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O valor do riso (e do outro)



2016-07-20

“Eu não sou eu nem sou o outro,/ Sou qualquer coisa de intermédio:/ Pilar da ponte de tédio/ Que vai de mim para o Outro.” Os versos do poeta português Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) quase caberiam como epígrafe desta leitura de O valor do riso e outros ensaios (Cosac Naify, 2014), de Virginia Woolf (1882-1941), organizado e traduzido por Leonardo Fróes, autor também da apresentação. O “quase” acima é uma ressalva: se são muitas as pontes que a reunião de ensaios constrói, seria difícil batizar uma delas de tédio, tamanho interesse que move o olhar da autora nesse trajeto até o lado de lá, onde está a alteridade. Seja qual for o assunto ou personalidade central de cada um dos 28 textos, o outro é sempre aquele que aguça desde a mais rés curiosidade à questão mais essencial; é também a chave de uma possível resposta. 

Franca, ousada, clara quanto a suas posições diante dos debates e transformações sociais e estéticas que presencia e protagoniza, como um dos ícones incontornáveis do modernismo, não é difícil ver a mulher por trás de cada um dos ensaios, o que não é evidente do mesmo modo em sua ficção.

Quando planejou escrever o romance Os anos (1937), por exemplo, Virginia tinha em mente um único protagonista, ela mesma, mas “ao escrever começou a se espraiar entre os personagens”, conta Peter Gay, em Modernismoo fascínio da heresia. No entanto, mesmo essa voz inconfundível e marcada pelo teor opinativo não deixa de ter um caráter mediador de tantas outras vozes, para além da própria.

Nesses ensaios, Virginia se debruça sobre diários, cartas, memórias, biografias, autobiografias, relatos de viagens com fascínio, como quem busca na vivência e expressão alheia desde o alimento para uma “imaginação exausta” até aquele segredo que a todos interessa desvendar. Cada livro que topa parece desempenhar o papel de um enigma do tamanho de um “quem sou eu?” ou o de um estranho no qual se pode esbarrar sem querer para logo se tornar seu amigo mais íntimo.

Batendo pernas pelas ruas no inverno londrino, em uma crônica do olhar, Virginia constata que quando saímos de nossos lares já deixamos de ser nós mesmos. “Em casa nos sentamos cercados de objetos que expressam perpetuamente as esquisitices de nossos próprios temperamentos e reforçam as memórias da própria experiência [...]. Mas tudo isso desaparece quando a porta se fecha atrás de nós.”

Em cada uma dessas vidas com as quais cruzamos, seja nas calçadas ou durante a leitura de um livro encontrado ao acaso em uma prateleira, podemos “penetrar um pouco, apenas o suficiente para nos dar a ilusão de não estarmos amarrados a uma única mente”. Afinal, só “por questão de conveniência, um homem deve ser um todo” e “escapar é o maior dos prazeres”.

Em mais de um dos ensaios, Virginia destaca o fato de o interesse por nossa própria existência e pela dos outros ter se desenvolvido tardiamente no espírito humano – em “Torre inclinada”, originalmente uma palestra de 1940, ela calcula para o fato nem duzentos anos. Em outro, apresenta Thoreau como um exemplo máximo dos poucos que se interessaram tanto por si mesmo, que alcançou uma intensificação extrema do autoconhecimento.

Não à toa, em “Carta a um jovem poeta”, ela critica aquele que “se interessa muito menos pelo que temos todos nós em comum do que por aquilo que ele tem à parte”. Esse gesto resulta, segundo ela, em poemas de difícil compreensão por descreverem um mundo que não existe “exceto num momento particular para uma pessoa em particular”.

Reconhecer o outro está vinculado de forma estreita à noção intensa da própria existência em um lugar comum ao humano (não confundir com lugar-comum, o que anularia toda singularidade): “a má poesia é quase sempre consequência do esquecimento de si mesmo, tudo se torna distorcido e impuro se você perder de vista essa realidade central”.

Nessa toada, Virginia elege a prosa como uma forma privilegiada por ir a todo canto, inclusive aos mais sórdidos, cabendo a ela o “trabalho sujo”. Escutar atrás de portas, vasculhar gavetas, especular. Obviamente, o trabalho não é nada fácil uma vez que os possíveis acessos estão cheios de barreiras:

“A longa avenida de tijolos está dividida em caixotes e em cada um deles habita um ser humano diverso que pôs fechaduras nas portas e trincos nas janelas para se garantir certa privacidade [...]. Caso entremos e falemos com a pessoa em questão, constataremos tratar-se de um animal precavido, retraído, desconfiado, nada espontâneo nos modos e cuidadoso ao extremo para não se entregar.”

Assim, mesmo fora do terreno ficcional, Virginia Woolf mescla o sentido do dia a dia ao da interioridade. Mas se lá (ficção) ela arquiteta verdadeiras passarelas temporais e sólidos viadutos entre uma consciência e outra, aqui (ensaios) o leitor é instigado à busca de si por meios de rotas de leitura apenas sugerida, partilha de ponto de vista, opção a que seus personagens não têm escolha.

 



Luciana Araujo Marques

É mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).




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