Imagem rc8292892016083303U98HL.jpg

Vila Riso, Rio de Janeiro (meados de 2002)



2016-09-28

Não era meu amigo, o Gerd Bornheim, embora eu gostasse muito dele e, acho, ele de mim. Nos conhecemos em um caminho profissional cruzado e o sorriso dele, sempre meio aéreo por trás daqueles óculos de quem não estava vendo nada, mas enxergando tudo, me encantou.

Em 1998 fiz minha segunda e última exposição individual. Foi na Vila Riso (RJ) e era um experimento com impressão mecânica em grandes dimensões sobreposta à tinta automotiva. Essa tinta, muito rebelde, me fascinou por décadas, até eu começar a desmaiar no ateliê e me dizerem que aquilo era venenoso.

Também venenosa era, pra mim, a convivência com ricos compradores de arte. Então, foi mesmo a última. Chamei o Gerd pra fazer a apresentação e ele, que não fazia essas besteirinhas, topou.

Perdi esse texto. Perdi dois textos nessa época de muitas mudanças (bem, a época permanece). O do Gerd foi um deles.

Acho que fiz bem em perder. Por mim e por ele. Eu ia ficar tentada a seguir em frente, tendo um padrinho desse quilate. E ele não ia gostar de eu brandir o texto dele, uma concessão a uma simpatia mútua, no meio da sua vastíssima, seriíssima bibliografia. Então, uma vez o texto perdido, do Gerd só posso brandir uma lembrança.

A da primeira vez que ele foi na minha casa.

Eu morava na Bambina, a rua citada no meu "Como se estivéssemos em palimpsesto de putas", e o apartamento era o seguinte. A gente tinha comprado ainda na planta. Na verdade, a gente comprou vendo um grande buraco, o das fundações do futuro edifício. Mas atrás tinha um morro e a gente achou que a vista ia ser linda. O apartamento, de último andar, vinha com uma opção já aprovada de construção de um terraço, mas ele mesmo, do jeito como foi entregue, era um dois quartos com uma varandinha em que não cabia uma pessoa, varanda essa que dava pra vila ao lado, pro Dona Marta a médio plano e pro Cristo Redentor, por sorte de perfil, irreconhecível, ao fundo.

Aí o Gerd entra, suspira e vai direto pra vidraça da varandinha. Mantém as mãos nas costas do seu corpanzil, suspira outra vez e diz:

"Nossa, Elvira, que apartamento lindo o seu!"

Ele, com seus óculos grandes e tortos, não tinha visto nada do apartamento. O apartamento, pra ele, era a possibilidade de ver o que havia fora do apartamento. O mundo. Era por essas coisas que eu gostava dele.

Depois passamos um tempo sem nos ver, a não ser por acaso, no meio de um carnaval, ele com o mesmo sorriso aéreo, os mesmo óculos inúteis, olhando um menino que dançava na rua, na frente dele. E que, achava, o tolinho, que Gerd prestava atenção nele, nele pessoalmente, e não no movimento bonito de uma dança genérica.

Gerd queria sair do apartamento em que vivia no Morro da Viúva. Disse que era porque era muito grande. Mas acho que qualquer apartamento iria incomodá-lo, a não ser que oferecesse um não-apartamento, um fora de si, uma possibilidade outra, de si.

Morreu em 2002, pouco antes do meu aniversário. Soube quando quis convidá-lo, dizendo que a gente tomaria uma cerveja e eu daria pra ele meu "Coisas que os homens não entendem", recém-publicado. E fazia e refazia o convite na minha cabeça, já escutando o riso aberto, solto, aéreo, que ele daria ao escutar o título.

Ah, como eu teria gostado.

O outro texto perdido nessa época era um texto meu, ainda de quando eu escrevia pra criança. Uma peça de teatro chamada "Sem cabeça nem pé" e era inteiramente formada de locuções televisivas de jogos de futebol (que pra mim não fazem nenhum sentido), acompanhadas por músicas feita pelo Roberto. Era um musical, na verdade. As músicas também não tinham sentido. Suas letras eram um acúmulo de provérbios, expressões idiomáticas, bordões populares contendo as palavras "pé" e "cabeça".

No palco dessa peça que nunca foi montada, dois times de futebol se enfrentavam com grande entusiasmo, mas eram disciplinados pelo apito do juiz que, de minuto em minuto, expulsava um jogador de campo. O palco ia ficando vazio. Acabava só o juiz ali, sozinho, agora em um silêncio total. Um jogador voltava, pé ante pé, atrás dele, pegava a bola que estava num canto e saia de fininho. Aí, em off, se ouvia gritos de alegria de um novo jogo começando.

Era a época da ditadura, fazia sentido o sem sentido das músicas e das locuções sempre forçadamente entusiasmadas.

Esse texto estava datilografado (sim!, ainda!) em laudas com o logotipo do jornalão em que eu tinha trabalhado até um pouco antes. Ainda vi essa pilha cada vez mais amarela, aqui e ali, numa e outra gaveta, até que não vi mais. Deve ter virado pó ou sido jogada fora no meio a outras tralhas em alguma das mudanças.

Ninguém nunca quis encenar essa peça. Nem me pergunto por quê. Não dava mesmo pra ter muita coragem. Entendo o amarelamento geral - não só do papel - e que, aliás, me incluía.

Também o "Vitória Valentina" foi recusado por todo mundo em sua primeira versão, chamada "Dez momentos de paixão" (que eram as dez fantasias eróticas da personagem, mantidas na versão que afinal saiu publicada). Esse texto mereceu comentários de que uma feminista não podia escrever algo açucarado. Sempre me espanto com isso. O engraçado é que, ainda quando era "Dez momentos de paixão", o texto já vinha com uma integração a imagens. Cada "momento" era acompanhado de uma espécie de "quadrinho", já adivinhando a forma final, tantos anos depois. "Vitória Valentina" foi recusado por todo mundo, mesmo na sua versão atual.

De todas as covardias dessa época, minhas e dos outros, restou a coragem do Gerd, de botar o nome dele em um texto sobre uma artista desconhecida, que ia expôr fora do circuito nobre das galerias da época, mas que ria pra ele, entendendo perfeitamente bem o que era isso de buscar, sempre, o que está lá longe, lá onde só a vista alcança e às vezes nem isso. Minha exposição que o Gerd apresentou se chamava "Imagens mentirosas". O nome é porque as imagens tinham o rastro do real das fotos impressas, nos seus poucos traços contrastados em PB e afundados nas cores da tinta automotiva. As cores se expandiam sem se importar com as margens do papel tamanho A2. Como também ele e eu não nos importávamos com o tamanho acanhado de uma varandinha. As cores loucas, jogadas pra mais longe que desse, sendo, tanto quanto o olhar do Gerd, o único real em que se podia acreditar. Assim como as mentiras do dia a dia iriam ocupar, de lá pra cá, todo o primeiro plano dos noticiários sobre um "real" que, bem...

Depois, indo para outros apartamentos, sempre tive esse pensamento secreto antes de me mudar. Se o Gerd, entrando na porta, iria gostar. O atual é minúsculo, num edifício muito velho e num lugar central de São Paulo. Mas dá pra uma pracinha e, depois da pracinha, pra um desses vãos entre edifícios que às vezes tem. O sol nasce justamente nesse vão, que se estende bem, bem longe, nos outonos. Hoje escrevo isso antes das seis da manhã e o vão está de cor laranja, o resto do céu preto, os carros na rua ainda com faróis acesos. E fico contente porque o Gerd entrou há poucos minutos, foi para a janela e disse:

"Que apartamento lindo esse seu, Elvira."

E, como sempre, já penso em me mudar. E fico olhando pra o que não existe. O Gerd deixou comigo o texto sumido e um olhar que não some. Que vê além do que nos dizem e mostram. Dedico esse morrendo a ele. É o último. A todos, obrigada, e até o que ainda não existe.



Elvira Vigna
Elvira Vigna é escritora e desenhista. Nasceu em 1947, no Rio de Janeiro e atualmente mora em São Paulo. Formada em literatura pela Universidade de Nancy, na França, é também mestre em comunicação pela UFRJ. Seu romance Nada a dizer, publicado em 2010 pela Companhia das Letras, recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras.
Site oficial: http://vigna.com.br Twitter oficial: @elviravigna



Artigos Relacionados


Haddock Lobo com Antônio Carlos (primeiro semestre de 2008)

Eu tinha acabado de me mudar pra São Paulo e ainda estava naquela ilusão de que paulista passa na casa da gente. Nem minha prima do ...

Porto Alegre, 25/10/2012

Olha, só avisando. Um mau-humor desgraçado. E claro que é culpa do Temer, de quem mais. Pincipalmente, pelo menos. Ent&atild ...

Poços de Caldas (férias escolares de julho de 1956)

Em 1956, Juarez Távora, um militar fascistão em ostracismo temporário, pescava sem isca e levei quarenta anos de militâ ...
Desenvolvido por:
© Copyright 2017 REVISTAPESSOA.COM