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Cabezas



2017-03-06

 

cabezas tamanho único

brancas

vazios densos

 

cabezas

recortadas

através dos vidros das vitrines

da cidade lenta

 

como os restos de pensamentos

que não cessam

de abandonar um corpo

que apodrece

 

lenta como as lembranças mais remotas

de cada uma

delas

falam

 

lenta linha a linha lenta

ponto

a ponto

de cada cabeza lenta

a luz que as projeta para muito

longe ou para mais perto

de alguma outra imprevista

cabeza cheia

de pensamentos interrompidos

 

imagens

para sempre perdidas

que rastejam no ar

 

hesitantes cabezas

que pensam que constroem

ou fazem desmoronar mundos

com as próprias cabezas

e falam

com as próprias bocas

mas que não têm bocas

e por isso não falam

 

 

Estas fotos, que integram um conjunto intitulado “Capturo cabezas, cartógrafo inframundos”, foram realizadas – sem o uso de qualquer efeito – durante uma deambulação domingueira que fiz pelas ruas de Berlim, em 2013. O poema é de 2015.

 



Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo é poeta, artista visual e sonoro, cantor, compositor, performador, ensaísta e editor. Publicou, entre outros, os livros Impossível como nunca ter tido um rosto (2016), Modelos vivos (2010 – um dos 10 finalistas dos prêmios Portugal Telecom e Jabuti 2011) e Trívio (2001). Integra antologias, coletâneas e edições especiais de revistas e jornais dedicados à difusão da poesia brasileira nos EUA, na Argentina, em Portugal, na França, de País de Gales, em Angola e no México. É curador da Feira de Inutensílios. Edita a revista Roda – Arte e Cultura do Atlântico Negro e a Coleção Elixir, de plaquetes tipográficas. É colunista da Rádio Inconfidência FM. 




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