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Gestos do leitor

Imagem - reprodução: The open Book - Juan Gris, 1925



2017-09-21

"Susan Sontag propõe uma “erótica da leitura” em oposição à leitura interpretativa. Para ela, a postura da interpretação acaba por retirar tantos significados possíveis de um objeto artístico que termina por deixá-lo vazio, esquálido, impotente, domesticado. Por essa via sugaríamos da arte a sua possibilidade de nos causar efeitos imprevistos e, talvez, mais mobilizadores. Sontag refuta “o que quer dizer? qual o sentido?” e prefere a isso “o que é? o que faz? como faz?”: um corpo-a-corpo com o objeto. Nessa coluna meus gestos de leitura se guiarão principalmente por essas três últimas perguntas, ainda que eu não pretenda abolir intervenções de interpretação – certamente elas aparecerão na marginália. De uma maneira ou de outra, o conceito mais ou menos livre de uma “erótica da leitura” atua como um farol para a Segunda mão."

 

Se as páginas de um livro da minha estante se encontram limpas, apenas tinta sobre papel, sei que ou não li aquele livro ou o li há um bom tempo. De uns anos pra cá me entreguei sem pudor aos atos de rasurar, sublinhar, circular, acrescentar, fazer comentários nas margens... Conversar com o texto no corpo do texto. É possível que tenha me dado conta da potência dessa atitudade quando tive nas mãos um calhamaço de cópias das páginas de leitura de Gonçalo M. Tavares e fiquei em dúvida se lia os textos originais ou as anotações dele. Há pessoas que não criam intervenções em seus livros por nada – a folha como objeto sagrado protegida de qualquer profanação: o menino que, dono da bola, prefere que ninguém a chute. E assim não tem jogo.

Compro um livro na livraria, você o compra também: eu e você temos livros absolutamente iguais. O que diferenciará o seu livro do meu é o que cada um de nós irá oferecer às páginas. Vejo as marcas de leitura dessa forma: uma ação por meio da qual o leitor ganha o livro para si. Torna-o seu. Gesto visceral: a intromissão do visitante que se apropria da casa. Gesto plástico: a caneta que desliza pela folha cria um fio invisível e liga o objeto a uma segunda mão. Gesto percussivo: o grifo como notação do ritmo de leitura. Gesto esportivo: aquecer a mão. Gesto de convivência: produção de um espaço de conversa. Gesto memorialístico: o que pensou e sentiu o leitor quando encontrou essas linhas? Gesto erótico: aproximar a minha pele da pele do texto.

Susan Sontag propõe uma “erótica da leitura” em oposição à leitura interpretativa. Para ela, a postura da interpretação acaba por retirar tantos significados possíveis de um objeto artístico que termina por deixá-lo vazio, esquálido, impotente, domesticado. Por essa via sugaríamos da arte a sua possibilidade de nos causar efeitos imprevistos e, talvez, mais mobilizadores. Sontag refuta “o que quer dizer? qual o sentido?” e prefere a isso “o que é? o que faz? como faz?”: um corpo-a-corpo com o objeto. Nessa coluna meus gestos de leitura se guiarão principalmente por essas três últimas perguntas, ainda que eu não pretenda abolir intervenções de interpretação – certamente elas aparecerão na marginália. De uma maneira ou de outra, o conceito mais ou menos livre de uma “erótica da leitura” atua como um farol para a Segunda mão.

Levo comigo a ideia de uma coluna nesses moldes desde que passei a entrar em contato com os grifos alheios de forma mais intensa a partir dos murais do Paginário. O grifo, o rabisco, num livro, pode ser visto como sujeira (por isso compramos livros novos, não?). Mas quando se trabalha com arte na rua, a sujeira (o imprevisto, o indesejável) deixa de ser algo a ser evitado e se torna mais um elemento com o qual se trabalhar. Gosto da ideia da marginália como uma sujeira que torna o livro mais vivo. Ao longo desse trabalho, centenas de páginas fotocopiadas já passaram pelas minhas mãos ou prateleiras enviadas por tanta gente que é impossível mencionar - vindas pelo correio, por email, entregues/buscadas nas portarias ou compartilhadas em encontros –, e, além disso, à certa altura Omar Salomão nos convidou para participar da exposição “A biblioteca de grifos de Waly Salomão”. Ali notei como o poeta multifacetado e indisciplinado encarava suas marcas de leitura como parte essencial da sua escrita e também como uma produção em si. Seus grifos eram o transbordar de um leitor excitado em autor (ou coautor, uma ideia bonita que às vezes esquecemos). Atingido pelo texto excitante, o leitor excitado transborda, e esse transbordar será visto aqui não como (apenas) parte de um processo, mas como um alvo que merece enquadramento e fotografia próprios. 

Ademais, a Pessoa foi a primeira revista com a qual colaborei na vida. Contam-se três colunas nas três primeiras edições físicas antes do fôlego que ela veio a tomar para se tornar o que é hoje. Por isso, durante a elaboração de Segunda Mão, as conversas com Mirna Queiroz soaram como retomada de um diálogo elétrico.

Minhas intervenções nos livros provavelmente irão traçar afirmativas e hesitações, pois se acima de um dos ombros escuto que a marginália é uma escrita e é mostrável, do outro lado cantarola, maligno e prudente, Antoine Compagnon,: “é também como um pretexto para não emprestá-los (a discrição, o pudor) que os sublinho [os livros], que os rabisco ternamente”.

Na maioria das vezes, irei me aproximar de contos ou trechos de romances, mas é possível que outros gêneros de texto apareçam por aqui. Como definir o que virá além de dizer que serão textos que me estimulam? Em resumo, irei devolver a eles o estímulo que me causam. 

 

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Leonardo Villa-Forte

É escritor, artista, pesquisador e professor, nascido no Rio de Janeiro em 1985. Lançou os livros O princípio de ver histórias em todo lugar (romance, Oito e meio, 2015), O explicador (contos, Oito e meio, 2014) e Agenda (conto, Megamíni/7Letras, 2015). Criou a intervenção urbana-literária Paginário, presente em diversas cidades brasileiras, e o projeto MixLit - O DJ da Literatura. Mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-RJ e graduado em Psicologia pela UFRJ, colaborou com publicações como a revista Serrote, o Blog do IMS e a revista Grampo canoa, entre outros.




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