem sentido falar sobre isso, Lucy.

Quando o relógio gritou o ano novo, minha mente tava inundada do desejo de ficar frente a frente com você. Que Lara esperasse, que Lara viesse comigo nessa procura.  E pra ser sincera, Lucy, desde sempre algo me dizia que não adiantava viajar o mundo, fuçar sua história, catar pistas. Pra onde ir, se aquela pulga atrás da orelha me dizia que você tava morta? E o engraçado é que Lara, que nunca mexeu uma palha pra isso, encontrou você primeiro que eu.

Sim, minha prece na hora da virada parecia adivinhar esse caminho. Eu queria você e, ao mesmo tempo, queria que tudo acabasse ali. O desejo de morte, desde sempre fiel escudeiro, nunca se fez tão presente como naquele trinta e um de dezembro, foi nesse dia que ele virou protagonista desse meu folhetim. Cantei e dancei na boate lotada. Imaginei a alma de todos sendo absorvida, uma luz, uma força maior, um sopro às avessas roubando todos do corpo. Que o bug do milênio desgraçasse com a coisa toda. Zefini. Eu nem ficaria puta de não ter terminado o meu curso. Nem de ter casado. Nem de ter tentado ter filho. Não faz mal, eu disse no primeiro minuto do século ao som de Eurythimics, que o planeta inteiro se imploda. Seria uma coisa linda de se ver.

Já caí na lábia de muito salvador. Era bom que no dia do bug do milênio uma bomba atômica dessas aí esquecidas por um ucraniano louco explodisse bem aqui nessa parte mais linda do Atlântico. É chato morrer sozinha. Nesse ponto, eu tava longe de ser voínha. Não queria ser a tal baleia velha se afastando do bando pra encalhar numa praia deserta. Eu queria era o contrário, morrer às vistas, um turbilhão de emoções, sons, cheiros, cores, barulhos. Quantas vezes quis morrer cheirada. Minha morte só faria pleno sentido acima de cento e cinquenta decibéis. Foda seria, foda no sentido bom da coisa, seria foda morrer dançando feito doida, de braços pra cima, suor escorrendo na testa, cabelo entrando na boca. O bom seria morrer entre os dois minutos nada centenários de um hit qualquer.

Quando você morreu, Lucy, o que você sentiu?

O bug do milênio só atacou meu windows noventa e oito e meu vibrador do Paraguai. Fiquei como uma besta torcendo. Eu, Laura apocalíptica, invocava a ira dos infernos. Que morressem todos os salvadores bons de lábia na virada do milênio. Seria a faxina de algum deus, sabe se lá quem, mudando os móveis, os astros de lugar. 00:00:01. Meu windows deu tela azul, o vibrador nunca mais vibrou. Nunca fui uma boa feiticeira.

Só Lara se foi.  

***  

Aprendi com voínha. Era uma boa rogadora de praga.

Dona Noêmia tinha um olho de bruxa, uma bruxa sem alvoroços. Exercia seu catolicismo com mínimo fervor e com o máximo rigor. Fizesse sol ou chovesse, ela tava lá marcando ponto na missa. Voltava leve da procissão ou dos minutos da liturgia. Tava mais pra monja, não era de se fazer de santa, das santas do andor, era só monja, com todas as disciplinas dos monges. Sei não, acho que ela só ia pra igreja pra dar um tempo, não por culpa, só ia pra dar um tempo no seu maior prazer que era falar mal dos outros.

Nunca vi voínha falar de si, só dos outros. Não digo que seu feitiço funcionava, assim como eu, ela só torcia. Eu devia ter aprendido isso também com ela, parar de olhar pra mim, de me culpar e passar a só culpar os outros. Teria sido mais fácil. Na feira, ela apontava aquela fruta bonitinha de casca sem manchas. Você podia abrir com a faca, dentro, nem sei por onde entravam, sua carne tava comida de bicho. Melão, goiaba, melancia. Laranja azeda, laranja seca, macaxeira que não cozinha. Dona Noêmia, a bruxa da feira de Santa Rita, pegava na fruta, levava aos olhos, girava trezentos e sessenta graus. Pronto! Ou a fruta entrava na sacola, ou ia pro lixo. Não tinha vendedor que discordasse. Discordar pra quê? Voínha era das bruxas que nunca erram. Com ela era assim, ou concordavam com o que dizia ou passavam vergonha. Ela falava pouco, nunca abria a boca, só quando tinha certeza.

Os salvadores de boa lábia, queria todos eles hoje comigo na lata do lixo. Laura, laranja azeda. Laura, laranja seca. Laura, macaxeira que não cozinha.

Pra voínha, o mundo não prestava, só salvava ela. Se soubesse desse negócio de bug, não duvido que diria, é de hoje que esse mundo não passa, é de hoje que essa bola redonda com defeito de fabricação vai parar na lata de lixo do universo. Voínha se dizia católica. Dá pra acreditar? Não acredito. Nunca ouvi ela falando de redenção, remissão ou salvação. “A gente só tá vivo é porque Deus deixa”. Deus? Que Deus, voínha?

Aprendi com ela a reconhecer que a gente, todo mundo, tá tudo fudido; formigas na brincadeira de não ser formiga. Dava pra sentir ela pegar o mundo com todo carinho, levar à altura dos olhos e observar, assim como nas laranjas, longitude por longitude, a porcaria que ele é.

***  

Se jogar na frente de uma Scania venenosa. Em noventa e nove, pode crer, era por aí que morava o meu pensamento. Sentar num canto da casa, apagar as luzes e cortar os pulsos. Sem mimimi, engolir em seco e aguentar até esvaziar. Tomar um doce pra catalisar ou me convencer que faria contra minha vontade. Me dar de presente ao mar e nadar, nadar, até não ter mais força pra voltar. Que algum piloto entusiasmado com o onze de setembro, que nem ainda tinha acontecido, saísse do Aeroclube e jogasse seu bimotor bem aqui nesse prédio que ainda vivo. Ainda vivo, quem diria que eu viveria tanto pra falar assim. E, Lucy, por favor em nenhum momento você pense que isso é uma afirmação vitoriosa. Ah, deixa, você sabe bem o que tou dizendo.

Sabe aqueles dias que a gente se sente um trem desgovernado tentando governar um trem desgovernado? Pois bem.

E eu me achava tão velha. Velha tou hoje.

Hoje meus dedos digitam sobre uma Laura que tem o dobro do número de aniversários que o calendário me impôs. Meus dedos digitam o que tem dentro, o universo que circula na mente. Impulsos elétricos daqui de cima pras pontas dos dedos, é isso que sou. Não quero falar pra você da superfície, de minha pele. Minha pele é limpa, esticada, caiada, fruta tipo exportação. Meus dedos me enxergam, assim como eu, menina Laura da oitava série, ao olhar pra Tia Teresa. Na minha frente, uma velha com sua mente pré-historicamente velha. E eu tão distante dela. E eu querendo ser ela.

Talvez eu tenha herdado de voínha o dom de ver dentro das pessoas. Nela, esse dom funcionava sempre. Comigo, só quando na minha frente tem alguém que é meu espelho.

Teve um dia em dois mil e um, voínha tava aqui no apartamento visitando a gente. Acordei de ressaca. Domingo nublado, começo de tarde. Um silêncio. Ela na sala com meu diário. Não lia. Só folheava. Assim como sua visão só folheava o plantão alardeante da tv. “Senta aqui, teu pai e Douglas, eles foram comer carne, fiz peixe, tá com fome?”. A fome não era maior que a vontade de deitar no colo dela. Ela nunca foi desses mimos. Nem eu. “Foi o povo saindo pra eu baixar o volume dessa televisão. Um falatório sem fim por causa desse prédio. Duas torres pra cá, duas torres pra lá. Tou com quase cem anos e nunca vi nada nesse mundo que não caia. Tudo um dia desaba”, Tudo voínha?, “Tudo sim. Umas coisas de fora pra dentro, outras coisas de dentro pra fora. Tirando Deus e o Sol, tudo desaba”.

Qual é a medida da velhice? O quanto de urgência se tem em ir embora? Ou o quanto de desdém se tem por essa mais cinzenta das horas?  

***

Dois mil e um. Duas torres caíram do céu de Nova York e eu tava dormindo. Terça-feira. Não precisava acordar cedo. Era jornalista formada desempregada torrando o restinho do dinheiro da loteria. “Tentei até ligar”, disse meu pai, “O celular só caía na caixa postal e o fixo, só falha técnica. Como você foi perder o evento do século?”. O século cheirando a leite já tinha seu grande evento. É, Lucy, você morreu e o mundo continuou. A gente agora tem telefones que cabem na bolsa, a gente tem quase a cura do câncer e um monte de doido se matando. Como você foi perder?

Os afegãos bagunçando o coreto dos americanos e eu, aninhada nos meus lençóis brancos, sonhava fazendo um bolo de nata, o bolo de voínha, a receita secular que voínha fez questão de me ensinar. Um bolo simples e sem berro. Bolo fofo que sai bem com um cafezinho. No sonho, todos os ingredientes sobre a mesa. Cada um em recipientes apropriados, igual aos dos programas de televisão. Do lado esquerdo da mesa, a receita, escrita numa caligrafia que não se assemelhava a de ninguém que eu conhecia; do lado direito, a fotografia aérea de um dos bolos de voínha. Me dispus a seguir à risca. Não tinha errada, era só seguir os passos. Fui fazendo, fazendo… aí teve uma hora que meus braços congelaram, foi quando percebi que não adiantaria aquele esforço se já sabia que o resultado da fornada seria uma merda. Nem em sonho eu faria o bolo de voínha. Laurinha do bolo solado, moça sem dotes.

E se eu mesma inventasse minha receita? Só de raiva esvaziei a latinha de papelão de fermento royal. Agora bora ver se não crescia.

Não nego que mesmo no replay torci pra que as torres caíssem. Comemorei mais do que os gols de Ronaldo na final da Copa. Não nego que no sonho torci pra que o bolo crescesse bem mais que o de voínha. Quantas vezes torci pra que, uma vez, pelo menos por uma vez, o dela solasse e saísse do forno uma massa dura e emborrachada.

E o meu bolo de nata do sonho cresceu. Cresceu tanto que saiu pelo forno. Um bolo fervente, de pele dourada. Inchou mais, tomou a cozinha, os outros cômodos, saiu pelas portas e janelas, tomou as ruas de Manaíra, subiu pro céu, engoliu os aviões, se perdeu dos meus olhos. No começo não entendi direito onde eu me encontrava nesse bolo. Meus olhos procuravam sem perceber que eu tava dentro dele. Eu procurava meu forno, minha casa, meu bairro, sem me dar conta que não existiam mais. Foram devorados pela massa pra que ela crescesse. E eu, dentro, me sentia expandir junto com ela. Eu maior que a Terra; o bolo maior que tudo que planejei. Sem mais nada, só eu e meu bolo, me senti num imenso nada preenchido por aquela massa esponjosa e bege de nata.

Onze de setembro de dois mil e um. Depois que Lara morreu na virada do século, meio que enlouqueci. Achava que ia morrer a qualquer momento, a culpa por sua morte se espalhava em tudo que eu fazia, pra onde eu ia. Com Lara eu perdi minha maior razão, buscar por você. Até que tentei insistir, em vão. Caí em mim. Rasguei as pistas, sua história e procurei outros motivos – assim como se caça borboletas no escuro. Sonhar com bolo de voínha foi sonhar comigo mesma. Também sonhar com o bolo de voínha era sonhar com voínha. Voínha era uma torre até o céu. O pilar da família. Lucy, foi nesse dia que quis ser ela, queria casar, colocar uma penca de pirralho aqui dentro e tomar conta de outras vidas até a velhice. Não nego, ao acordar do sonho de natas, torci pra que voínha morresse logo. Hoje, olha a diferença, sinto tanto sua falta, tanto, tanto, que essa angústia não coube em mim, se espalhou pelo apartamento todo como a merda do bolo de nata gigante.

Voínha foi a única pessoa que realmente amei. Laura tapada demorou pra entender o que é amor. E eu achava que o amor é coisa que não se entende. Eu deveria ter lido mais o dicionário que voínha me deu. Hoje o tempo parece parado porque não tenho ela ao meu lado.

Voínha, meu Deus, meu Sol.        



Revista Pessoa
 



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