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Repetir o nome próprio

Foto: do acervo pessoal da autora



2017-06-16

Quando é mesmo que as máscaras de ar caem para que seja possível respirar?

 

Recentemente fui para o interior da Bahia. Ainda que me dedique há um tempo a uma pesquisa que trata de memória e literatura, e sei de cor que todo contato com o mnemônico se dá em conexão direta com o presente, cruzar as paisagens de um passado herdado era o centro programado da viagem, como se fosse possível abstrair as temporalidades diversas, amontoadas, no terreno arqueológico metafórico ou não contido em todo lugar. Assim, em busca de outras infâncias, deparei-me com a minha, sobretudo com algumas que batizei de “nossas”, porque o singular não dava conta. Por exemplo, as ruas sem asfalto em Barreiras ainda hoje, como se fora o meu ontem.

(Outro dia, num grupo de estudos, um professor que, inclusive, foi preso pela ditadura militar, criticava intelectuais que insistiam em falar de ruínas e não do presente. A certa altura ele disse “o Brasil não tem ruínas” e imediatamente tocou em mim o verso de Caetano, seguida da “Construção”, de Chico.)

Antes de chegar à Bahia, encurtei o caminho a partir de São Paulo com um voo até Brasília. Estar na região da bacia do Rio Corrente, tendo antes esticado estrada até Barreiras e Bom Jesus da Lapa, a desenhar em longos percursos feitos de ônibus um pequeno triângulo na imensidão que é o mapa baiano, ultrapassava a cada quilômetro rodado qualquer noção de unidade temporal reveladora de sinais do chamado progresso ou as especificidades da história de uma família migrante na primeira metade dos anos 1950, entre as tantas outras, maioria com CEP nas periferias dos centros urbanos, onde as contas chegam, de onde todo dia vão e voltam em horas nos coletivos. Desembarcar na capital naquele momento e com os encontros ali proporcionados, entretanto, intensificou esse sentimento de coletividade como bagagem acoplada ao meu corpo, um peso que não é de meros dias e do qual não se livra, talvez Livro. Carga viva, marcada por atravessamento temporal íntimo e um mais amplo, que se revela quando num espelho de rodoviária de beira de fim de mundo se refletem outros rostos no seu.

Coletividade em apuros de toda ordem. Um mau tempo que não cessa como previsão de um tempo que não passa.

Cheguei em Brasília em 25 de maio de 2017. No dia anterior, tocaram fogo nos prédios dos ministérios da Fazenda e da Agricultura. Toda a esplanada foi evacuada. Uma “ação de garantia da lei e da ordem” foi decretada por Michel Temer a pedido do presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia. Logo o ministério da Defesa anunciou a mobilização de 1.500 homens: 1.300 militares do Exército e duzentos fuzileiros navais. É claro que essa narrativa tem problemas, porque, da forma como está redigido o texto acima, parece que a manifestação popular por eleições diretas e pelo fim do governo Temer, como se fora mero sujeito implícito na ação, surge como causa que tem como consequência uma intervenção militar. O que leva à revolta não importa, não se exporta, não vem à tona. Revejo esta construção que vinha sendo atualizada em diferentes sites noticiosos até o momento de meu embarque.

Quando é mesmo que as máscaras de ar caem para que seja possível respirar? Uma certa agonia de voo turbulento prosseguia como atmosfera mesmo quando já estava passeando de carro por Brasília, agonia aconchegada pela promessa da viagem adiante, pela companhia de gente querida, a começar pela recepção afetuosa da Nina, anfitriã e guia pelas Asas, que se mudou recentemente para lá, desde que o namorado, o Roraima, passou no concurso para diplomatas. Estávamos no tal plano piloto. “Já estamos percorrendo o avião”, ela explicava a mim e a Gheu, amiga que me acompanharia pelo oeste da Bahia e que depois prosseguiria para Vitória da Conquista. Eu voltaria para Brasília sozinha numa viagem de quase dez horas, mas que se acumulava em anos que pareciam mortos na não-lembrança de meu pai, já que saiu de lá com apenas quatro anos de idade sem nunca retornar. Porque talvez fossem mais as lembranças de meus avós paternos. Eles, sim, deveriam lembrar o que eu queria saber, mas enquanto ainda estavam vivos, não tive tanta curiosidade como agora tenho para perguntar.

Nesta visita à capital federal, o “Pequeno mapa do tempo”, de Belchior, com seu medo de entrar no avião tocava introspectivo numa rádio interior, sem ondas, na lonjura de mar como trilha. Fica Belchior, Fora... “Eu tenho medo e já aconteceu/ Eu tenho medo e inda está por vir/ Morre o meu medo e isto não é segredo”. Então conto.

Reconheço os prédios já vistos na tv, nos recortes que são as fotografias de jornais. Concreto e armado. Militares guardam algo lá dentro que nós, de fora, passando apressadas pela fome de almoço e de algo mais, não reconhecemos como nosso, rés pública, e repudiamos com certa discrição desmedida.

“Nina, aquele prédio cheio de homens fardados e com escudos em punho na porta era o Palácio da Justiça?”, escrevo dias depois para confirmar o que vi com meus próprios olhos. Nessa conversa sobre minha tentativa localização em Brasília (e de Brasília nas lembranças dessa viagem), tão planejada em superquadras, a ponto de eu ter ido parar num endereço idêntico só que no Sul, quando deveria estar no Sudoeste, onde mora a amiga Camila, já há mais tempo por lá, Nina me define num trocadilho do qual se envergonha, porque seria típico meu e não dela: “Desnorteada”. Ela mora na Asa Norte, a propósito dos trocadilhos a se evitar: alívio cômico diante do que não tem graça nenhuma.

Na tarde do dia seguinte, 26, ao fazer o mesmo percurso, mas a pé, fardados, que pareciam sempre os mesmos, olhavam feio para a minha câmera apontada para a venda da famosa estátua diante do Supremo Tribunal Federal. Suspeitariam, só de olhar para mim, que, naquela manhã, eu tinha participado de uma aula de Literatura Brasileira Contemporânea, parte de uma disciplina que ao longo do semestre trabalhou com obras que tratam da ditatura militar? Reconheceriam nos próprios gestos o que permanece como traço autoritário e que as tais obras denunciam na releitura do vivido (que é a escrita literária) para que não se repita o que mata?

É claro que o tal olhar fardado que li em metáfora, sem rosto, sem nome próprio, é o mero reconhecimento de meu próprio ângulo; um comentário do olhar que eu ali também lançava, acanhado demais, porque sob o disfarce da turista, estrangeira, alheia, aérea, em busca de souvenires nas nuvens baixas do céu de Brasília.  

Topologias do turismo incômodo; diário de Brasília em três tempos-lugares:

 

1  Como é que os enormes anjos na catedral não despencam? Qual o peso de suas penas? Testam as paredes da igreja como telefone sem fio: Deus ouvirá nossos cochichos através delas? Faço uma oração católica. E os gritos no pau-de-arara, nas prisões em todo o território nacional, na cruz? Como resistem os vitrais tão azuis lá no alto aos anos de chumbo?

2 Museu Nacional da República, Last folio: preservando memórias, mostra com imagens selecionadas pelo fotógrafo Yuri Dojc e a cineasta Katya Krausova. Percorremos seus registros da destruição da Eslováquia durante a Segunda Guerra. Os livros que eram lidos quando se deu uma grande deportação em massa de judeus para campos de concentração, em 1942, permaneceram nas mesmas prateleiras de uma escola comunitária. “Talvez todas essas fotos sejam memórias para aqueles que estão agora sem sepultura e que ninguém lembra. Talvez essa seja uma forma de saudação aos desaparecidos”, palavras de Dojc. Até quando? A exposição fica em Brasília até o final de junho.

3 Vertigens do alto da torre de tv de Brasília (não a digital). O sol despede-se em tons violetas. Distraio-me com as variáveis cores de uma roda gigante num parque de diversões ao lado. Olho mais uma vez e já está escuro para os lados onde ele se pôs, no horizonte atrás de um prédio que leva o nome de Ulysses Guimarães, onde acontecem shows. Os prédios lá embaixo, enfim, tão miúdos, de perto a sensação é a de que nos convertem em miniaturas. Os candangos são gigantes, não as pessoas, mas as esculturas-monumento diante do Palácio do Planalto. 

Antes do passeio, naquela manhã, fui assistir à aula da professora Regina Dalcastagné, na UnB. Não tinha ainda feito a leitura do dia, o livro Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva, publicado em agosto de 2015, escrito após a publicação dos relatórios da Comissão da Verdade. Alguns alunos presentes tinham estado na manifestação contra o governo no dia anterior. O tal decreto que dava ordem para que o Exército estivesse nas ruas tinha sido revogado. “O que vemos e o que podemos não estar vendo?” paira como começo de conversa que não termina em resposta fácil a esta pergunta da professora diante da leitura, a do livro, a do momento que vivemos.

Ainda estou aqui entrelaça aspectos da vida privada da família Paiva com a história recente do país, desde a ditatura até a atualidade, via memória, tendo no centro a figura de Eunice Paiva, viúva de Rubens Paiva, deputado torturado e morto pelo Estado, mãe do autor e de mais quatro filhos, sobretudo a Eunice protagonista de sua própria história, não somente a viúva e a mãe, mas também porque viúva e mãe nos contextos particulares e públicos (do que não se quis por tanto tempo trazer a público por parte do governo brasileiro, como admitir o assassinato por meio do atestado de óbito do marido, documento que a oficializaria como viúva), já que vista da perspectiva deste filho diante de tanta memória, a dele, a dele sobre ela, a deles, a nossa, e as implicações do Alzheimer que ela sofre individualmente, mas também das tentativas de apagamentos que sofremos diante de nossa própria história e de um Estado que nunca deixou de ser policial, sempre à espreita. Protagonista que tem as conexões, entre o que foi e o que é, rompidas pela doença a que o filho escritor, que agora inclusive responde juridicamente por ela, aquela que sempre fora a advogada da família e dos amigos, assiste em mais de um sentido do verbo “assistir”.

“Eunice Paiva”, autobatismo a despeito dos registros oficiais, assinatura evocada em texto publicado por ela na Folha de S. Paulo em 1982, no qual tece relações de proximidade entre a impotência da Funai como órgão do Ministério do Interior e a do Conselho dos Direitos da Pessoa Humano, junto ao Ministério da Justiça, diante do extermínio dos índios, como aqueles que empacariam os interesses dos fazendeiros, e das mortes dos que lutaram contra a ditatura, respectivamente, se é que importa pontuar a ordem do que corresponde a o quê nesse emaranhado de interesses:

“Um detalhe chama atenção. Ela não assinou Maria Lucrécia Eunice Facciolla Paiva. E olha que em todas as ocasiões ela sempre exigiu que usassem o nome completo, composto de três nomes. Nem assinou como a viúva de Rubens Paiva, do movimento pela Anistia, Diretas Já, uma familiar de desaparecido político, uma vítima da ditadura. O artigo é assinado por uma Eunice Paiva. Uma outra Eunice. Uma nova Eunice.”

Em casa, enquanto lia Ainda estou aqui, de volta da viagem que em Brasília apenas começava, fui voltando aos poucos de tudo o que tinha visto de fora e apequenada, nas áreas externas e supostamente públicas da cidade, também do lá fora captado pelas janelas dos diferentes ônibus que tomei rumo ao passado como presente na paisagem do oeste baiano. Ao me recolher da interioridade que visitei numa geografia concreta, mas também dos afetos e sua falta, aquela que se carrega onde quer que se esteja, com seus territórios moventes a se reconhecer como próprio e estranho –, me vi às voltas com a pergunta direcionada aos pacientes com suspeita de Alzheimer, e registrada no livro do Marcelo: “Onde e em que ano estamos?”.

Percorro a cidade visitada como parte de outras tantas biografias, as que foram, as que poderiam ter sido:

“Em 1964, meu pai era deputado federal pelo PTB. Tinha um apê em Brasília. Grande chance de nos mudarmos para lá. [...] Cidade espaçosa, arejada, desértica, com esculturas incríveis no meio do nada. Seria divertido nos mudarmos para lá. Seria diferente. Brasília era um descampado. Se não fosse o golpe, será que eu me criaria em Brasília? O que seria de nós sem o golpe? O que seria do Brasil?”

Entre tantos outros grifos desta leitura instigada por aquela aula na Unb, há para mim um que soa eco, grita no papel, tem como papel um grito: repetir o nome próprio. Marcelo conta que seu pai morreu repetindo seu nome (o dele) depois de ser torturado ao som de “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos. Música que a irmã Eliana do autor, que também foi presa com a mãe Eunice, lembra-se de ter escutado no DOI-Codi, naquele janeiro de 1971: “Meu nome é Rubens Paiva, meu nome é Rubens Paiva, meu nome é Rubens Paiva, meu nome é Rubens Paiva, meu nome é – Rubens Paiva...”

No livro, em parágrafos entrecruzados, a prisão do pai engenheiro no Leblon, surge em paralelo à prisão, em 2013, na Rocinha, do pedreiro Amarildo Dias de Souza, marido de Elizabeth Gomes da Silva, pai de seis filhos, e a história comum de desaparecimento, tortura e morte, que se repetem por aí, de gente que nunca ouvimos pronunciarem sequer o nome. O sentimento é de coletividade e de continuidade diante do narrado, sem deixar de reconhecer os privilégios de classe, negando qualquer vitimização hagiográfica de sua família. A infância de Marcelo Rubens Paiva tinha sido a infância que toda criança deveria ter... Sua mãe podia se dar ao luxo de não comer para se manter magra... Seu pai era um homem que fumava charutos e gostava de Paris, que falava inglês e francês...

Sobre os nomes, lembrei que Graciliano Ramos, para compor suas Memórias do cárcere, também guardou as assinaturas dos presos com quem conviveu. Únicas notas que teriam ficado em seu poder, tendo outras sido lançadas ao mar e deixadas debaixo de um colchão.

Na performance idealizada por Nuno Ramos, durante 24 horas os nomes de cada um dos 111 presos mortos no massacre do Carandiru, em 1992, foram repetidos ininterruptamente em voz alta.

Repetir o próprio nome, aquele com iniciais maiúsculas, o que nomeia alguém em sua identidade intrasferível, afinal a que é que se destinava no grito de Rubens Paiva? Para quem? Quando, se não no agora, nesta leitura como pergunta diante de tudo o que quiseram, querem, calado? Nesta viagem ao interior da Bahia, em que Brasília figurou mais do que mera passagem, onde e em que ano estou? Pergunto, para não me esquecer.

 



Luciana Araujo Marques
Luciana Araujo Marques é mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).



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