Imagem 1525894793.jpg

Marcelo Girard: A mágica da suspensão

Na foto, Marcelo Girard. Divulgação



2018-05-03

Evandro Affonso Ferreira entrevista o designer Marcelo Girard

 

Evandro Affonso Ferreira – Palavras escritas socorrem soluços?

Marcelo Girard – A palavra escrita têm poderes indescritíveis. Mas só a literatura, de experiência ou de invenção (ou a combinação das duas) pode aplacar nossas angústias fundamentais mostrando a proustiana escada caracol que leva ao nosso interior.

 

Evandro – Envelhecer é fingir distraimentos para deixar gato comer nossas incandescências?

Marcelo – Distração fatal é deixar a cabeça envelhecer. Como disse Santo Agostinho, "se não vou morrer, tudo bem, mas se vou morrer, por que não agora?" É preciso botar fé no próprio taco (que Chesterton não nos ouça) para chegar lá e dizer "por que não agora?".

 

Evandro – E a árvore? Aquela que você ficou de plantar um dia? Calendas gregas?

Marcelo – Um dia joguei umas sementes na escuridão da terra com as melhores das segundas intenções. Mal posso esperar a hora de encontrar pelo menos uma árvore acontecida desse lance de dados.

 

Evandro – Toda mulher é Diadorim? Sim: nossa neblina?

Marcelo – Toda mulher nos revela. A mãe, o irmão feminino (Pascal, Tzvetáieva), os amores nos revelam e nos transfiguram. E é a maior das figuras femininas que nos sublima (no sentido químico e anímico) no ato final.

 

Evandro – E nós? Sim: homens; você, eu, quejandos? Raskólnikoves congênitos?

Marcelo – Temos a opção de ser trágicos. Não há outro modo de contornar a paixão que não é só de gênero, como nos provam todas as Antígonas. Como trágicos, vamos e voltamos das profundezas da vida e passamos na prova.

 

Evandro – Inexorável... Inexorável... De repente, vontade de lançar mão deste adjetivo numa pergunta qualquer... É possível fazer ouvidos moucos às plangências das inexorabilidades cotidianas?

Marcelo – É muito difícil ficar alheio ao real, que é duro e nos fustiga. De todos os sentidos, ouvir é o mais inteligente e o mais humanizante.

 

Evandro – Leitor diligente, incansável, você também, feito eu, quer ser enterrado lá dentro? Sim: entre uma página e outra?

Marcelo – A ideia me atrai, quem sabe um dia, folheando o futuro, eu me leio com outros olhos em um novo capítulo.

 

Evandro – Viver é remendar derrocadas?

Marcelo – "Apaixonar-se é criar uma religião cujo deus é falível" (Borges). Toda paixão acaba em um suspiro. Quanto ao amor, o filósofo disse que é uma questão de sentimento, não de vontade, que ninguém pode amar só porque quer. Viver deve ser consertar amores que não têm conserto.

 

Evandro – Seria poético afixar cartazete em todos os postes da cidade, implorando: PROCURA-SE OLHAR PERDIDO?

Marcelo – O olhar perdido é o menino perdido, é você naquela foto que tanto inveja lhe causa hoje, você nos seus tenros anos. O menino perdido é a poesia interrompida.

 

Evandro – E se não exercemos bem a indigesta tarefa de transpor limiares? Damos em água de barrela?

Marcelo – Até no pior dos círculos do inferno há lugares menos letais que outros, tem aquela hierarquia, e vale a pena lutar por uma locação mais aprazível.

 

Evandro – E as Parcas? Cruz-credo? Ou... Devemos recebê-las com altiveza socrática?

Marcelo – Existe destino? De onde vem este mito? De todas as deusas do destino, preferia ser guiado pelas mais versadas na malícia, no jogo de cintura. Mas recebo as bem comportadas com a mesma veneração e mesmo sentimento de perigo.

 

Evandro – Expressão lucreciana: Fumegante archote da ira. Apenas o sopro das Moiras é capaz de apagar de vez essa tocha irascível?

Marcelo – Como disse o Ayres no seu diário, não existe nada mais tenaz do que um bom ódio. Fora de controle então, nada é capaz de apagar essa chama.

 

Evandro – E a verdade? Nosso, por assim dizer, Suplício de Tântalo?

Marcelo – "O clima no nosso reino interior será temperado, de modo que um colérico, um melancólico, um sanguíneo, um fleumático poderão governar por turnos de três meses cada". Isso é Brodski adaptado sem cerimônia. Seja qual for o regime e o estatuto, a ordem é chegar mais perto de nós mesmos tântalos institucionalizados.

 

Evandro – Mau-olhado faz ricochete?

Marcelo – Não existe mau-olhado que não seja bom. Quando unânimes, então, como demonstra a balística, eles se entreolham e se anulam.

 

Evandro – Há muitos átomos na saudade? Em acentuado relevo naquela que dói demais?

Marcelo – A saudade entra na alma e lá permanece com sua radiação insidiosa. Já a nostalgia, de tão superficial, é indolor e estéril.

 

Evandro – Meia horinha antes da chegada dele, barqueiro Caronte, alguém poderá perguntar: E a vida? Sua vida? Poema épico? Lírico? Dramático?            

Marcelo – De épico só conhecemos os imprevistos e a bancarrota. Nos momentos de terror reagimos com improvisos que nunca dão certo. Como atravessar um rio numa balsa precária. Somos parte da tragédia em um ato que é a nossa vida.

 

Evandro – E os amigos de Ulisses? Se conhecessem os Cantos de Maldoror não cairiam nos cantos das sereias? 

Marcelo – Seriam menos inocentes. A prova está no que Lautréamont diz, que se as ondas do oceano estão em fúria em algum lugar, em outra zona estão na mais completa calma. O que teriam feito com esta informação sem o canto das sereias?

 

Evandro – Tenho lido muita poesia. Cada vez mais comprovo argumento de Octavio Paz, segundo o qual O poeta põe sua matéria em liberdade. O prosador a aprisiona. Hem? (Ah, agora me lembrei desta observação do próprio poeta mexicano: A pedra triunfa na escultura e se humilha na escada).

Marcelo – A poesia é a fonte sagrada. Não ler poesia é como ter estado no inferno, no purgatório ou no paraíso e não ter avistado o nariz de Dante.

 

Evandro – Romper diques... A esta altura da vida, nossas vidas, sua, minha, hem? Empreendimentos obscenos?

Marcelo – O rompimento maior a gente não quer experimentar tão cedo... Obsceno talvez seja nada fazer.

 

Evandro – Mato sem cachorro? Olhando para trás, estátua de gelo; para frente? De gesso?

Marcelo – Estátua de sal; se não formos nada com a nossa vã desobediência, ainda seremos o sal da terra.

 

Evandro – Heráclito disse que não se entra duas vezes no mesmo rio. Foi navegando nessas mesmas águas que Henri Michaux afirmou: Quando me virem, bom, não sou eu, hem? 

Marcelo – Essa pergunta não para quieta no lugar. Só a arte faz a mágica da suspensão: um toque de beleza é uma alegria para sempre.

 



Evandro Affonso Ferreira

Evandro foi redator publicitário até 1990, quando sofreu um infarto e abandonou a publicidade para se dedicar à literatura. Estreou com o livro de humor Bombons Recheados de Cicuta, renegado pelo autor. Em seguida publicou Grogotó. O mineiro de Araxá teve em São Paulo os sebos Sagarana e Avalovara. Em 2010, ganhou o Prêmio APCA de melhor romance com Minha Mãe se Matou Sem Dizer Adeus e o Prêmio Jabuti de 2013 com O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam. É também autor de Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos. 




Sugestão de Leitura


"Vida é tudo aquilo que precede o amor humilhado"

  Evandro Affonso Ferreira – Inútil esperar-espreitar afagos das probabilidades? Mario Vitor Santos – Claro que n&a ...

Tezza: "Não sei mais por que escrevo"

  Evandro Affonso Ferreira - E quando o dia amanhece predisposto a provocar cãibra em nossas palavras, deixando-as submersas no p& ...

A inútil busca do inútil

  Evandro Affonso Ferreira – Henri Michaux, numa intromissão psicográfica, exigiu que ele mesmo fizesse a primeira pe ...
Desenvolvido por:
© Copyright 2018 REVISTAPESSOA.COM