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Milton Hatoum: “A gente quer verdades e certezas e a vida não é assim”



2017-11-01

 

Lançando romance sobre a ditadura, Milton Hatoum vê ascensão de obscurantismo no Brasil atual

 

Doze anos depois de Cinzas do Norte (2005), livro pelo qual recebeu o Jabuti e o prêmio Portugal Telecom, o escritor Milton Hatoum está lançando um novo romance. A noite da espera é o primeiro volume de uma trilogia passada durante a ditadura militar brasileira. O livro conta em dois tempos a história de Martim, um estudante paulista que vai morar em Brasília no final dos anos 1960 e depois foge para o exílio em Paris. Construído por meio de uma série de cartas e anotações de diário, o livro é um romance de formação e um panorama em fragmentos das experiências de uma geração que  chegou à maturidade nos anos de maior violência do regime autoritário. Nesta edição do podcast Chamada Literária, Hatoum conversa com o jornalista Miguel Conde sobre o seu novo livro e discute as reverberações, a seu ver preocupantes, do passado ditatorial no Brasil de hoje. Clique abaixo para escutar a íntegra da entrevista ou leia a seguir alguns trechos da conversa.

 

(Foto de Divulgação/Fabio Setimio)

 

BRASÍLIA SOB A DITADURA. Fui [para Brasília] com dois amigos de Manaus no final de 1967. (...) Imagina, saí da província, Manaus é uma cidade pequena, era meu útero, minha família, meus amigos, a infância. E com 15 anos eu caí ali. Queria estudar arquitetura, não havia curso naquela época em Manaus, e o mais próximo era em Brasília. (...) Fui preso numa passeata. Isso repercutiu na minha vida, mas não participei de nenhum grupo clandestino, nem partido, nenhuma organização. Mas, como dizia Guimarães Rosa, viver era muito perigoso. Nós não tínhamos nenhuma garantia de nada. Alguns se escondiam, alguns faziam da solidão o motivo maior da existência, se isolavam, outros se entregavam ao ativismo clandestino mesmo, ou à militância estudantil, outros não queriam saber de nada. E outros eram delatores, pessoas do sistema da ditadura. Tinha muita delação nas escolas, nas universidades. (...) E tinha amigos militantes que eram filhos de militares. Essa loucura toda, essas contradições todas. Era um embate... Como é a vida, né? (...) Havia momentos de recolhimento em que eu não queria saber de nada. Lembro em Brasília de longos momentos de solidão, longos períodos mesmo. De ir pra escola e voltar e ficar sozinho. E não fazer mais nada. Só ficava lendo, estudando. [ Tive momentos] de depressão também. Quando fui preso fiquei deprimido durante algum tempo. (...) É um momento em que você não consegue escrever, não consegue registrar nada. Foi difícil, Brasília foi muito difícil. Mas eu também, por orgulho, e os jovens também têm uma coragem... Talvez para mostrar minha coragem eu não quis voltar para o útero, para casa, como um filho pródigo. Eu não quis voltar, porque para mim seria uma capitulação.

 

LITERATURA CONTRA O MANIQUEÍSMO. Pensei em não colocar personagens em prateleiras, e em relativizar algumas posições também. Isso está na segunda página do livro, o poeta não está identificado, mas são versos do Wallace Stevens. Apenas mais um elemento na imensa desordem de verdades. Que é um pouco a vida, né? A gente quer verdades e certezas e a vida não é assim. A ficção não pode ser assim. Foi uma coisa muito pensada, eu não queria engavetar personagens, o modo de ser desse ou daquele personagem, sem contrapor uma outra atitude. Quer dizer, [a atitude] de tornar a vida uma pesquisa, uma pesquisa de cada personagem. São pesquisas de vida e a pesquisa é isso, uma investigação que não acaba. Ela não se esgota numa personalidade fechada. Pelo menos foi isso que eu aprendi, modestamente, com os romances que eu li. Com os bons romances. Acho que essa é a lição da literatura para os escritores. Tem a vida, que nos ensina, e tem a literatura, que também nos ensina a se distanciar do maniqueísmo, das coisas fechadas.

 

ROMANCE QUEBRA-CABEÇAS. Às vezes tem uma espécie de egolatria da escrita, que não é bem assim. Você trabalha com tantos elementos... Tem que admitir que o mundo à sua volta está escrevendo os livros com você. Esse misterioso amor pelas palavras, de que fala o Borges, é também dos outros, das palavras dos outros que nos chegam. Quando pensei na estrutura, pensei de modo fragmentário. Não poderia escrever um romance na primeira pessoa, não conseguiria isso e não seria o caso. A opção formal que tive foi um romance epistolar. Meio epistolar, com anotações, cartas, fragmentos desse ou daquele personagem, com um eixo, que é o Martin. Passei muito tempo pensando como seria a forma desses livros. Enquanto você não encontra a forma, você não encontra o livro que você quer escrever. Só comecei a escrever e a pensar nos personagens, nos temas, quando percebi que a opção formal seria através dessas cartas e anotações. Sem isso, não teria conseguido escrever. Se você pensar no enredo, ele fica solto, e aí você só conta uma história. Mas quando a forma impõe um modo de narrar, aí o enredo se encaixa nisso. O próprio quadro histórico está contido na forma. Meu cuidado foi o de não fazer um romance explicitamente político, que não é. A política está lá o tempo todo, mas não é uma história da política da ditadura, nem teria essa pretensão louca. São apenas fragmentos de vida naquele momento. Por isso que as cartas e os diários e anotações são importantes. Eles compõem a estrutura formal do livro. É um quebra-cabeça para o leitor armar.

 

FASCISMO BRASILEIRO. É triste constatar, terrível constatar, que hoje está se falando em golpe de novo. Tem um candidato aí que elogiou a tortura, os torturadores. Essa ascensão do obscurantismo, a censura às artes, esse moralismo o mais hipócrita e sinistro... Eu não sabia [ao começar a escrever o romance] que isso ia voltar, mas desconfiava que um dia poderia voltar, porque o Brasil sempre foi muito conservador. A estrutura brasileira ainda é patriarcal, patrimonialista, religiosa. (...) Acho que é um fascismo adormecido em parte da sociedade brasileira e em parte de suas elites. Além da repressão e da brutalidade [da ditadura], duas coisas que foram muito nocivas para a sociedade brasileira foram, primeiro, a interrupção de um processo democrático e portanto a falta de prática política e de discussão política durante mais de vinte anos. Isso foi crucial. E outra foi a desmontagem da escola pública. O Brasil tinha um projeto de educação pública universal, com Darcy Ribeiro, com Anísio Teixeira, e isso foi totalmente desmontado. Por isso tanto prezo a formação dos jovens, como gosto do romance de formação, porque ele fala exatamente disso.

 

ASCENSÃO DO OBSCURANTISMO. A arte é o lugar da liberdade plena e ao mesmo tempo da resistência. Quando eles querem censurar, e conseguiram em Porto Alegre, estão atentando diretamente [contra] a liberdade da imaginação, dos artistas. Os regimes totalitários começam assim. (...) Na ditadura, os mais perseguidos depois da liderança estudantil e operária foram os artistas, foram muitos para o exílio. Para quem de fato é obscurantista, a arte é uma ameaça. Uma ameaça para os valores morais, religiosos e até ideológicos dessas pessoas. Mas é espantoso que em 2017 alguém ainda se preocupe com um nu artístico. E é impressionante como o prefeito de São Paulo aderiu a isso. Ele quer se alinhar com o que há de mais obscuro e ao mesmo tempo o Macron é o líder dele. Mal ele sabe que a formação intelectual do Macron é das mais sólidas. Esse prefeito daqui é um cara ao mesmo tempo ignorante, mas perigoso sob vários pontos de vista. Ele quer se comparar com quem não pode se comparar. Imagina se na França vai se proibir uma performance como essa. (...) Com isso não estou poupando os erros gravíssimos da esquerda com relação à corrupção e até mesmo à condução da economia do país. Mas o que estamos vendo hoje é uma ascensão perigosíssima do obscurantismo. Que pode conduzir a coisas gravíssimas, não sei se necessariamente a um golpe de estado, mas a um estado de exceção. E acho que um artista tem que resistir a isso.



Miguel Conde

É jornalista e editor. Foi repórter e editor assistente do caderno “Prosa & Verso”, do jornal O Globo, onde assinou a coluna “Procura-se”, sobre livros fora de catálogo. Seus artigos, reportagens e entrevistas foram publicados em veículos nacionais e estrangeiros como os jornais Folha de S. Paulo e Valor Econômico, o site Literary Hub e as revistas Arcadia e Letterature d’America. Foi curador de duas edições da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), em 2012 e 2013, coordenador editorial da Rocco e pesquisador visitante na Brown University. É doutorando em Letras na PUC-Rio, curador de ficção do Garimpo Clube do Livro e coordenador da coleção "Marginália", de textos raros de grandes escritores, publicada pela editora Rocco.




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