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Não é uma dedicatória, mas um escrito à maneira de Clarice. Sobre o húmus diário do jardim em fermentação e vida, miniatura doméstica de Jardim Botânico, vejo a vida virar em outra coisa, vida ainda, mas diversa. Assim como no escritório, que abriga a biblioteca, no jardim a vida fica sempre à beira de. Acompanhei o trabalho de umas lagartas ordinárias sobre uma coroa-de-cristo ou coroa-imperial. Não se trata da tradicional planta espinhenta, de resina cáustica, de quem a admiradora pede distância, mas de outra, da família das liliáceas, com flores abrindo-se como umbela, os pedúnculos florais defendendo-se em vermelho da feiura que nos espreita a todos. Raro que a feiura toque as flores, as borboletas andam contando por aí o quanto elas são belas. O inconveniente é que as lagartas antecedem as borboletas e podem reduzir, como nesse caso, as folhas a um papel esgarçado, o bulbo à sombra desfeita no buraco vazio.

Vi as lagartas. Umas doze, chafurdavam na massa vegetal, avançando no destino de um ciclo biológico do qual não podem escapar, como todo ser vivo. Como a árvore que vejo hoje, estupenda, e que plantei há quarenta anos no fundo do quintal, acreditando ser um arbusto. Levanta-se agora como um portento de seus dez metros, o tronco largo, enramado, pródigo nas folhas verdes, as flores cor de laranja em toque vivo e contrastante. Um cálice sobre a mesa do vale, logo abaixo.

Acolhe aves, morcego, permite sem reclamar algumas parasitas. Generosa, tem o péssimo costume de espalhar-se ao sabor dos pontos cardeais, apesar das podas delicadas, do pedido sensato para que não volte a crescer naquela proporção, que nos obrigará a usar, de novo, facão e serra. Justo o que acontece agora. Depois da poda do final do ano, a espatódea escolhe outono e inverno para florescer sem medidas, debruçar-se sobre o muro do vizinho, sujar piscina e grama sintética em terreno alheio. Sem meias conversas, mas com polidez e energia, o vizinho solicitou nova poda, e logo, sem esperar o tempo certo.

A vida dizendo ao que veio, para morrer, virar massa informe onde se supõe a transformação. Duvido. A coroa-imperial não brota de novo, as lagartas saem por aí, não sei se voltam. É provável que ponha outras plantas no melê de terra que ficou lá. A vida pode caber na pá de fel e nojo, a cabeça se debruça congestionada sobre nervos e cortes.

As fibras sintéticas nutrem-se do bom comportamento dos vegetais podados. Ai, que coisa! Clarice ia escrever desse modo? Suportaria levar para o texto o nojo do plástico debaixo dos pés, a água límpida nos pixels da ausência? Ouviria a frase estéril, “eu gosto de plantas”, sem buscar debaixo do tapete a linguagem espoliada? Não sei, só me lembro de cego e mulher vidente em tarde feita de húmus e azedos.



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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