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“Elvira Venha”



2017-07-19

Tenho sido verborrágica nas aberturas destes escritos, mas hoje opto pela brevidade, porque Elvira Vigna morreu.

 

Chamo de “crônicas de leitura” isto que tento nestas páginas, nas quais Cronos rege diferentes temporalidades, não necessariamente a marcada no alto da página do jornal, por vezes, está mais para aquela do cabeçalho escrito a lápis, no qual logo após o nome da escola, do dia, mês e ano, está escrito “o dia está nublado”, afinal, Elvira Vigna morreu.

Procuro fugir da pauta (a ordem do dia merece alguma desobediência para criar relevâncias diante do considerado insignificante), mas hoje Elvira Vigna precisou morrer para que classificassem sua obra como “incontornável” no noticiário, como se esta fosse a novidade que tinham esquecido de anunciar enquanto ela estava viva.

Insisto num anti-lead (quem? quando? onde? por quê? nem sempre têm respostas), mas hoje, Elvira Vigna morreu, em São Paulo, em decorrência de um câncer, que ela evitou assumir publicamente, para que não lhe faltassem convites, segundo a filha da escritora, em comunicado feito a pedido da mãe. E, agora, o câncer justifica leituras.

“Não há quem se iguale ou se aproxime dela na literatura brasileira; passou a escrever ainda melhor após o câncer”, se afirmará numa linha fina (subtítulo no jargão jornalístico) de caderno cultural amanhã, um dia depois deste hoje, em que Elvira Vigna morreu, e que ainda não passou. Será que se não tivesse adoecido, não teria escrito o que escreveu? Como saber? Como afirmar?

Diante do retrato de divulgação da editora feito por ocasião de um de seus lançamentos, fotografia em close que agora ilustra as notas da perda, observam o duro olhar de Elvira Vigna, difícil desviar-se do diagnóstico em retrospectiva, como se o que se escreve não estivesse entranhado ao longo de uma vida. “Ela já sabia. Sabia, estava ciente”, espantam-se com o peso guardado de saber, do que não sabem, do que sabem, mas não dizem. Porque dizer, mesmo quando todos sabem e não dizem, muda a qualidade do silêncio.

Elvira Vigna nunca simpatizou com a onisciência de narradores, os dela, nunca eram autoritários, dizia. Cultivava lacunas, agora, ela própria, esta falta.

Segundo a própria escritora, em vídeo gravado no ano passado, era comum a compararem a Clarice Lispector, a Hilda Hilst (provavelmente por serem mulheres, praxe), mas ela não concordava, se sabia diferente delas. Já a aproximaram também de Machado de Assis... O título, acima da tal linha fina citada: “Ponto fora da curva, Elvira Vigna morre aos 69”.

Em palestra de poucos anos atrás, um famoso professor da USP afirmava que Machado de Assis era o que havia de mais atual na literatura brasileira. Um outro professor, este da Unicamp, conhecido notório por disparar sua metralhadora contra escritor vivo, com uma ou outra exceção, me faz pensar na triste expressão “autor bom é autor morto”. Hoje, quando Elvira Vigna morreu, me rendo... Machado, em sua atualidade incontestável, me leva a pensar na ironia que é o criador de um narrador defunto ser capaz de desenterrar o defunto leitor (mas nem sempre, sobretudo quando a canonização coloca uma lápide sobre todo o resto).

O que mais uma mulher de 69 anos, com tantos livros publicados, precisaria fazer, que não fosse morrer, para ser destacada com as mesmas ênfases póstumas? Não que não tivesse reconhecimento, não que estivesse à margem, apartada de eventos e boa editora, não que não figurasse entre os finalistas de prêmios, mas o que se dá com a morte não se compara. Antes, no mesmo jornal da linha fina se lia: “Autora acerta em linguagem...”, avaliada em termos de acerto e erro; “Prosa chega a um novo patamar...”, o que é este novo no interior de um projeto todo, um “parece que agora vai”? Foi. Elvira Vigna morreu e ainda que pululem notícias sobre inéditos, ela já não escreve.

Contentamo-nos com justiças póstumas, crentes num juízo final para dar conta de salvar os eleitos? “Só o tempo dirá quem fica”, repete todo aquele que não quer ler hoje aqueles que escrevem hoje (e, claro, há exceções nas universidades, no silêncio de espaços onde a leitura acontece, mas não é este o ponto). Como aguardar decantar alguma riqueza no fundo do tempo, na comodidade de um suposto distanciamento histórico, como se não fosse sempre o presente o que movesse nosso olhar para o passado? Hoje Elvira Vigna morreu, mas seguirá viva, bradam em redes sociais.  

Elvira Vigna nunca escreveu sobre nada que não tivesse sido efetivamente vivido. Trabalhava a partir de um empirismo arraigado numa concepção de memória muito própria (vinha ensaiando escrever sobre o assunto e agora me culpo também por tudo o que aqui condeno). Algo entalado é o que temos para hoje, quando Elvira Vigna morreu.

Diante da estante de Literatura Brasileira de uma livraria paulistana, no dia seguinte à morte de Elvira Vigna, ouço uma mulher perguntar para a vendedora: “vocês têm livro da Elvira Venha?”. A digitação falha, me intrometo: “É Vigna. V. i. g. n. a.”. A moça quer aquele com nome difícil de dizer. Chuto: “Como se estivéssemos em palimpsesto de putas?”. Não encontram o exemplar. Não estavam preparados para a procura, nunca se está preparado para o que surpreende mesmo debaixo do nariz. “Nunca tinha ouvido falar nela. Estão todos dizendo que ela é maravilhosa, que preciso ler”, a moça não se cansava de se espantar. Queria levar este espanto todo para suas férias. Fazer caber na mala, na bagagem do dia.

Dizem que nunca é tarde para o tudo que veio antes, mas hoje lamento o que poderia ter sido.

Para quem fica, Elvira, venha.

 



Luciana Araujo Marques
Luciana Araujo Marques é mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).



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