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15 anos de poesia portuguesa: heterodoxias ou nem tanto

Foto: Real Gabinete Português de Leitura. Reprodução



2018-03-15

 

Como ler as eventuais pontes que, nos bastidores de congressos e colóquios, festivais e lançamentos de livros se fazem entre autores e editores? Que repercussão há de colóquios e certames no que respeita à publicação de poetas portugueses em editoras africanas e poetas africanos em editoras portuguesas? E no Brasil, que se publica da nova geração de poetas angolanos, cabo-verdianos, moçambicanos e são-tomenses, guineenses e de outras latitudes da superlativa “lusofonia”?

 

 

A Gilda Santos, Ida Alves, Jorge Fernandes da Silveira,
Luis Maffei e Dona Cléo - presença real -
pelo que dão à literatura portuguesa.

 

I

Creio que, para responder às inquietações deste breve inquérito, se impõe fazer um exercício de verdade. A complexidade das literaturas portuguesa e brasileira, bem como as que em África em português se escrevem, impede-me de traçar com a completude desejada o panorama das tensões e contradições ocorridas nos últimos quinze anos neste plano cultural.

Parece-me que não conhecemos (nem isso será inteiramente possível) o que se escreve em todo o Brasil, cuja dimensão continental justificaria, por si só, e no que à literatura importa, uma designação nova. O Brasil não é exactamente composto de uma literatura, mas de várias “literaturas brasileiras”, dada a monumentalidade do seu território. As realidades geográfica e étnica, religiosa e política são diferentes de Estado para Estado e as experiências literárias ou outras em muito divergem dos pólos económico-culturais mais tradicionalmente fortes. Essas são condicionantes óbvias quanto a uma unidade cultural que, pelas razões inversas, existe em Portugal, país pequeno territorialmente, com centros - Lisboa, Porto, Coimbra - político-culturais estabilizados há muito e com uma unidade linguística uniforme desde o século XII.

A frequência universitária e o processo de escolarização firmados desde o 25 de Abril de 1974 constitui um outro factor de desenvolvimento que, apesar de novas formas de analfabetismo e a evidente ausência de saber histórico-literário das gerações mais novas (as que nasceram em 2000), não se pode menosprezar, uma vez que potenciou nos últimos vinte anos o nascimento das chamadas «industrias culturais», conceito um pouco vago, mas que se  verifica ser, na prática, uma realidade de facto: cada vez mais em bairros de intervenção prioritária se multiplicam as infrastruturas dedicadas a albergar grupos de teatro, encontros de leitura, biliotecas.

Tal facto explicará o continuado interesse que, um tanto surpreendentemente, a poesia tem no meu país. Criam-se e divulga-se através de revistas novas (a Apócrifa, dirigidas por jovens entre os 22 e os 30 anos é disso exemplo) a poesia feita por gerações mais novas, nomeadamente a geração já nascida nos anos 90.  Promovem debates e tertúlias, feiras do livro e outras acções semelhantes.

Sei, por acompanhar o que no Brasil se vai fazendo, que o mesmo sucede no Rio ou em São Paulo, em Curitiba ou em Porto Alegre. E é sintomático vermos, no documentário A Palavra (En)Cantada, as multidões de gentes que se reúnem para ouvir Lirinha ou Maria Bethânea ou Adriana Calcanhoto dizendo poesia brasileira e portuguesa. Chacal contínua a suscitar o interesse de diversas sensibilidades e a reunião da sua obra (Tudo (e mais um pouco), 2016) é bem o espelho de como a palavra poética ainda detém o poder de ser vária, sendo a mesma, fiel à sua provocação.

A actual situação política brasileira pode mesmo potenciar a criatividade de quem escreve e, sem ceder quanto à ingénua posição de uma poesia feita por ideias – ela faz-se com palavras, disse Mallarmé -, estou em crer que certo espírito de intervenção nascido nos anos 70 do século passado se mantém vivo, ainda que concorde com Claudio Daniel quanto ao diagnóstico feito à atitude e intensidade de certo lirismo brasileiro de vários autores que se publicaram naquela década e que, na comparação com o Modernismo de 22, talvez não tenham mais que seguido procedimentos já exauridos por Bandeira, Oswald de Andrade. De destacar o informado e informativo prefácio que Daniel assina em Antologia de Poesia Braileira do Início do Terceiro Milénio (Exodus, 2008, 1ª ed.), onde se desenham as principais linhas de força da poesia do Brasil: dos modernistas da vanguarda paulista à «geração mimeógrafo», da dicção coloquial-quotidiana, à poesia visual, passando pela adesão à cultura pop e à inevitável influência das novas tecnologias, o que não impediu o interesse pela cultura tradicional, bem como pelo barroco ou por autores que se tornaram presença real no Brasil – de Paul Celan a Herberto Helder -, sem esquecer a mesclagem com a música e o que de espírito de pesquisa e aventura nasce de gerações que não recusaram as possibilidades pela comunicação verbal clássica (o texto em papel, a palavra declamada) e a ampliação das possibilidades comunicativas que o virtual trouxe ao campo da poesia.

É, pois, dessa arte do som e do sentido que, neste balanço, falarei e, ficando muito por dizer, refiro os poetas que, a meu ver, trazem na sua poesia um potencial de rigor e provocação à literatura escrita em português entre 2003 e 2018.

 

II

Decerto que para além do eixo Rio-Brasília-São Paulo (Curitiba e Santa Catarina podem ser outro eixo a ter em conta), outras zonas existem onde a prática literária se apresenta em outros moldes, em outras “virtualidades” e preocupações. Podemos perguntar: Que poesia veio a lume em cidades/Estados como Natal ou Recife? Que produziu Manaus ou cidades como Baía, Pernambuco, Santos, Florianópolis ou Londrina? Que ecos houve em Portugal (e no Brasil?) do Manaus Artist Gang onde a arte plástica se juntou à literatura? Se Thiago de Mello é reconhecido como poeta, que diremos de nomes como Bráulio Bessa ou Daniel Francoy, este último mais conhecido em Portugal? Em 2005 Ademir Assunção organizou o ciclo de música e poesia Outro Bárbaros, no Itaú Cultural (com Cd conjunto) e não recordo os ecos dessa (e de outros sucessos, diga-se) experiência no lado de cá do Atlântico.

Por outro lado ainda, qual a ressonância, hoje, dos nomes que na dita antologia de Cláudio Daniel participam? Adriana Zapparoli, André Dick, Andreia Catrópa, Danilo Bueno, Donny Correia, Douglas Diegues, Leonardo Gandolfi, Micheliny Verunschk, Nicollas Ranieri, Simone Homem de Mello, Virna Teixeira, alguns autores que Claudio Daniel seleccionou para a sua antologia do Terceiro Milénio, participaram em importamtes revistas literárias, da Inimigo Rumor à Coyote, da Cult à Et Cetera, fizeram blogues (portunholselvagem, por exemplo) e conheceram publicação em suplementos literários como «Augusto» (Jornal da Paraíba) ou no reconhecido Folha de Poesia... São hoje, em graus diversos, autores sem os quais é difícil abarcar a heterogeneidade da poesia brasileira, a que devemos somar os nomes presentes nas antologias organizadas por Heloísa Buarque de Holanda e Federico Barbosa, inescapáveis. Mundo, mundo, vasto mundo, esse o da poesia...

De 2003 a 2018, casos há que se singularizam e que são, para além dos muros das Universidades, achados raros no que à invenção poética respeita. Com certo reconhecimento entre a elite cultural dos dois países, referir-me-ei a alguns poetas que asseguraram, neste lapso de tempo, uma inscrição no cânone ainda em movência das literaturas em apreço.

Eucanaã Ferraz é claro exemplo de um poeta brasileiro que goza hoje de uma recepção ampla e consensual. Foi recentemente publicado pela Imprensa Nacional Casa da Moeda e, nestes quinze anos, chancelas como as Edições Quasi, que tantos autores da nova vaga poética portuguesa revelaram, bem como órgãos de imprensa e do sector universitário, viram em Eucanãa um dos autores mais originais e incisivos no quadro da poesia contemporânea. A revista Piauí chegou mesmo a dedicar-lhe um dossier de destaque e, num certame tão importante quanto a Feira Literária de Paraty, Eucanãa marcou presença (e marca) com intervenções críticas e leituras dos seus poemas, sempre com acolhimento da parte do público.

Com efeito, a sua voz, como se vê pela reunião de toda a sua obra, para além de dialogar intensamente com João Cabral de Mello Neto, deve muito ao magistério de Sophia de Mello Breyner e de Eugénio de Andrade. O sentido geométrico dos seus versos, a propensão para um entendimento arquitectural da linguagem, centrada em subtis jogos fonomelódicos, a par de um ideal de lisura que visa uma substantivação do real, isso faz do autor de Sentimental, em face do desconcerto do mundo, uma voz até certo ponto clássica, afastada do gosto mais realista-urbano de muitas vozes coevas.

Outro poeta da sua geração, Carlito Azevedo, também marca forte presença no discurso poético brasileiro, influência determinante que foi e é ainda para vozes actuais e que vêem nele uma das fontes da linguagem descritivista-narrativa da poesia, seguindo-lhe os moldes em que fixam uma representação do mundo deceptiva, irónica e erótica ou até mais escatológico-sexual.

António Cícero, pensador agudíssimo e cujo ensaio Finalidades sem Fim, vindo a lume nas Quasi Edições (Vila Nova de Famalicão) traz para o discurso estético em português uma importante meditação sobre as relações entre a poesia e a filosofia, é outro nome a ter em conta.

Explorando na própria obra a “finalidade sem fim” da arte, os seus poemas são uma penetrante evidência do que o objecto poético pode dizer sobre a vida. O seu universo contempla poesia quer sobre os mais banais acontecimentos, quer sobre as grandes questões irresolvidas do Homem. Mas a sua linguagem recolhe, num sábio descritivismo, a sageza e a temperança de lições clássicas, sem ceder ao mero narrar efabulatório. Poeta e filosófo, como o seu livro recente – A Poesia e a Crítica – reforça, António Cícero é um mestre da contenção, do refreamento lírico e impõe-se naturalmente na actual lírica brasileira, a par de outros autores de gerações vindas dos anos oitenta e noventa e cuja centralidade não se pode ignorar (Fabiano Calixto, André Dick). Virna Teixeira é, neste sentido, uma voz que, exímia no poema em prosa, há que ler e rever.

A morte de Ferreira Gullar marca, por assim dizer, o fim de um ciclo e é a geração dos poetas nascidas nos anos 40/50, jovens nos anos 60 e 70, quem ascende, naturalmente, nos degraus do Parnaso, como se verifica com Affonso Romano de Sant’Anna ou António Carlos Secchim, poetas de fino recorte e densidade lírica, onde a exasperação crítica, de verso longo e declamatório, de ressonância épica (Sant’Anna) convive com a dicção clássica e irónica do autor de Todos os ventos. Mas, na dita movência do cânone há espaço para lermos as propostas de autores que Buarque e Daniel apontam, a par de outros (Nuno Ramos, Francoy, Maffei, Gandolfi) que, mais discretos ou menos citados, são autores de livros que, a meu ver, merecem a atenção crítica. De Francoy: Em Cidade Estranha (Artefacto, 2010); Ramos: Junco, 2012; Maffei tem publicado em Portugal, na Deriva Editores, e destaco Telefunen, de 2009 e Leonardo Gandolfi, que viu já poemas seus editados na revista Relâmpago, a mais importante publicação de poesia em Portugal, desde 1997; Gandolfi: Minhas Férias (Lummen, 2016).

Outros poetas brasileiros a ler neste 15 anos: Simone Brantes, que desde os anos noventa tem publicado, e que, apesar da sua discreta presença entre as vozes mais recentes, é uma das mais originais poetas brasileiras da actualidade. Outro nome: Ricardo Domeneck. Ambos reinventam o idioma e exploram intertextualidades que, do pop ao erudito, traduzem o lado culto de uma poesia questionante das possibilidades de se dar a ler para além da academia.

Isto acontece num momento em que Angélica Freitas, Bruna Beber, Luca Argel e Victor Heriger podem assumir-se definitivamente como vozes da geração a que pertencem, a dos que nasceram nos anos de 1970 ou já dentro da década seguinte e beneficiaram da democracia – a espaços democrática – no Brasil. Mas há, todavia, um sinal a ter em conta: o discurso poético brasileiro tem jogado o perigoso jogo do realismo mais rasteiro, da poesia de circunstância que, partindo dos “dias pequenos charcos” de certo magistério, pode levar àqueles becos sem saída do lirismo: ausência de poder metafórico, banalização do acto da escrita, transformado em mero registo de coisas corriqueiras. A geração do “mimeógrafo”, de Paulo Leminski e Ana Cristina César, de Freitas Filho aos discípulos de Waly Solomão; essa geração fez da ruptura dos anos oitenta um gesto com vista à imaginação. Não fez da literalização do poema uma porta aberta à ditatura do banal, seja nos processos ou nos temas.

 

III

Gastão Cruz, o mais acabado fazedor do verbo na língua de Camões (Existência é o mais belo livro de quantos livros de poesia se publicaram em 2017 em Portugal), obriga-nos a constantes reposicionamentos teóricos no que respeita ao trabalho do verso. É um desses autores para quem o enigma da poesia exige uma moderação na resposta.

Em diálogo com a alta tradição camoniana, mas discípulo de Sá de Miranda e de Pessanha, leitor atento de Blake e de Rimbaud, conhecedor profundo da poética pessoana, crítico dos mais importantes da segunda metade do século XX e primeiras décadas do presente século em Portugal, Gastão é um mestre do ritmo e da imagem, da elipse e dos jogos de significante. O seu rigor oficinal, que poucos poetas revelados de 2003 até à actualidade souberam (ou quiseram) adoptar como lição, mantém viva a herança de Carlos de Oliveira, de Ramos Rosa, de Ruy Belo e da sua própria geração, a que surge com Poesia 61 (Fiama Hasse Pais Brandão, Luiza Neto Jorge, Casimiro de Brito e Maria Teresa Horta).

A palavra é o centro dinamizador do poema, a sua energia nasce do poder conferido à densidade de certos vocábulos que determinam o sentido do texto, transferindo-se do plano da realidade biográfica para um plano de transfiguração estética as “cenas vivas” da linguagem. O texto é o espaço transfigurador da vida, lugar do irreal-real onde o passado revive, e isso é o que torna intensa e concreta a experiência da sua poesia melódica, de imagens impressivas, clássica no trabalho sintáctico, maneirista nos termos em que dá a ver o desconcerto do mundo.

Retomando de Fiama Hasse Pais Brandão a sentença de que o poeta imorredoiro é aquele que introduz na língua a metáfora mais densa, Gastão Cruz é na poesia portuguesa em 2018, e de há décadas, na verdade, a voz central para quem vê no acto da escrita aquele labor limae que o equivocado “regresso ao sentido” vindo dos anos setenta quis eclipsar ou nem sempre soube entender. Nuno Júdice, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta, Luís Filipe Castro Mendes são, entre outros que poderia apontar, poetas que, na justa consagração que lhe devemos, continuam a fazer da poesia portuguesa esse século de ouro que o nosso novecentismo comprovou ser. No quadro tensional que se viveu recentemente (Troika e políticas de austeridade económica, desemprego galopante, cortes nas pensões de reforma, percarização do mundo do trabalho), Alegre (Bairro Ocidental) e Júdice (O Mito de Europa) publicaram livros que de novo fizeram do poema uma arma contra a indigência dos poderosos. Alegre, de resto, ao receber o Prémio Camões vê consagrado um percurso de poesia que, na linhagem a que pertence, a que vem de certo romantismo anteriano e passa por Junqueiro a Torga, reiterando as lições de Sophia e do mais penetrante neo-realismo, comprova que a fidelidade à palavra de poesia é a via única para a afirmação dessa «paixão veemente» que a tradição nos legou.

Autores de gerações mais novas vindos a público e que marcaram a poesia mais recente em Portugal, de muitos destacaria sete: Margarida Vale de Gato, Rui Coías, Jorge Roque, Tatiana Faia, Golgona Anghel, Luís Quintais e José Ricardo Nunes. A primeira, com Mulher ao Mar (Mariposa Azual), ultrapassa as (para mim inócuas) questões sobre se há ou não há um  discurso poético no feminino. Vale de Gato é uma voz criativa e rigorosa. Há poesia, sem mais. Ao não obedecer a artificiais modos de exaltar virulentamente a condição do corpo e da sexualidade, Margarida é bem o caso de uma poeta extremamente lúcida quanto aos escolhos das etiquetas e questiúnculas em voga. Interessa-lhe a literatura, a força da palavra que rasga e abre feridas no idioma. Quer dizer: Vale de Gato está mais interessada em resgatar certa dicção clássica-moderna que reenvia a Emily Dickinson ou a Luiza Neto Jorge, cultivando uma sintaxe elíptica, de grande exigência rítmica e de sinuosas construções sintácticas que dão a ver o mundo do texto como espaço convulsionado.

Rui Coías, por sua vez, constrói em Europa, o seu mais recente livro, uma das respostas mais veementes à sórdida realidade hodierna. Libelo e revolta, numa fala torrencial, narrativa, mas de forte pendor historiográfico, o poema é em Cóias uma forma de atenção às potencialidades de um novo modo de relatar, sem deixar de se ser lírico e valeria a pena ver como Cóias cultiva o poema-documento, a investigação monográfica pode ser um salto mais para a aventura da linguagem em tempo de especialização. Jorge Roque, especialmente com Tresmalhado é, sem dúvida, um fazedor exímio do ritmo do poema em prosa, para além de não ceder àquela que foi, a certa altura da primeira década do século, a constelação dominante que à experiência da poesia preferiu a poesia da experiência. Momentos em que Roque, pela força da sua enunciação e pelo poder das imagens que lança contra o real burocrático, lembra Alexandre Nave, uma das vozes mais interessantes que o início do século XXI revelou em Portugal. Roque, porém, é um cultor do ritmo frásico, não há nele, como em Nave, a propensão para o léxico escatológico mais rasteiro, posto que o seu edifício poético viva de uma sobriedade céptica e não de uma fúria carnal.

Quanto a Tatiana Faia, a sua formação clássica e a irónica expressão de um fatalismo muito seu, onde os mitos destronados não a impedem de cantar a eventual ascenção do mítico ao plano do real empobrecido, isso faz dela, num livro como um quarto em Atenas, a mais poderosa voz lírico-narrativa da sua geração e de que poderíamos destacar também Golgona Anghel que alcança hoje um amplo reconhecimento na crítica e no ensaio dedicados à poesia. Golgona, já pela irrupção da sua verve, a sábia construção irónica de poemas-relato, já pela capacidade de olhar para o lirismo sem evasões de pacotilha, centrada que está a sua escrita em desfazer teorias, desmanchar lugares aprazíveis, é responsável por trazer para a poesia portuguesa actual um certo non-sense, uma certa violência que denuncia e descreve a realidade fragmentada, pós-moderna nos termos em que a estuda Zigmunt Bauman: líquida, esfacelada e onde à poesia já só se pede o sortilégio de contar uma boa história.

Quintais e Nunes são, apesar de mais velhos, nascidos nos finais de 1960, autores centrais na poesia portuguesa destes quinze anos. A expressão deceptiva de Quintais, o temário de pendor histórico-antropológico onde a História e os seus horrores regressa ao nosso tempo de pré-guerra, fazem dele um discípulo maior de Manuel Gusmão. José Ricardo Nunes, na melhor senda de uma poesia que faz da descrição a inscrição dos poderes da fábula na vida vã dos dias é um importante nome para aqueles que perseguem as lições do verso livre, até porque, através da sua palavra, se percebe bem quanto o magistério de Ruy Belo continua presente. Belo é talvez, como nenhuma outra voz na poesia portuguesa dos últimos 40 anos, o mais lido dos mestres para as gerações recentes que fazem do poema esse «transporte no tempo» com que é possível fugir da catástrofe ou encará-la de frente.

 

IV

De 2003 a 2018, e para efeitos de balanço, há, em todo o caso, que lembrar ainda outras questões. A irrupção de editoras de poesia quer no Brasil, quer em Portugal, o mesmo acontecendo em países de África. Gostaria de destacar a editora de Mbate Pedro e, no mesmo lance, a sua poesia, divergente em relação às mais domesticadas vozes moçambicanas que fazem da cultura trampolim para outros poderes. Mbate Pedro é hoje um dos valores seguros da poesia do seu país e publicá-lo em Portugal ou no Brasil seria um gesto de simples justiça, confirmando que o esforço por nos darmos a conhecer uns aos outros não é mera palavra no papel das boas intenções.

Mas aqui de novo caímos num problema que urge resolver: se o trânsito cultural entre Portugal e Brasil é mais efectivo, porque estes dois países naturalmente funcionam como as duas literaturas fortes do universo de língua portuguesa, certo é que o desconhecimento sobre a restante literatura lusófona (termo que não me agrada, confesso) bloqueia uma melhor apreensão daquelas literaturas onde ecoam ainda nomes e obras como as de Rui Knopfli ou João Vário (reeditados em Portugal), José Craveirinha ou Alda Espírito Santo. A ausência de livros destes autores – as excepções serão, em graus diferentes, Luandino e Agualusa, Ana Paula Tavares e Germamno Almeida, João Melo, Conceição Lima e José Luiz Tavares que beneficiam de editoras portuguesas com implantação no mercado – condiciona grandemente o acesso a outros nomes e obras.

Como ler as eventuais pontes que, nos bastidores de congressos e colóquios, festivais e lançamentos de livros se fazem entre autores e editores? Que repercussão há de colóquios e certames no que respeita à publicação de poetas portugueses em editoras africanas e poetas africanos em editoras portuguesas? E no Brasil, que se publica da nova geração de poetas angolanos, cabo-verdianos, moçambicanos e são-tomenses, guineenses e de outras latitudes da superlativa “lusofonia”?

Não serão sempre, ou quase sempre os mesmos a terem o privilégio de serem convidados para este ou aquele festival, a publicar nesta ou naquela editora, a ter os favores deste ou daquele crítico oficial?

É um facto: sem um efectivo interesse político pouco se pode fazer na cultura e sem cultura a política redunda em mero aviltar da vida pública. A vida pública, de resto, refém da ideologia da superficialidade que trumpismos em toda a parte promovem como ditadura, esse é o facto insofismável em África, no Brasil e não o é menos em Portugal.

Resgatar do olvido certos estudos monográficos como os de Alfredo Margarido (Negritude e Humanismo, de 1964) ou os de Inocência Mata poderiam fazer-nos aceder, em tempo de estudos multiculturais, a outras constelações literárias... Há um passado que devemos chamar para o nosso presente e antologias como a que saiu há poucas semanas em Portugal, com chancela da Tinta-da-China, Mundos em Português I e II com coordenação geral de Helena Buescu, podem suprir o mar de ausências de que se faz muita da literatura actual escrita na nossa língua comum. A dimensão poligonal da literatura é a única maneira de vermos como Luís Cardoso (Timor) dialoga com Lobo Antunes; como Luandino Vieira antecipou Agualusa, como Alexandre Dáskalos ocupa lugar relevante no ideário da sua cultura.

Cesário, que na literatura via «um campo de manobras» é para lembrar: nestes quinze anos impôs-se nos jornais de grande circulação uma lógica de apagamento da literatura, preferindo-se a atenção a certos fenómenos pop, em especial na música. Sem menoscabo do que possam querer dizer (e dirão muito, decerto...), a verdade é que se impõe o regresso dos suplementos literários, a crítica frequente da poesia, com a liberdade e a imparcialidade, o rigor e o bom-senso a prevalecerem sobre a lógica da dissimulação e da maledicência, hoje comuns em certa geração crítica que em períódicos revanchistas exerce o fel como modo de ver, ser e estar... Neste aspecto, revistas como a Relâmpago e a Colóquio-Letras, ou o Jornal de Letras constituem espaços onde a liberdade e a integridade intelectuais se unem ao desígnio de promover a literatura como arte que não pode dispensar uma forma humanista (e humana) de ver o outro.

 

V

Entre 2003 e 2018 reeditaram-se livros de poesia da Casa dos Estudantes do Império, não valeria a pena debater sobre esse gesto editorial chamando poetas e romancistas em congresso sobre Literatura Lusófona, a realizar-se, por exemplo, na Fundação Calouste Gukbenkian ou no Museu da Língua Portugesa, em São Paulo? Um dos maiores movimentos da afirmação da cultura negra e mestiça, o movimento Claridade, conhecem-no as gerações mais novas enquanto vanguarda da literatura cabo-verdiana? Quando um balanço desta natureza se faz, que romances e poesia, teatro e ensaio lêem os mais novos, justamente os que frequentam os sistemas de ensino em Portugal, no Brasil e em África nos últimos 15 anos? E esta, meus caros amigos, é quanto a mim o nó górdio das nossas culturas: por muito que nos leiamos uns aos outros, por muito consagrados que sejamos junto desta ou daquela clique ensaística, não se pode dizer que estajamos cumprindo papel algum quando os mais jovens – estudantes na universidade e nos ensino Secundário e Preparatório – desconhecem quer o presente da poesia que, infelizmente, o passado literário da língua portuguesa.

Que se publique sem hesitações e empenhadamente, mas que se divulgue com denodo, chamando a classe docente para o mundo dos livros – sem isso qualquer visão do problema literário nas nossas culturas redunda em especulação vã. Para tal, a poesia não pode e não deve ficar circunscrita aos muros da academia portuguesa e brasileira e africana; os festivais literários não podem deixar de convocar quem nunca ou raramente convocam; a escola e as editoras devem fazer um esforço (que será considerável atendendo à ignorância e ao obscurantismo dos decisores políticos) para que a Literatura se leia e sobre ela os jovens escrevam, pensando quem são e o para que são. Nestes quinze anos muito de ensaio sobre esta matéria (a leitura, os livros, a crise na educação) se publicou.

Pacheco Pereira e António Guerreiro, em Portugal, escreveram recentemente a respeito. A crise, na verdade, não é do livro – nunca a indústria livreira vendeu tanto. A batalha da nossa civilização não está no devotado culto ao livro. A questão é outra: o que se lê não é a literatura de grandes autores, muito menos a poesia, a história ou a filosofia, a arte ou outras áreas do alto saber. E é essa, quanto a mim, a discussão que temos de fazer, dado que esta é uma realidade que nos importa a todos: se os mais novos não lêem, ou lêem apenas o que a massificação do livro lhe faz chegar, que balanço faremos da poesia, da literatura, daqui a outros quinze, ou trinta anos?

 



António Carlos Cortez

António Carlos Cortez (Lisboa, 1976). Poeta, professor de Literatura Portuguesa, ensaísta e crítico literário (colaborador permanente do Jornal de Letras e das revistas Colóquio-Letras e Relâmpago), publicou desde 1999 dez livros de poesia, os dois últimos já em 2016: A Dor Concreta – antologia pessoal 1999-2016 (Tinta-da-China) e Animais Feridos (Dom Quixote). Está publicado no Brasil na editora Jaguartirica, do Rio de Janeiro, com a antologia O Tempo Exacto (1ª edição, 2015; Abril de 2017, 2ª edição) e traduzido em edição bilingue (poemas em inglês, castelhano, alemão, italiano, francês, holandês e romeno), no Lirikline – European Poetry Observatory. Até ao fim de 2017 sai na Bulgária o seu livro inédito, Corvos Cobras Chacais, igualmente a publicar no Brasil durante este ano. Publicou em 2005 Nos Passos da Poesia – a pedagogia do texto lírico (Apenas Livros). Foi finalista do Correntes d’Escritas – Festival Literário Casino da Póvoa 2017. Recebeu em 2011 o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores para melhor livro de poesia de 2010 com Depois de Dezembro (editora Licorne). É consultor do Plano Nacional de Leitura e membro da Direcção do PEN Clube Português. 




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