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O cego que andava de bicicleta e o leitor



2016-07-06

Outro dia uma amiga comentava sobre um programa que assistira na televisão a respeito da capacidade de adaptação da visão em ambientes com excesso ou falta de luz. Dicas que envolviam estratégias de deslocamento no claro ou no escuro eram dadas a partir de uma série de situações concretas. Entre as descrições que ela fez uma em especial passou a me perseguir: um cego que andava de bicicleta. Ao pedalar, o inusitado ciclista estalava a língua e, por meio do retorno das ondas sonoras aos seus ouvidos, ele era capaz de desviar de barreiras e dimensionar o espaço a ser atravessado, configurando o mundo a sua volta por ressonância.

Enquanto eu a ouvia, traçava os rumos dos estalidos saídos da boca do cego, suas idas, vindas e dissipações quando diante do vazio. Vi calçadas, guias, buracos, muros e pilastras, tudo convertido em cordas e metais vibrantes que, obviamente, ele próprio nunca viu e não veria nem se enxergasse, porque o que é veiculado por palavras, por mais objetiva que seja a descrição, sempre toma algum atalho no território particular de quem as recebe.

O que eu via era formado pela conjugação entre o já visto e o imaginado a partir daquelas sugestões que são cada vocábulo quando se une a um outro e outro, formando caminho. Aquele som da língua do cego ecoou longe para mim, convertido em bolinha esbarrando nas superfícies do fliperama do boteco da rua da infância. Não estava em jogo apenas a ligação entre palavras e espaços concretos, mas de espaços que, construído por palavras na voz amiga, longe dos olhos, convocavam uma memória visual de outros lugares e de outras vozes que hoje só posso ouvir via lembrança.

Não é incomum que experiências anteriores e mesmo simultâneas sobreponham-se durante a leitura de forma involuntária, inclusive aquelas experiências que nunca foram nossas senão pela apreensão do outro que lemos em nós, revelando-nos em lugares onde jamais imaginaríamos pisar. Um amigo, lendo a Montanha mágica, de Thomas Mann, em estadia em um hotel em Visconde de Mauá, visitava o próprio sanatório onde se passa o romance. Na hora de sair de seu quarto e descer para o café da manhã, oscilava entre ansiar e temer reconhecer nos hóspedes traços dos personagens. Outro conhecido, para ficar em mais uma localidade percorrida pelo mesmo autor, foi capaz de abstrair as multidões de turistas que vagam por Veneza para fitar Tadzio, ou melhor, o Tadzio que ele reconheceu em alguém a partir da leitura que fez da perfeição da beleza do jovem perseguida por Aschenbach em Morte em Veneza.   

Os papéis do lugar variam muito de narrativa para narrativa. Às vezes um lugar é extensão dos estados de alma de uma personagem, outras, projeção de deslocamentos do tempo. Os lugares numa dada geografia ou numa página já amarelada tampouco são fixos no intervalo da leitura à releitura.

Nas memórias de Pedro Nava (1903-1984), editadas atualmente pela Companhia das Letras, a reconstituição dos espaços em que se deu sua formação de escritor é decisiva. Escritos onde espaço e memória, sobretudo a visual, neste caso, não se dissociam. Não à toa os nomes de cada capítulo de Baú de ossos, Balão cativo e Chão de ferro remetem aos lugares primordiais dos acontecimentos narrados sobre seus antepassados, sua infância e adolescência: “Caminho Novo”, Paraibuna”, “Morro do imperador”, “Serra do Curral”, “Engenho Velho” etc.

Beira-mar, que termina quando Nava já tem 25 anos de idade, ao contrário do que o título sugere, tem seus episódios passados todos na não litorânea Belo Horizonte. Há aí também uma despedida do universo familiar e o anseio de partida rumo ao Rio de Janeiro (onde já vivera quando menino com a família em um sobrado, ocupado por oito adultos e quatro crianças, no bairro do Rio Comprido). Memória onde passado e anseio de futuro dialogam de um lugar a outro. (Talvez um revisor implique com o advérbio “onde” aqui? Aqui?)

“Desde que há as antigas técnicas mnemônicas [...] existe uma ligação inseparável entre memória espaço. O cerne da ars memorativa consiste de imagines, a codificação de conteúdos da memória em fórmulas imagéticas impactantes, e loci, a atribuição dessas imagens a locais específicos de um espaço estruturado. A partir dessa qualidade topológica se está a apenas um passo de considerar complexos arquitetônicos como corporificações da memória”, pontua Aleida Assmann em Espaços da recordação (Ed. Unicamp, 2011, trad. de Paulo Soethe).

No quase homônimo, Espaços da memória (Edusp, 1998), o crítico e professor da USP Joaquim Alves Aguiar analisa as memórias de Pedro Nava a partir do mapeamento da casa, da escola, do trabalho e da rua como espaços principais de certas histórias da formação burguesa, mas chama atenção para o fato de que os trânsitos constantes na vida do autor desde a meninice é que teriam forjado seu modo de ser ou, em outras palavras, seu modo de lançar o olhar e fazer ver esses espaços primordiais. E o próprio Aguiar arquiteta um espaço no campo das artes visuais para abrigar o dizer desse narrador de movimentos que paradoxalmente busca neles alguma fixação:

“Trata-se de uma espécie de viajante que descreve com minúcias os lugares por onde andou e a multidão de pessoas com quem conviveu ou simplesmente cruzou. Nesse sentido a obra de Nava pode ser vista como se fosse uma imensa galeria, com disposição labiríntica, as paredes tomadas por uma sequência infindável de retratos. Somente um grande fisionomista, treinado para fixar os ambientes em que viveu e as figuras que neles se moviam, poderia ter pintado os quadros da volumosa exposição que compreendem as Memórias.”

Pedro Nava parece dar a ver por meio de seus escritos aquilo que já não está diante dele como estaria um modelo diante do desenhista (atividade que, aliás, ele também exerceu e são inúmeras as referências a telas e pintores em sua obra), afinal, trata-se de rememoração. A narrativa do lembrar é também o dizer de ações sobre um espaço e de da duração desses gestos no tempo-móvel.

Quando escrevia O olho e o espírito, seu último texto concluído entre julho e agosto de 1960, Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) estava hospedado na casa de um pintor no Tholonet, em Provence, diante da paisagem marcada pelo olho de Cézanne, que, como nota Giacometti, busco a profundidade por toda vida. Nessa meditação sobre a pintura e sob a marca desse olhar, o filósofo francês se convence da impossibilidade do compartilhamento da visão e do visível. Caberia à filosofia acolher o enigma que persegue o pintor e unir conhecimento e criação no espaço da obra, fazendo ver com palavras, (grifo de Claude Lefort, que aqui parafraseio, no prefácio acrescentado à edição francesa do livro em 1985 e incluído na edição brasileira publicada pela Cosac Naify, 2004, trad. de Paulo Neves e Maria Ermantina G. G. Pereira).

Ainda neste texto, Merleau-Ponty chama a atenção para o fato de a pintura atribuir-se um movimento sem deslocamento, que me lança à imagem do leitor sentado numa poltrona ou recostado na cabeceira da cama (não vou considerar que outro dia vi uma mulher que lia enquanto caminhava na praia). No caso da pintura isso se dá por vibração ou irradiação, ele explica, e ao explicar remete a outra imagem em movimento na verdade inexistente:

“A pintura é uma arte do espaço, ela se faz sobre a tela ou o papel, e não tem o recurso de fabricar móbiles. Mas a tela imóvel poderia sugerir uma mudança de lugar assim como o rastro da estrela cadente em minha retina sugere uma transição, um mover que ela não contém.”

Quando lemos temos algo daquele cego que anda de bicicleta, pensei. Ainda que se possa parecer por vezes que estamos apenas na garupa de olhos bem abertos. Percorremos lugares nunca vistos, somos impulsionados a outros meios pelo já conhecido. As palavras estalam na língua antigos sabores recobertos de novidade. Algo estala em mim que rebate no que leio, e desse encontro entre o palpável incorporado e o que pede meu primeiro toque algo retorna me deslocando. Já não estou onde estava. Por vezes, já não sou o que era. Um mundo preexistente se reconfigura no contato com determinada obra.

Mas não é tão conclusivo esse pensamento quanto parece no parágrafo anterior. Algo não fecha nessa “visão” das coisas, por assim dizer. Coloco a questão-título do livro organizado e escrito pela Noemi Jaffe, O que os cegos estão sonhando?,  publicado pela editora 34, com diário de sua mãe Lili Jaffe. Obra que traz ainda o presente (em todos os sentidos da palavra) que é a perspectiva poética da Leda Cartum, pura geração, para não dizer “terceira”, porque incalculável as camadas de tempo ali conjugadas entre essas mulheres. “O que os cegos estão sonhando?”, retorna para mim como recalcada pergunta.

Volto ao cego que andava de bicicleta e giro em círculos em A conversa infinita: a palavra plural, de Maurice Blanchot (Escuta, 2001, trad. de Aurélio Guerra Neto), empaco no capítulo “Falar, não é ver”, quando tratam as duas vozes que ali debatem sobre o tremor constante que não deixa as palavras quietas num lugar mesmo sendo imóveis, de uma “imobilidade movediça do que tudo que se move”:

“__ Mas, a palavra tem seu próprio caminho; ela cria um percurso; nós não somos desviados de seu âmago, no máximo em seu uso.

__ Mais, talvez: como se estivéssemos afastados do visível sem termos retornado ao invisível. Não sei se o que estou a dizer diz algo. É simples no entanto. Falar não é ver. Falar libera o pensamento desta exigência ótica que, na tradição ocidental, submete a milênios nosso contato com as coisas e convida-nos a pensar com a garantia da luz ou sob a ameaça da ausência de luz. Deixo-vos recensear todas as palavras pelas quais é sugerido que de fato é preciso pensar segundo a medida do olho.”

A discussão segue, eu paro um instante.

Ao ler o trecho acima pela primeira vez, grifado anos antes com caneta no exemplar de um outro leitor, apaguei as luzes e fiquei no escuro ouvindo os estalos da língua do cego, o que sou, em meio a tantas imagens e lembranças, tomando um baita capote na ladeira do bairro onde cresci ao soltar as mãos do guidão da bicicleta... O aro girando o mundo quando visto do asfalto. E mais nada. Um pouco de silêncio. Emudeci.


P.S.: Para minha amiga Gheu Sousa Teixeira, contadora de histórias, fazedora de quadros com palavras, menina que não deixa parar a mulher, que sonha ter uma moto.



Luciana Araujo Marques

É mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).




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