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Haddock Lobo com Antônio Carlos (primeiro semestre de 2008)



2016-08-23

Eu tinha acabado de me mudar pra São Paulo e ainda estava naquela ilusão de que paulista passa na casa da gente. Nem minha prima do edifício ao lado.

"Passa lá em casa."

Não passou. Até que marquei dia e hora e ela apareceu toda vestida e de salto alto, segurando o biscoitinho do café embrulhado em papel de presente. O resto do povo, nem isso.

Mas na ocasião eu ainda estava iludida.

Aí recebi uma visita e fiquei contentíssima. Ok, era visita carioca, mas, puxa.

Além de ser carioca, também tinha o problema de ser visita-hambúrguer.

Explico:

Uma coisa que eu sempre soube, e nada a ver com São Paulo, é que hambúrgueres são parte integrante da minha vida. Somos uma espécie de carne moída, nós, os que escrevem, desenham, fazem música, minicursos, teatro, coreografia, desenvolvem pensamentos ou ficam olhando fixo pra tudo que não existe. Pra sermos úteis, ou seja, pra essa carne moída virar hambúrguer ou qualquer coisa minimamente vendável, precisamos do resto. E a visita que chegava era desse tipo, pão-alface-maionese.

Nunca fez um texto inteiro, embora tentasse. Mas quem sou eu pra falar de quem tenta. Só de editoras estou na minha terceira, sei que não posso contar comigo pra nada. Nem jantar de quibe comprado na loja aqui embaixo dá muito certo. Muito menos projeto cultural, com plano de comunicação, target, e outras palavras em inglês. Fico me imaginando no telefone com o jornalista:

"Oiii tesão, você recebeu meu release sobre o Putas, querido?"

A voz arrastada, risinho sedutor, gutural, ênfase em Putas.

Não, né. Então tenho consciência de que preciso das pessoas pão-alface-maionese e sei que elas precisam de mim, a carne moída. Portanto, um relacionamento com tudo pra dar certo,  esse meu com a moça que me visitava. Só que não.

O problema foi a expectativa de atenção. Ela esperava alta, a  minha era baixa. E não que eu não me esforçasse, porque me esforçava, eu como sempre sem trabalho.

Era do tipo magro que conhece famosos, e andava de cá pra lá em cima dos saltos, citando patrocinadores louquinhos de vontade de ter sua marca associada ao meu trabalho. Ela andava, eu desandava.

De presente, uma saboneteira dourada que levei logo pro banheiro, escondendo envergonhada a antiga, de plástico com furinho, que funcionava bem. Mas é a tal coisa: me deslumbrei. Nunca houve nada dourado em qualquer casa minha e achei que enfim meu destino ia mudar. Agora eu era uma pessoa com saboneteira dourada!

"Víntege."

"Ahn?"

Víntege, ou seja, coisa de antiquário. Como aliás descobri rapidinho, alguns banhos depois, no recinto que ficava meio úmido mesmo sem banho. Não tinha furinho a víntege, o sabonete melava, o dourado esfarelava.

Mas isso foi depois e, na hora da visita, a moça andando na minha frente, eu ainda tinha esperança de mudar de vida, com dourados que se sucederiam e não só no banheiro, aquela maçaneta, e até mesmo minha jeans, meu deus!, jeans douradas e tudo mudaria!

Então tá.

Eu lá, sentada no sofá, a moça andando de  lá pra cá, fui me distraindo com o brilho do meu futuro. Porque a razão da visita era explicar um projeto. Todo mundo tem projeto, já eu tenho delírio. O dela envolvia o governo do Estado do Rio e viagens. Adoro uma mochila, e quanto mais longe eu e a mochila formos, melhor, então não era que eu não tivesse interesse. Mas, sei lá, vai ver foi o toc, toc dos saltos no chão, os vínteges já virando quarênteges.

Não deu certo, mas por uns minutos achei que ia, porque, de vez em quando, eu balançava a cabeça com grande energia e caprichava uns ahns, ahns de concordância total, onde assino, puxa, que maravilha.

Até que notei a expressão dela de olhar em torno, de onde fica a saída, ó deus, meu hambúrguer caía das alturas, bife virado pro chão.

"Um vinho?"

Sem taça, expliquei, porque eu me mudara há pouco e não fazia a menor ideia de onde estavam as taças. O que não expliquei é que ia ser mesmo difícil achar taças porque nunca tive taças.

Mas ela não queria.

E aí pegou o celular pra chamar amigos, os realmente importantes, a razão de ela ter vindo a São Paulo. E que iam passar de carro pra pegá-la na sua marcha vitoriosa sobre todos os moídos do mundo rumo aos hambúrgueres lindos em caixinhas criadas por designers de alimento (existe, viu), vendidos aos milhares no mundo inteiro.

E ela falando  no celular, só escutei a frase quase final, quase fatal:

"Ok, desço em cinco minutos. Certo. Rua Haddock Lobo. Espera aí."

Virando a linda cabeça loura bem penteada em minha direção, disse, enquanto tampava o telefone com a mão:

"Haddock com...?"

A sobrancelha exprimiu com perfeição o ponto de interrogação da frase inconclusa e óbvio que era pra eu responder que a esquina da Haddock Lobo, onde ficava meu apartamento da época, era com a Antônio Carlos.

E se eu tivesse feito isso, talvez ainda conseguisse salvar o hambúrguer do dia, uns dourados aqui e ali, minha vida em São Paulo e eu, nesse exato momento, não estaria escrevendo uma coisa chamada "morrendo de rir", mas outra, chamada "vivendo sem rugas" (ou seja, sem rir). Que pelo menos  me daria algum dinheiro. Quer dizer, não escrevendo, imagine, vlogando um vlog de cosmetologia chamado "vivendo sem rugas". Taí, quem sabe. Mas me perco. Justamente, outra vez. Igual naquela hora, ela na minha frente ao telefone, esperando eu completar o "Haddock-com-...?"

Não falei que era com a Antônio Carlos. Ó deus, não falei. O que eu disse foi:

"Com Agá." - ela ficou parada, me olhando. "Haddock com agá." - repeti.

E com isso deixei claro que: 1) - por mais que eu precisasse de hambúrgueres, nunca, nunquinha, eu ia realmente prestar atenção em pão-alface-maionese; 2) - eu era alguém com grande empatia emocional com letras mudas ou quase. Hambúrguer oferecido na minha frente,  só pensava em agás que estão lá!, estão lá! O que na época não estava claro, mas ficou agora, era que tal empatia era premonitória. Alguns anos depois era eu a virar letra muda ou quase. Eu só, não, toda uma classe de gente que lida com cultura, educação, todos nós hoje letras mudas ou quase. Não é que a gente não exista. Só não somos levados em conta nas políticas públicas atuais que, bem, vou simplificar: não nos levam em conta.

Mas nesse dia distante, a moça parada lá, o telefone na mão por não sei quanto tempo.

Até que: "Bem, foi um prazer, vou esperar lá embaixo." - e saiu.

E eu fiquei lá, também por não sei quanto tempo, sem trabalho. Na verdade, até hoje.

A saboneteira não sobreviveu à mudança seguinte. As jeans douradas não sobreviveram à visita seguinte da Caró, que rolava de rir só de pensar. E eu estou aqui, ainda, berrando na minha pouca voz:

"Ei, a gente existe, viu. E existiremos, sempre. Em mesóclise pra você entender melhor: existir-lhe-emos! Nós, os letras mudas ou quase, estamos aqui!!!!!!"



Elvira Vigna
Elvira Vigna é escritora e desenhista. Nasceu em 1947, no Rio de Janeiro e atualmente mora em São Paulo. Formada em literatura pela Universidade de Nancy, na França, é também mestre em comunicação pela UFRJ. Seu romance Nada a dizer, publicado em 2010 pela Companhia das Letras, recebeu o prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras.
Site oficial: http://vigna.com.br Twitter oficial: @elviravigna



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