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Antonio Geraldo: "a literatura é uma fábrica falida de gazuas"

Foto: Divulgação



2018-01-10

 

Escrever é um ofício tributário das leituras.

O problema, hoje em dia, é a sonegação... Muita gente escrevendo a partir do universo do umbigo, o maior buraco que a imbecilidade encontrou para se fazer ouvida, ecoando inevitavelmente o abismado vazio do próprio bestunto.

Bem, às vezes a barriga ronca, ensejando nos coitados a única possibilidade de produzirem suas altas filosofias.

O mal-estar é um princípio?

 

Evandro –Marina Tsvietaieva: Até aos quatro anos, segundo testemunho de minha mãe, só dizia a verdade; depois, evidentemente reagi. O escritor só é verdadeiro quando faz ficção?

Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira – O escritor luta para construir a mentira absoluta, Evandro, impostura que pudesse encobrir a verdade de ser, condição inescapável de uma espécie que caiu da árvore, num mau momento.

Espécie inventada de si, quebra-galho de deuses vagabundos?

Somente a Mentira Absoluta se encaixa em qualquer situação da vida, entende? O que, de todo modo, é uma ilusão. A arte é o simulacro de um simulacro.

Estaríamos sentenciados à verdade, meu amigo?

Em outras palavras, a literatura é uma fábrica falida de gazuas. O escritor é um criminoso inocente que força − em vão − a entrada para fora dos próprios dias.

 

Evandro – O quê? Nascemos apenas com direito a um toco, tiquinho de nada de vela acesa, para alumiar todas as trevas da vida toda?

Antonio Geraldo – Alguém disse que a autocitação é um grito que nos acorda para o pesadelo, mas...

 

bolha e escuridão

 

acendi o fósforo

na vã tentativa

de encontrar, à noite

a chave caída

na porta de casa

 

tateei, ainda

o chão, sem largar

o palito em chamas

último da caixa

 

nada, nem o alívio

de poder, enfim

cansado e ferido

 

suportar a vida

na pele dos dedos

 

(carvão retorcido)

 

Evandro – E o mal-estar interior, sim, lá no subsolo do recato, sim, mal-estar provocado pela inveja? Uma vez, duas décadas atrás, lendo resenha favorável a outro autor contemporâneo, fui subitamente tomado por sentimento estranho, sensação de que saía de minha boca tufo de enxofre; acho que se tratava do ectoplasma da Inveja. Cruz-credo! Fiquei estupidificado comigo mesmo.

Antonio Geraldo – A inveja é uma forma particular de admiração pelos vivos que usurpam os nossos sonhos. Quando morrem, damos graças a nós...

O escritor, meu caro, cultiva a presunção descabida de que pode ir além do ponto-final. Bestagem.

 

Evandro – Palavras às vezes surgem em andrajos, descalçadas? Jeito é revesti-la com essa roupagem, cujo nome é Reflexão? Ou melhor ainda alumiá-las neles, resplendores das lâmpadas divinas – de que nos falou San Juan de la Cruz?

Antonio Geraldo – O que Teresa pede que um João Ninguém não atenda, hein? Pé no chão, aqui no Brasil, é samba de terreiro, compadre Evandro!

 

Evandro – Envelhecer é perceber que não há mais fenos para ceifar?

Antonio Geraldo – Envelhecer é aprender a esquecer, de modo que, na hora da prova dos nove, você fica fora de si, habitando um inferno que começa e termina antes do tempo.

Sem contar que o verbo "ceifar", no fim da vida, decepa, com um golpe seco e cego, a primeira pessoa de sua própria conjugação, concorda?

(o escritor, aqui, bate três vezes, com o nó dos dedos, na mesa de madeira. Como as juntas doem, arrepende-se de suas abusões)

 

Evandro – Ficar presa para sempre no Inferno só porque comeu um grão de romã? Sim: Prosérpina. É justamente por causa dessas, digamos, estrabuleguices, que a mitologia se torna fascinante?

Antonio Geraldo – A maior mitologia que carregamos se chama "eu". Curiosamente, cada um tem a sua. Em contato com as outras crenças, a maioria se convence de que o fundamentalismo é uma forma piedosa de falso ecumenismo.

 

Evandro – Um asno que tivesse à sua frente, e exatamente à mesma distância, dois feixes de feno exatamente iguais não poderia manifestar preferência por um ou por outro e, por conseguinte, morreria de fome. Sim: estou falando do Asno de Buridan. Seria este, motivo pelo qual é razoável, numa livraria, não ficarmos de jeito nenhum diante daquela gôndola em que estão expostos os dez mais vendidos?

Antonio Geraldo – Os "dez mais vendidos" é uma expressão que carrega em si uma ambiguidade que explicita, de cabo1 a rabo2, o que um filósofo maroto chamaria de "convergência de termos".

 

Notas:

1 - Cabo de enxada.

2 - Rabo do Tinhoso.

 

Evandro – Se viver dá azar, o morrer é lucro?

Antonio Geraldo – Acho que não. Morrer ainda é um escambo do qual saímos sempre no prejuízo. Ou no qual entramos perdendo, sei lá...

 

Evandro – Escrever? Ofício litúrgico? Ou... Sabá? Sim: estou falando daquelas assembleias noturnas de feiticeiros.

Antonio Geraldo – Escrever é um ofício tributário das leituras.

O problema, hoje em dia, é a sonegação... Muita gente escrevendo a partir do universo do umbigo, o maior buraco que a imbecilidade encontrou para se fazer ouvida, ecoando inevitavelmente o abismado vazio do próprio bestunto.

Bem, às vezes a barriga ronca, ensejando nos coitados a única possibilidade de produzirem suas altas filosofias.

O mal-estar é um princípio?

 

Evandro – Garoto sai do cemitério com o pai que havia lido em voz alta dezenas e dezenas de epitáfios, e pergunta: Em que lugar enterram as pessoas ruins? Hem?

Antonio Geraldo – As pessoas ruins são todas bem vivas.

 

Evandro – Logo, logo exigirão escólios, sim, notas explicativas para as entrelinhas deles, nossos futuros textos literários?      

Antonio Geraldo –  Tempo virá em que a inteligência artificial, leitora voraz − inclusive de nossa literatura, Evandro − escreverá melhor do que qualquer ser vivo. Ou morto, o que é pior.

A saída para a nossa espécie, provavelmente, será escrever muito mal, de modo que as máquinas não compreendam a ilogicidade humana.

Hoje, há muita gente capacitada a fazer bonito nas distopias mais nefastas.

 

Evandro – E no Inferno? Erguem todo santo dia uma nova edícula?

Antonio Geraldo – Não, não. Erguem-se arranha-céus, isso sim.

 

Evandro – Deus nos livre de nós mesmos?

Antonio Geraldo – Deu nos livros de nós mesmos: quem se amarra em si, Evandro, jamais se soltará, prisioneiro de um demônio ignorante.

 

Evandro – Escrever é consumir nossas próprias escamurrengadas asas?

Antonio Geraldo – Bentinho que o diga...

Dois tipos básicos de escritores, então:

há quem escreva das alturas − Hosana;

há os que escrevem cavando − Réquiem.

Prefiro os segundos que, pelo menos, terminam por ter onde cair mortos.

 

Evandro – Sim, senhor Wallace Stevens, posso, sim, psicografá-lo: A vida, então, é em grande parte uma coisa de acontecer gostar-se, não de ter de ?

Antonio Geraldo – Vida? Passagem só de ida...

 

Evandro – O escritor? Tem imoderada apreciação de si mesmo? Ou... Trata-se de mecanismo de defesa, sim, mecanismo que tem mais por desígnio ludibriar os outros do que contra a própria pessoa?

Antonio Geraldo – Escritor que diz não gostar de si está mentindo. Às vezes de um modo desesperado... Todo escritor sonha, secretamente, com a amizade de um Max Brod.

 

Evandro – E essa caudalosa existência que transborda em seu texto magistral?

Antonio Geraldo – Uma vez escrevi, defendendo alguns autores − entre os quais me incluo −, que "a mudez dos livros tem a voz do leitor".

Pois, bem, Evandro. O contrário, para o bem dos mesmos escritores, também há de valer. Resta-me agradecer-lhe com um pedido: continue fazendo suas as minhas palavras...

 

 



Evandro Affonso Ferreira

Evandro foi redator publicitário até 1990, quando sofreu um infarto e abandonou a publicidade para se dedicar à literatura. Estreou com o livro de humor Bombons Recheados de Cicuta, renegado pelo autor. Em seguida publicou Grogotó. O mineiro de Araxá teve em São Paulo os sebos Sagarana e Avalovara. Em 2010, ganhou o Prêmio APCA de melhor romance com Minha Mãe se Matou Sem Dizer Adeus e o Prêmio Jabuti de 2013 com O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam. É também autor de Os Piores Dias de Minha Vida Foram Todos. 




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