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Tornar-se mulher - parte 2

Foto: Cooee



2017-06-04

- o tornar-se mulher e o devir escrita ou o tornar-se escritora e o devir mulher -

parte II

 

 

para Wanda Araújo

 

Que essa garra de ferro
Imensa
Que apunhala a palavra
Se afaste
Das bocas dos poetas.

 

Hilda Hilst

 

 

Como ouvir e permanecer ao lado daquela mulher que me inspira na tórrida lucidez dos seus passos e diz: “rica não, sei que rica não serei. mas que nossos corpos desviem das armas de fogo. dos perigos. da traição”. Ouço entre a poesia e a prece. Da prece retiro o manto religioso. Seus ornatos. Mas deixo um tanto da fé. Inexplicável. Indizível. Da poesia retiro toda carne que não seja perfurada pelo osso. O excesso insensível. As apoteoses anestesiadas. O performar sem...

Lanço seu lenço ao mar. Sem licença. De novo. E tudo isso que retiro. E ainda assim.  A lucidez dessa mulher me parece impossível.

Por que à mulher negra que trabalhou toda a sua vida, em parte dedicada à cuidar e à curar as nossas doenças essa ‘profecia’ – “sei que rica não serei”? Como posso daqui – de perto digo e não da janela – de muito perto digo – fazer do meu sonho algo que não seja perfurado pela sua realidade? Sua prece. E sua poesia.

Por que ainda tantos, quase todos, diria, acoplados à série:

sucesso=dinheiro=sucesso=normalidade=sucesso=dinheiro=normalidade=sucesso=normalidade.

Escrever essa semana ficou mais difícil. Essa proliferação de desastres. Esse modo instaurado. Vivo. A luz do dia – a violência. Atada sobre nossos corpos. Que ainda vivem, no entanto, apartados. Por uma injustiça que já não sei como dizer. Afinal os desastres fazem ruir também os discursos que me formaram.

Como dizer talvez seja o ponto de partida e de chegada quando se escreve. Não entendam como uma questão de estilo. Como dizer, quero dizer, é porque é impossível dizer. Quero dizer dos impossíveis. Como ser mulher ou escrever. No Brasil. Como dizer – sim, isso aqui ainda é um país.[?] Seria escrever ainda uma língua? Como dizer?

*

Sim se escreve. Desde um dia. Desde que não se sabe. No entanto esse mito da escritora que surge “naturalmente” é uma das maiores atrocidades. Não há nada de natural que ligue ser mulher ao escrever. A mulher que escreve rompe com inúmeros tecidos. Incluso, muitas vezes, com a própria pele. Em primeiro grau – rompe com o tecido da família. Não porque fale de segredos dela. Mas porque até muito pouco tempo. Onde eu me incluo. Em muitas famílias. O poder dizer é o que deve ser evitado. E em primeiro lugar evitado pelas mulheres. Vejam como ainda hoje é difícil dizer ao seu companheiro frontalmente, digo francamente, dos teus próprios desejos. De qualquer natureza ou ordem. A instituição e o dizer verdadeiro são dois rios que correm separados.

Toda escrita, que não tem a ver com contar algum segredo - que já quase não há - ultrapassa essa barreira anterior-do poder-dizer. E nesse ultrapassamento transgride. Mas isso é apenas um algo ainda ‘burguês’. Das famílias em sua maioria brancas e patriarcais. Escrever, no Brasil, rompe antes mesmo é com o tecido social. Ali onde não houve livro. Nem letra. Nem leitura. E ainda assim se escreve. Porque escrever, sinto dizer, não é sobre-determinado pelo ‘aprendizado’ da escrita [não façam disso um desmerecimento da escola e da aprendizagem, ora, ora, por favor]. Mas Maria Carolina de Jesus escreve. E Estamira escreve. E Bispo do Rosário escreve. Mesmo que queiramos ainda hoje, quando os retiramos da favela, do lixão ou do hospício coloca-los rapidamente no íntimo, no museu, ou em algum outro espaço de novo desafetado. Onde sua palavra pode até valer dinheiro. Mas continua não tendo “valor”. Por que esse valor de que falo é o mesmo que teria que perfurar os teus sonhos. Digo perfurar. Os teus sonhos. Aí talvez um novo conceito de literatura. O que me interessa: literatura é uma escrita que perfure sonhos. Nada a ver com realismos... nossa como precisamos pedir tantas licenças...

Com nuances diferentes, ainda assim, para a mulher, mesmo quando houve letra livro e leitura. Bule, leite e café. Um caminho ainda imenso deverá ser percorrido em torno ao “poder dizer”.

Poder dizer ata de forma irrevogável o dizer ao poder. Desprovida do poder de ser mulher a mulher não poderá dizer.

Como se depaupera um poder ser? Seria preciso ainda dizer? Os processos subjetivantes que vão nos permitindo existir e também des[ex]istir ao longo da vida são todos eles operações atravessadas pela relação poder-dizer. Nessa, a mulher sempre esteve - e ainda está - por baixo. A reversão disso [no sentido de equivalência] opera, como temos visto, em todos os níveis. E com as maiores dificuldades: veja que preciso sublinhar aqui que quando escrevo ‘reversão disso’ falo de equivalência. Porque o homem certamente sentirá reversão como um desejo da mulher colocar-se agora “sobre” ele. Ali onde ele porventura, mesmo ‘sem querer’, sempre esteve. Toda mudança de posição retira o nosso chão. E sentimos isso como se estivéssemos sendo privados de algo. E até certo ponto sim. Privados do que se considera o excesso que impediu nessa relação [homem-mulher] a equivalência entre os termos.

Equivaler significa ver, ouvir e sentir diferente. Nas palavras que digo à minha filha. Nas relações amorosas e no modo de amar. No sexo. No corpo e no modo de sentir. Nas amizades e no modo de estar ao lado. Na escuta. Porque não haverá equivalência sem que os muitos lados mudem de posição. Escute. Como o teu sonho pode não ser perfurado – repito perfurado – pela minha realidade?

*

Sob o longo título dessa coluna vive um outro. Escondido. Nele escreveria: “Dizer Cru”. Subsiste num tempo ancestral e sempre atual. Que escreve comigo. Mesmo quando não sei. Sobretudo porque não sei. O que hoje sei é que o ‘dizer cru’ se tece em torno aos inúmeros procedimentos de maturação. De madureza. É a[o] cozinha[r] da vida que vai nos permitindo dizer... cru. Ou simplesmente dizer. Quiçá dizer simplesmente.

Só o maduro do corpo aguenta uma palavra crua - paradoxal, eu sei. Sei também que a relação, melhor dizer: o convívio com o cru, com a carne, com o sangue, com o corpo morto e as cinzas, também das horas, com o corpo desfeito em pó, em amor também, como animais do desejo feroz, enfim, com essa selvageria aqui e ali domada, e às vezes, com sorte, um tanto feiticeira, perdida nas nossas florestas, nas nossas cozinhas ou porões, ficou como camada camuflada de um matriarcado invisível. A potência escondida da mulher. Abafada – quando não impedida- pelo patriarcado ocidental. O que vigora. De um vigor que se confunde ao violento. E ao tantas vezes vil.

Dói remexer com [in]visíveis. Dizer cru é como ter a faca afiada no pescoço.

Por isso essa maturação lenta. Esse dar-se conta dos tráficos interiores e exteriores. O mais íntimo e o escandalosamente fora. Hora de separações. E não de junções ou continuidades. Tempo de diferenciações e de descontínuos. Tornar-se mulher. Estamos nos separando de tantos, agora mesmo, apenas por esse gesto, com esse texto. Separar-se para nós, que nos cremos filhos de misturas, devoradores do mal, apaziguadores constantes de conflitos intransponíveis, antropófagos deglutidores dos inimigos. Bem, não é evidente.

Está na hora de começarmos a nos perguntar sobre os belos conceitos que herdamos ou importamos mas que nos desarmam politicamente. Subjetivamente. Está na hora de reivindicar constantemente uma subjetivação política que mude a prece e a poesia da mulher. Está na hora de mudar a profecia da mulher. Que destina apenas aos mesmos o direito à. Hora de tirar do papel. E reunir forças. Viverei com os meus sonhos perfurados. Até que vocês sonhem. Perfurados.

*

Devir-dizer-cru. Esse convívio com o que apodrece. Está aí uma coisa madura, caindo da árvore ela mesma velha. O mistério das velocidades. O vento inesperado. Arrastando-nos a ver com muita prudência isso que advém. Tudo o que está no ponto de se tornar. Antes que caia. Ou mesmo esse tempo da queda – igualmente veloz e sempiterno. Impossível dele nos despregarmos. Ou talvez. Sim. Talvez apenas essa a saída – escorregar, ao invés de cair. Até a morte. Porque morremos.

*

Aquele silêncio foi feito de muitas vozes. Ele está ainda aqui. Uma voz sozinha não o retira. Muitas falaram. Mas tantas não. Ainda não. Ainda agora ensaiando. E reencontrando os outros silêncios. As vezes o silêncio é só calar. Outras, um dizer sem palavras. Recrimina. Impede. Silêncio que silencia no olhar. Ainda aquele mais duro, uma espécie de não ver. Nem sentir. Pior do que desatenção, desafetado. Indiferente. Alheio. Esse silêncio me criou alhures de mim. Pode parecer bonito. Dizer como fui sendo sem ser... mas não é bem assim. A dor que sinto ainda. A de não ter podido. Essa sensação de ter faltado à minha própria vida. Um não estar aqui. Como não estou. Não estou aqui. Você não vê? Escrever teria sido mesmo tudo de mais condizente com esse estado que é viver separada de mim mesma. Essa ausência que foi se tornando perda. Uma perda que foi se tornando esquecimento. E hoje apenas uma marca sob o pé direito. Uma dor no nervo ótico. Um fóssil por detrás de mim. Um punho sem força. E os dias. Que apunhalam a palavra. Porque morremos.

*

Escrevo contra todos os silêncios que se inscreveram em mim.



Ana Kiffer
Professora Associada da Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio, escritora, curadora da Exposição ‘Cadernos do Corpo’ (CCJF, 2016), uma das fundadoras da Revista DR, pesquisadora da obra do francês Antonin Artaud. Autora dos livros A punhalada [poesia], (7Letras, 2016, coleção Megamini), Antonin Artaud (EDUERJ, 2016), e das coletâneas Sobre o Corpo (7Letras, 2016), Expansões Contemporâneas – literatura e outras formas (UFMG, 2014), Experiência e Arte Contemporânea (Ed. Circuito, 2013), entre outros artigos e ensaios.



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