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América do Sul em chamas

Acervo do autor



2017-04-03

Eu estava num ônibus a caminho de La Paz, no que me parecia ser o meio da estrada, quando vimos os primeiros automóveis dando meia-volta. Um pouco mais à frente, motoristas fumavam ou mascavam coca encostados nas dezenas de ônibus parados no acostamento. Vínhamos de Cusco, em um carro peruano cuja tripulação decidiu não se aventurar. O motorista parou, nos mandou descer e seguir a pé até o terminal. "Ouvi disparos", disse a uma das moças que nos ajudou a cruzar a fronteira. "Vamos voltar para o Peru. Somos peruanos".

Alguns mochileiros, pais com filhos pequenos, uma senhora de muletas, todos nos pusemos a caminhar pelo asfalto: a moça garantiu que o caminho era curto e que, em grupo, os manifestantes não nos atacariam, mas apedrejariam qualquer automóvel que tentasse furar o bloqueio.

Cheguei a La Paz no dia de um grande protesto de cocaleros, plantadores da zona tradicional que vieram à capital marchar contra uma lei que delimitava o cultivo da coca, que nos Andes é mascada há mais de cinco mil anos, cotidianamente, além de ser usada em rituais religiosos. Masquei algumas na travessia de três dias pelo deserto, pois alivia o cansaço e o mal de altura – e me pareceu inofensiva. O caso é que a planta também é a base da cocaína.

Quase todos os países pelos quais passei estavam em ponto de pólvora. No Peru, o escândalo da Odebrecht fez com que um ex-presidente fugisse do país. Os tentáculos da corrupção peruano-tupiniquim, segundo os jornais, desciam até a lama sangrenta dos governos Fujimori. Os bolivianos tentavam frear a vontade de reeleição eterna de seu presidente, assim como os paraguaios, que há alguns dias atearam fogo ao Congresso em Assunção. As autoridades uruguaias juravam de pés juntos que não havia carne podre no país. Na Argentina, conheci voluntários de um programa de assistência a crianças carentes que voltariam a suas pátrias europeias completamente desgostosos. No Chile, a força acachapante da indústria mineira aumenta os abismos entre ricos e pobres: em Antofagasta, um líder comunitário disse que eu estava numa cidade com o PIB de Londres e a violência do Rio de Janeiro. "Então tome cuidado."

Nos muros, os slogans são parecidos. A luta feminista parece ganhar visibilidade em todo o território andino, com a reação que os brasileiros também conhecem. Ao lado de pichações progressistas, lá estão os indefectíveis cartazes contra a "ideologia de gênero": "Com meu filho você não se meta!". No metrô argentino, outdoors sugerem que os ricos paguem pela crise. Em Porto Alegre, onde estou agora, há tantos cartazes anarquistas que Buenaventura Durruti se sentiria em casa: "Nem esquerda, nem direita. Anarquia!".

Aliás, a capital gaúcha, nas duas vezes em que a visitei recentemente, parece estar desfazendo os surrados nós que prendiam o anarquismo à esquerda. Algo está acontecendo aqui, embora os antigos clichês visuais (o coquetel molotov etc.), os cacoetes retóricos (a palavra de ordem mal-ajambrada, que geralmente falha em se comunicar com quem deveria) e os demais acessórios que marcam o velho anarquismo de paróquia ainda precisem ser depurados. Mas há, sim, uma potente vontade libertária fincando pé, à qual os gaúchos foram empurrados pelo total descalabro governamental.

Sempre que eu me identificava como brasileiro, a pergunta era a mesma: "E como está lá?". Os europeus tinham ouvido falar de um golpe parlamentar, de uma trama shakespeariana de quinta, cheia de reviravoltas e facadas nas costas – à qual não faltavam os bobos da corte cantando no Congresso. Eu tentava explicar. Com os sul-americanos, porém, me entendia melhor. Ouviam a história e sorriam, compreendendo tudo. Quando disse a um sociólogo peruano que o novo presidente é poeta, poetinha de versos empolados, ele riu e disse algo como "Todos os nossos tiranetes acham que são artistas". É igual em toda parte, eu respondi. "É igual em toda parte."

 



Victor Heringer
Victor Heringer (Rio de Janeiro, 1988) é escritor, autor de Glória (7Letras, 2012, Prêmio Jabuti), O escritor Victor Heringer (7Letras, 2015), Lígia (e-galáxia, 2014), entre outros. Colabora na revista Pessoa desde 2013.



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