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Fluxo de não consciência

Acervo da autora



2017-04-03

Não sabia onde estava. Não havia qualquer noção de “onde” para me perguntar “onde”? Aliás, não havia qualquer noção de “quem” para questionar quem “eu” era, onde estava e por quê? O que havia era um amontoado de palavras impressas no ar. Mas como “impressas” se no “ar”? Possível resposta: porque era uma atmosfera de palavras que diziam. E se digo “diziam” é porque tinham voz os tais seres impressos. Compostos alfabéticos, mas com seus respectivos sons. Não havia bocas que pronunciassem, é verdade, mas eram pronunciadas. Tratava-se de um ambiente sem corpo que o habitasse. O habitar e seu despejo, no mesmo lugar. Inclusive, eu estava ali e não era um corpo, mas sentia o aperto de um corpo entalado. Era feita de ar a redoma claustrofóbica, estreita de tanto dizer e escritos. Eu não era eu nem tinha um corpo, e me faltava ar? Pois é. Um abafamento de sentidos, ou seria uma confusão de todos eles dispostos numa bula ilegível, com suas contraindicações. Ausência de posologia. Não há dose adequada. “Too much”. É o Ó, ali? As palavras pesavam, abatidas no voo, mas sem chão que as recolhesse na queda, então retornavam, circulares, para o limite do falso céu de dicionário. Destituídas de significados. Eram palavras, estavam escritas, ecoavam seu sentido escrito. Uma agonia! Algo como “táxi”, outro como “pássaro”. Servia de clareira o “caminho” escrito, mas aí ia dar em “guarda-chuva”. No fundo do ar que me comprimia havia uma “luneta”... “Desliga a máquina de lavar!”, mas onde ela bate as palavras, a máquina? “Tá no Enxágue”. Até que um “você está bem?”, claro e articulado em pergunta e voz de mulher soou como a tal luz no final do túnel. Segui naquela direção e vim dar neste relato impossível.

A moça me olhava assustada. “Você está bem?”. Numa palidez que deveria espelhar a minha. Logo percebi que eu estava sentada na mesma cadeira, com os pés imersos na mesma água aromatizada, na mesma sala silenciosa e com a mesma decoração nipônica, onde pouco antes eu entrara para receber massagem. Tentar aliviar uma tensão nas costas que me acompanhava há alguns dias. Então lembrei que sentira uma dor extrema num dos pontos que ela apertou com o cotovelo na minha omoplata. Foi o tempo de articular algo como “náusea”, sentir um calafrio e apagar (para despertar nas entrelinhas espaço 1,5 do Word, em versão esférica – que frustração criativa meu estado inconsciente). Pode parecer engraçado, mas foi um terror. Não sem antes, segundo a massagista, eu esticar todo o corpo, numa espécie de espasmo, seguido de tremeliques de pernas e braços. Na mesma velocidade que fui, voltei, ela garantiu. “Não durou muito, não”.

A massagista ficou intrigada, dizendo que se estivesse mexendo na minha cervical, aquilo faria sentido, por conta de um tal feixe de nervos etc. etc., mas que nunca tinha visto algo do mesmo jeito. Tentei contar para ela, não sem antes deixar claro que não tinha consumido nenhuma substância alucinógena, o que relatei no parágrafo acima. Imediatamente ela assim reagiu: “você precisa escrever um livro!”. Entendi que ela estava se referindo ao relato em si, ao “extraordinário” que muitas pessoas, num determinado senso comum, acreditam precisar acontecer para que se tenha assunto suficiente para uma narrativa. Algo que rompa com a banalidade dos dias. Num outro plano, eu também apreendi daquela exclamação “você precisa escrever...” a redoma em que me meti. A moça me conhecia apenas há alguns minutos, nem tinha dado tempo de dizer o que eu fazia ou deixava de fazer para dizer aquilo como conforto para o ego diante do mico, mas respondi com meu trocadilho dileto: “Sim, um dia eu me livro”.

Apesar da forte dor de cabeça que só me largou no dia seguinte, o desmaio em si não me preocupou. Parecia que tudo estava em seu devido lugar em mim, isto é, na bagunça corriqueira. Garanti que tudo parecia bem e pedi para que ela continuasse o trabalho. Minhas costas pareciam pouco a pouco destravar, mas é verdade que saí de lá com pelo menos mais duas ou três interrogações para carregar nas costas. Daquelas de dar nó que shiatsu nenhum desata.

(Shi = a dedo; atsu = pressão, ou seja, pressão com o dedo, anoto à mão num caderno. Massagem = compressão mecânica. Apressadamente leio: compreensão mecânica, o que faz sentido, e porque faz sentido, desconfio.)

Já em casa, por telefone, relatei o ocorrido para uma médica, que tratou o assunto com trivialidade. “É comum. Foi uma síncope vasovagal”. A mesma ligação foi interrompida pela notícia de um outro paciente que acabara de falecer. O meu episódio ficou ainda mais rebaixado na escala. Nenhuma chance de despertar o interesse de um Oliver Sacks, se estivesse vivo. Comecei a lembrar do paciente dele, um escritor canadense, que perdeu por um tempo a capacidade de reconhecer a linguagem escrita, tudo o que desejo se for acometida por um novo desmaio.

Curiosamente, eu tinha me detido ao termo “síncope” ou “síncopa” em 2015, por conta de uma série de questões levantadas pelo professor Pedro Meira Monteiro, então professor em Princenton, em visita à USP. Assisti como ouvinte àquela disciplina ministrada por ele e por isso não precisei ir ao dicionário saber do que exatamente se tratava em termos mais simples a tal “síncope”. Sabia que ela abarcava “suspensão”, “quebra”, “parada”. Logo me veio à mente a própria síncope encarnada no gestual do bailarino e pesquisador Antônio Nóbrega, por meio das danças brasileiras, e nos sons, tempos e contratempos da nossa música como matéria de José Miguel Wisnik, porque ambos participaram dos encontros coordenados por Meira Monteiro, que tanto esmiuçaram as formas táteis de conhecimento. Anotei no caderno daquela disciplina as palavras do professor: “a insuficiência das palavras diante das manifestações do corpo”. Mais adiante: “o sujeito está sempre diante do desconhecido”. Não me pergunte por que e qual era o contexto.

A propósito do episódio seguido dessa associação, a expressão “assistir como ouvinte”, que corresponde a frequentar aulas de uma disciplina sem estar oficialmente nela matriculada, o que não lhe impede de falar, que fique claro, ganhou para mim outra conotação desde então. Porque ficou muito evidente após a explicação médica que eu desmaiei, mas de alguma forma resisti ao desmaio, o que resultou numa espécie de assistir à própria inconsciência. Assistia como ouvinte, ali, na atmosfera crivada de palavras, porque via e ouvia, entretanto, sem meu nome na lista de presença. Eu não estava ali, e estava. Assistia e não participava, porque em algum nível estava apartada das capacidades do meu próprio corpo.

Quanta besteira!, a médica poderia reforçar, com a linearidade do discurso científico, não há nada de desconhecido aí, não há nada mais corpóreo que uma síncope. E, de fato, eu teria de concordar, não apenas pelos sintomas todos nos quais reconheço o que foi experimentado e que nomeiam aqueles instantes – náusea, suor frio, queda de pressão – e que unem todos aqueles que já sofreram a síncope, mas sobretudo pela suposta familiaridade do que me acompanhou como delírio: palavras impressas e audíveis. Grifo o que Harold Bloom comenta no prólogo de Como e por que ler, “os valores, na literatura e na vida, têm muito a ver com o idiossincrático, com excessos que geram significados”. Diante da citação não resisto a checar os verbetes para indissiocrasia no Houaiss: 1. Rubrica: medicina. predisposição particular do organismo que faz que um indivíduo reaja de maneira pessoal à influência de agentes exteriores (alimentos, medicamentos etc.); 2. característica comportamental peculiar a um grupo ou a uma pessoa.

Eis o maior dos estranhamentos, aquele que se dá com o que aparentemente é o conhecido, o terreno mais familiar, o peculiar, o próprio.

Se no fluxo de consciência, como uma especialização do foco narrativo, o escritor dispõe em palavras uma possível representação de processos mentais entre trechos sucessivos que não se juntariam, porque truncados e caóticos, já no que tentei chamar de “fluxo de não consciência” ainda haveria algo que escoa, por isso ainda se poderia dizer “fluxo”, ao mesmo tempo que este algo parece permanecer estancado por um “não”, num aprisionamento do gesto.

Falta corpo no peripaque (o corretor do word corrige para “propague”) ou é ele quem se esgoela porque algo transborda no meio de todo sentido que tentamos dar por meio das palavras, sobretudo, as científicas?

Nisso que estanca, vislumbro pelo menos mais duas imagens: uma na qual as palavras soltas nada dizem se não de um barulho artificial, um ar-condicionado ligado em temperatura emperrada; outra repleta de boias (as próprias palavras e dizeres) nunca alcançadas para além dos verbetes já consagrados. Sem braços ou pernas, como nadar até elas, para além do dicionário, neste aquário de letrinhas. Como tomar fôlego se o escafandrista é um brinquedo de plástico, um sistema de buscas de significados?

O curioso é que lia e anotava para dar conta de um longo parêntese, sem conclusão...

(Tenho as juntas frouxas, o que exige musculatura forte. Passo a maior parte do tempo sentada, o que promove flacidez. A cabeça envergada sobre as páginas, as mesmas que libertam dos limites de ser vivente via essa mesma cabeça em guerra com o pescoço. Sem que ele se alongue, não se olha para o lado. A leitura exige um corpo. Eu sei. Para dar conta de escapar de seus limites de carne e osso, via imaginário, o corpo também exige leitura. As palavras pedem articulação com o vivido sensorialmente, apesar de todo o enfoque dado ao seu caráter mental, como se mente fosse algo nascido no que não é carne, dissociado dos músculos e nervos comprimidos, porque ler remete a tantos ao corpo quieto e envergado sobre as páginas, apartado de toda presença, pelo menos desde o ato da leitura do bispo Abrósio surgir como aparição para Agostinho, conforme suas Confissões, onde o que é corpo aparece tantas vezes como algo a ser apagado, separado da mente. Dicotomia. O assombro de santo Agostinho era ver alguém lendo tão concentrado, só, e em silêncio:

 

“[...] no pouco tempo que lhe restava, ou ele estava revigorando o corpo com o alimento absolutamente indispensável, ou sua mente estava lendo. Durante a leitura, seus olhos deslizavam sobre as páginas, e seu coração procurava o sentido, mas sua voz e língua permaneciam em repouso. Muitas vezes quando aparecíamos [...], nós o víamos lendo em silêncio, nunca de outra forma. Ficávamos lá sentados por um longo tempo (pois quem ousaria perturbar alguém tão concentrado?)”)

 

... quando segui uma voz que dizia claramente... “Saia de cima destes livros. Vá tomar um ar. Fazer uma massagem para relaxar”.

Fui, e retornei ao primeiro parágrafo.

 

Projeto Ilha, de Cristiane Mesquita, Fita adesiva PALAVRÃO [referência ao trabalho Palavrão (1999-2011) de Jorge Mascarenhas Menna Barreto]



Luciana Araujo Marques
Luciana Araujo Marques é mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).



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