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Ironia da vida política brasileira na obra de Lima Barreto

Foto: Recorte da capa do livro. Divulgação



2017-06-29

Lançamento da Carambaia reúne Os bruzundangas e Numa e a ninfa, duas obras do autor brasileiro nas quais ele aborda satiricamente o Brasil de 100 anos atrás

No início de julho, a Carambaia lança um volume com dois livros de Lima Barreto (1881-1922), Os bruzundangas e Numa e a ninfa. Os textos, que ironizam a vida política do Brasil da República Velha, foram publicados em folhetins no início do século XX e mostram-se bastante atuais passados 100 anos. A organização e o posfácio são de Beatriz Resende, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), crítica literária e especialista em Lima Barreto. O projeto gráfico da edição foi concebido pelo artista Fernando Vilela.

Nos dicionários, “bruzundanga” significa algaravia, barafunda, coisa de pouca serventia, ninharia. É com essa confusão que Lima Barreto nomeia um país fictício, a República dos Estados Unidos da Bruzundanga, cujas crônicas publicou de janeiro a maio de 1917 no semanário A.B.C., depois reuniu em livro, lançado apenas em 1923, após sua morte. Bruzundanga é “uma grande bagunça que, no entanto, se dá ares de importante, povoada por doutores, políticos e literatos”, como descreve Beatriz Resende no posfácio. Os relatos sobre essa República que muito se se assemelha ao Brasil – de ontem e de hoje –, assumem, na obra, o tom de paródia da história oficial, de seus herois e instituições. Esse humor representa, de acordo com Resende, uma nova forma literária utilizada por Lima Barreto para abordar o Brasil, depois dos contos, romances e crônicas. Para a organizadora do volume, dar a Os bruzundangas a forma merecida de clássico da literatura significa “romper com a exclusão a que tanto o texto quanto o autor foram submetidos no correr da constituição da história literária brasileira”.

Se, um século depois, o Brasil ainda traz muitas semelhanças com o país dos bruzundangas, essa atualidade também aparece no outro texto que compõe o volume, Numa e a ninfa. Quando começou a ser publicado, na forma de folhetins, em março de 1915, foi anunciado pelo jornal A Noite como um texto que “romanceava vários escândalos dos milhares que assinalaram o governo Hermes como o mais corrupto da história”. A obra retrata a trajetória de Numa Pompílio de Castro, um bacharel em Direito medíocre, acomodado, sem qualquer predicado exceto a persistência, que, ao se casar com a filha do governador, conquista uma cadeira de deputado federal na Câmara. “Numa é o exemplo perfeito da figura do doutor tão criticada por Lima Barreto em toda a sua obra”, considera Beatriz Resende. A partir da história desse “brâmane privilegiado” – que ganhará certo reconhecimento intelectual graças a Edgarda Cogominho, sua esposa e ninfa –, Lima descreve o universo de falcatruas, desmandos e vantagens da vida política da capital federal durante o processo de votação de uma proposta para a criação de um novo estado. Para a organizadora, foi com Numa e a ninfa que Lima Barreto estabeleceu uma nova relação com a imprensa de sua época, “indicando um reconhecimento pouco apresentado da importância desse mulato, morador de subúrbio carioca, na vida literária de seu tempo”.

 

 

 



Revista Pessoa
 



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