Imagem ZN7Rn2782016170634H267A.jpg

Inumerável experiência n. 1 em Flávio de Carvalho



2016-08-28

Primeiramente... Não sei o que diriam aqueles que leram muitas vezes e por anos a fio os escritos do desenhista, pintor, arquiteto, cenógrafo, engenheiro etc. Flávio de Carvalho (1899-1973), mas, para mim, leitora recente, a sensação é de contínua primeira experiência, do que há de inaugural na descoberta de que é preciso ir além, só que, no caso desse autor, o tal além está depositado num quando soterrado em camadas móveis e plásticas – terreno arqueológico movimentado pela percepção, não necessariamente visual, mais tátil, onde por vezes “pede-se fechar os olhos” (como no sonho de Freud na noite seguinte ao sepultamento de seu pai, é preciso fechar os olhos do pai morto para que um outro se abra vivo).


Quando digo “autor”, é preciso deixar claro que, em Flávio de Carvalho, especialista no inacabado e nos restos todos partes, a tal autoria implode qualquer noção de começo, meio e fim como domínio arquitetado em narrativa (tampouco ficção, que não gostava, como contou em evento recente (cito abaixo) o pesquisador Rui Moreira Leite, conhecedor dos pormenores da biblioteca de Flávio).


Flávio é um aviso de que é preciso recuar, estendendo a noção do passado até arrebentar os fios da consciência e do que é contado como progressão. E o fez em linhagem nietzschiana, em outra chave, mais etnográfica e psicanalítica, e antes de Walter Benjamin e suas “Teses sobre o conceito de história” (1940).


“Flávio de Carvalho arregala olhos de menino e às vezes de doido para ver o mundo”, escreve Gilberto Freyre no prefácio de Os ossos do mundo. Perspectiva sempre primeira, primeva. Assim, com dizia, minha experiência n. 1 em Flávio de Carvalho torna-se recorrente e seriada em distintos 1s, que evitarei enumerar, poupando-os de minha matemática espiralada, sempre de volta à infância, mesmo e, sobretudo, ao constatar impossibilidade de contar os fios de cabelos brancos que me surgem, cálculo das sucessivas temporalidades em cachos perdidos e recuperados num tempo que chamo de meu e que me escapole.


Com Flávio, voltamos à infância de todos, à antiga infância, repleta de cãs, rombo de ferida que congrega a todos e não cicatriza: “As forças cósmicas e as forças traumáticas, os grandes quadros de feridas requerem talvez ‘mais’ que as profundezas do inconsciente para o seu reconhecimento... requerem a intuição poética do ‘começo das coisas”, escreve no capítulo “As ruínas do mundo”, de Os ossos do mundo, que não é seu primeiro livro, mas o primeiro que li como parte da bibliografia da disciplina que o professor Francisco Foot Hardman ministrou no primeiro semestre de 2015 na pós-graduação do programa de Teoria e História Literária do IEL-Unicamp.


O primeiro livro de Flávio de Carvalho (ironia?) intitula-se Experiência n. 2 (1931). Aliás, ninguém sabe afirmar ao certo qual teria sido a primeira. Experiência n. 2 conta com edição recente (2001) pela Nau editora. Sua ficha catalográfica indica os seguintes tópicos para catalogação em biblioteca: 1. Psicologia – Miscelânea. 2. Comportamento humano – Miscelânea. Bastante adequada diante do que é de difícil classificação.


Nessa análise psicológica das multidões, que é Experiência n. 2 “uma possível teoria e uma experiência”, “realizada sobre uma procissão de Corpus-Christi”, Flávio apalpa as emoções revoltosas que desperta nos fiéis ali reunidos, em São Paulo, ao tomar o sentido contrário dentro do cortejo religioso, que no livro será comparado a uma marcha militar. Na contramão e vestindo um boné de veludo, Flávio espreita fisionomias e até flerta com algumas eleitas (bonitas e feias). A multidão disposta ao linchamento, porque Flávio se negava a tirar o chapéu, “alça” o performer às páginas policiais, não sem antes arrancar-lhe da cabeça o acessório da blasfêmia.


“Contemplei por alguns instantes esta cena curiosa; uma massa de gente levada ao extremo do ódio desejando me devorar e controlada por uma emoção qualquer que a retinha indecisa; com a cabeça descoberta, apesar da tensão do momento, não sei o que me retinha no lugar, provavelmente um resto de curiosidade, estava no ponto de resolver se devia ou não exigir a entrega do meu chapéu, quando um jovem que aparentava uns 15 anos se aproxima e me entrega o chapéu dizendo ‘ponha se for homem’.”


Publicado três meses após o feito, em setembro de 1931, Experiência n. 2 é dedicado ao papa Pio XI e a dom Duarte Leopoldo e traz desenhos do artista que registram as etapas ali experimentadas, mas sem o tão aludido distanciamento científico, é bom notar, já que o que observa na reação dos outros logo é capaz de identificar em si mesmo, passando da frieza inicial a um estado de pânico e ao descontrole emocional. Nesse sentido, Flávio desenvolve também nesses escritos uma teoria do fetiche como receptáculo de desejos, na qual é capaz de explicitar o fetichismo envolvido no seu próprio gesto: “Me apoiava [...] nos elementos da procissão para totemizar-me com o deus, levantando em redor de mim um parâmetro afetivo”. O medo rege essas reações que encara na procissão, ele conclui. Medo, aliás, ao qual retorna como afeto primordial em Os ossos do mundo, classificando-o em reflexão como um produto da civilização.   


Os ossos do mundo completa 80 anos em 2016 (e aqui peço permissão para este registro de calendário ao falar de Flávio). Sua primeira edição pela Ariel em 1936, com tiragem de mil exemplares, foi realizada a partir do caderno de anotações da viagem que Flávio de Carvalho fez pela Europa entre setembro de 1934 e fevereiro do ano seguinte. A publicação materializa em palavra a prática de uma espécie de antropólogo a investigar a tribo europeia, invertendo o ângulo usual de exotização, de um psicólogo da humanidade, do psicanalista capaz de transformar o chão onde pisaram os que nos antecederam em divã onde todos deveriam se deitar, o que é o mínimo a se mencionar para que a obra não seja confundida com um livro de viagem convencional, a tagarelar o bater canelas por Inglaterra, França, Bélgica, Itália, Tchecoslováquia, Polônia, Hungria, Áustria e Portugal. A propósito, o objetivo inicial de Flávio era participar de dois eventos em Praga, apresentar trabalhos em congressos de filosofia e psicotécnica e, a partir dessa experiência, escrever um relato a ser publicado pela Nacional – casa editorial que o recusou ao conferir o resultado fora dos padrões mais turísticos da série de seu catálogo.


Uma segunda edição de Os ossos do mundo foi publicada apenas em 2005, pela Antiqua, e em 2014 a editora da Unicamp, com organização do pesquisador, crítico e arquiteto Rui Moreira Leite e da diretora do Centro de Documentação Alexandre Eulalio Cedae (Unicamp) Flávia Carneiro Leão, trouxe às prateleiras uma nova edição revista e ampliada do livro a partir do cotejo com o caderno de viagens e exemplares que pertenceram ao próprio autor. Como relatou a diretora do Cedae, detentor de acervo dedicado a Flávio de Carvalho, em encontro com os alunos da disciplina de Foot Hardman mencionada, ao que tudo indica, Flávio preparava uma segunda edição de Os ossos..., uma vez que o exemplar que integra o acervo contém anotações e acréscimos feitos pelo autor em várias páginas. Idem no caso do exemplar que Moreira Leite ganhou de um amigo que o teria comprado em um sebo no Rio. Ambos pertenceram a Flávio.


Os tais ossos aludidos no título nada mais são que resíduos do mundo, condutores de uma verdade eclipsada no modo como lidamos com o passado. “Uma coleção de ossos é portanto mais importante a um observador que os ossos do próprio observador. A luz sobre o passado é o único tipo de luz capaz de iluminar o presente [...]. A sensibilidade do homem é, precisamente, os ossos do mundo organizados em coleção.” Um objeto, por exemplo, fonte de recordação, também pode ocupar este lugar estruturante de uma corporeidade ancestral, visto que “vive tanto quanto o próprio indivíduo”.


Objetos que, nesse sentido, não respeitam uma hierarquia classificável na história da arte ou nas classificações possíveis nas coleções de museus etnográficos que tanto visitou, porque ao Flávio interessa tanto a arte produzida pelos realistas do XXVI quanto os tipos de papel higiênico que cada povo faz uso. “O requinte no papel higiênico representa naturalmente a valorização de um dos locais mais desprezados do corpo humano, mais destruído pelo chiste da palavra e do gesto [...] e, para mim, um índice que indicava o valor do local mais desprezado era também um dos índices da civilização de um povo e do desejo de elevação do indivíduo. [...] O desprezo pelo ânus é desconhecido da criança de hoje e do ‘selvagem’ atrás da história.”


Uma homenagem ao artista e aos 80 anos d’Ossos do mundo foi realizada no dia 22 de agosto de 2016 na FAU-Maranhão. A “Jornada Flávio de Carvalho”, organizada por Larissa Costa da Mata, pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira da USP, com supervisão de Eliane Robert de Moraes, reuniu alguns especialistas e outros estudiosos convidados a adentrar pela primeira vez nesse universo. As falas apresentadas serão reunidas em um livro ainda sem data de lançamento. Entre seus autores: Rui Moreira Leite, a própria Larissa, Marcelo Moreschi, Raúl Antelo, Augusto Massi, Fernanda Arêas Peixoto e Verônica Stigger.


Desse evento, que abarcou vários aspectos da obra de Flávio, e que mereceriam tantos outros comentários, destaco, numa tentativa de finalizar o que apenas começou em mim, alguns dos comentários de Marcelo Moreschi que me pareceram consonantes ao convite à leitura de Experiência n. 2 e Os ossos do mundo feito aqui, obras que ele chama de “ensaios-experiência”. O professor e crítico também ressalta o movimento geral rumo ao arcaico e uma pulsão de teoria que busca aplacar a vontade de saber articulada em “textos tresloucados, mas que têm hipóteses”. Assim, estamos diante de uma obra que “é e não é ciência, é e não é livro de artista, é e não é literatura”, “mais gesto que texto?”, observa e se pergunta. Entre as possíveis respostas fico com esta que Moreschi ensaia: “Escritura que orquestra a impossibilidade”. Ou, nas palavras do próprio Flávio de Carvalho: “Aglomerados emotivos para ler”.  Das minhas, ainda sigo atrás.



Luciana Araujo Marques

É mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).




Sugestão de Leitura


Língua matada, língua vivida

  Em todo domínio que o escritor tem da própria língua habita a desconfiança desse mesmo domínio. Na f ...

Ler para Borges

Há em Uma história da leitura (1996), de Alberto Manguel, uma série de imagens de leitores. Na abertura da obra, dezoito del ...

"Muitas vezes eu teria desejado racionalmente controlar o meu desejo, mas ele picava-me, inquietava-

  Portuguesa nascida em Moçambique é a Isabela Figueiredo, autora de Caderno de memórias coloniais, e também ...
Desenvolvido por:
© Copyright 2019 REVISTAPESSOA.COM