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Boris Schnaiderman ou sobre o que não termina



2016-05-26

Não estava em casa quando soube da morte de Boris Schnaiderman na quarta-feira da semana passada, 18 de maio de 2016. Ao retornar, busquei entre os russos traduzidos por ele na minha estante o “Felicidade conjugal”, de Tolstói, publicado pela Editora 34, na essencial Coleção Leste. Ganhei esse exemplar das mãos do Boris em 2009, quando eu trabalhava na reedição da tradução dele de “Khadji-Murát”, também de autoria do mestre russo, pela Cosac Naify. Setes anos depois, ao reler aquela dedicatória dele (tradutor experiente) para mim (editora em formação), permanece, para além da impressão que é a caligrafia como gesto inscrito e datado no papel, uma impressão de outro tipo, seja ao pensar em tudo o que esse homem nos legou como leitores, nós e os que virão, seja ao lembrar seus métodos de trabalho, restam as marcas de uma temporalidade espiralada, própria do que não se encerra. Por isso, sobre o que finda, ao se falar de Boris, se reserva apenas a fatalidade inerente ao que é vivo: a morte como prazo irrevogável. E me parece simbólico nesse sentido que ele tenha partido aos 99 anos, tão próximo do redondo centenário, sem completá-lo.

Boris Schnaiderman se recusava obsessivamente a concluir suas traduções. Jovem aprendendo um ofício, eu ficava espantada com a energia que ele empregava para buscar melhorar um trabalho que, em tese, já estava consagrado. Até o último momento, aquele em que uma instância obriga que o livro siga para a gráfica, ele exercia a desconfiança própria de quem busca a precisão. Tempos depois, quando foram reimprimir o livro, entraram em contato para saber se havia alguma alteração que precisava ser feita. Respondi: liguem para o Boris. Não sei dizer se fez, mas apostaria que sim.

“Khadji-Murát” tinha sido traduzida por Boris pela primeira vez em 1949. Desde então ele fez outras quatro traduções diferentes do mesmo livro. Outro exemplo, entre tantos, foi o caso dos contos de Tchekhov, publicado pela Civilização Brasileira em 1959, revisados na edição da Max Limonad em 1985 e, inclusive, tendo o título rebatizado para “A dama do cachorrinho e outros contos”, em 1999, na tradução para a 34.

Melhorar suas traduções antigas fazia parte de seu cotidiano ainda aos 98 anos. “Enquanto tiver cabeça, continuarei”, disse em entrevista a Neldson Marcolin, publicada em outubro de 2015 na revista “Pesquisa: Fapesp”. Boris nunca se aposentou desse seu ofício. Para ele, nenhuma tradução poderia ser considerada concluída sem ser lida em voz alta enquanto cotejada no original. Técnica a qual chegou após anos de prática. Versões que não passaram por esse crivo de seu ouvido atento, ele as renegava, caso de “Os irmãos Karamázov”, edição popular publicada pela Vecchi nos anos 1940, época em que deu início a seus trabalhos como tradutor, um dos precursores a verter da língua russa para a portuguesa.

Boris nasceu em Úman, na Ucrânia, em 1917, ano da Revolução Bolchevique, que deu início à União Soviética. Sua família mudou-se para Odessa quando ele tinha um ano de idade e imigrou para o Rio de Janeiro em 1924, para escapar dos pogroms que massacravam os judeus no Leste Europeu. Apesar da sólida formação russa marcada por essa origem, e de traduzir profissionalmente desde 1944, as letras não foram sua única atividade profissional. Formou-se engenheiro agrônomo e dirigiu o Núcleo de Agricultura da Escola Agrotécnica de Barbacena entre 1948 e 1953. Em 1960 foi contratado pela Universidade de São Paulo (USP), onde foi um dos criadores do primeiro curso livre de russo do país e ministrou aulas até 1979.

Mas antes de ser agrônomo e, sobretudo, o tradutor e ensaísta renomado que se tornou, Boris teve sua vida marcada por um evento histórico que o inspiraria como escritor até pouco antes de morrer: estrangeiro naturalizado brasileiro na década de 1940, foi enviado pelo governo de Getúlio Vargas para a Europa em plena Segunda Guerra Mundial como combatente da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Em 1944 cerca de 20 mil homens foram convocados pelo Estado Novo para lutar ao lado dos aliados em território italiano. Junto deles, Boris Schnaiderman, sargento de artilharia, isto é, o responsável por fazer os cálculos para traçar os percursos dos projéteis para que alcançassem o alvo almejado. Entre as missões que cumpriu, interrogou em russo um homem suspeito de ser um espião alemão.

“Não era fácil. Ia-se lutar pela democracia, mas, para efetivá-lo, sair-se-ia de um país submetido à ditadura”, o narrador chama a atenção para essa contradição já nas primeiras páginas de “Guerra em surdina”, romance que Boris trouxe a público em 1964, logo após o golpe militar, publicado originalmente pela Civilização Brasileira. O livro teve ainda novas edições em 1985 e 1995. Quarenta anos após seu primeiro lançamento, em 2004, foi reeditado pela Cosac Naify com alterações estilísticas maiores feitas pelo autor para dar, segundo ele, mais “lógica à sequência narrativa”, além de imagens de seu arquivo pessoal. Na época, eu trabalhava na “Ilustrada”, da “Folha de S.Paulo” e tive a oportunidade de entrevistar Boris para o caderno.

“Quando comecei a escrever o livro, dominava o português, mas escrevia frases com a sintaxe correta e o texto ficava tolhido. Demorei para encontrar o tom. Precisei travar uma guerra comigo mesmo para criar, misturando gêneros e vozes. Usei um pouco de tudo, romance, conto, diário, carta, documentário jornalístico. Senti um grande alívio quando concluí”, contou. (Vamos deixar em suspenso esse alívio da conclusão)

Quando fiz a clássica pergunta quanto às possíveis influências para a escrita de “Guerra em surdina”, ele disse: “Não fui influenciado, mas estava impressionado com o que escreviam Isaac Bábel e Graciliano Ramos”. No ano do nascimento de Boris, 1917, Bábel alistara-se no Exército Vermelho e foi designado para o fronte russo-polonês, experiência que resultou nos contos de “O exército de Cavalaria”, também conhecido como “Cavalaria vermelha”, de 1926, “texto-paradigma do século XX”, nas palavras de Boris, em que somos guiados por um narrador que é o próprio alter ego do autor. Em maio 1939, Bábel foi preso pelo regime stalinista e em 1941(?) morto pela polícia política. Por sua vez, Graciliano Ramos, preso pelo estado getulista em 1936 e liberto no ano seguinte, tem sua trajetória literária marcada pela passagem da ficção à confissão (alusão que faço aqui ao título do estudo de Antonio Candido, “Confissão e ficção”, sobre a obra do alagoano), ainda que o saber na própria pele sempre tenha sido um pressuposto da literatura do autor de “Memórias do cárcere”.

Em texto sobre a prosa de Bábel, Boris fala sobre o rompimento do distanciamento do narrador em relação ao narrado no fim do século XIX, cita os escritos autobiográficos de Górki, um registro de 1893 do diário de Tolstói que anunciava a morte do romance e, entre outros, um prefácio do cubano José Martí de seu romance “Lucía Jerez”/“Amistad funesta” que afirmava:

“O autor envergonhado, pede desculpas. Ele bem sabe já por onde avança o romance moderno, profundo como um bisturi e útil como um médico. O gênero não lhe agrada, porém, porque há muito o que fingir nele, e as delícias da criação artística não compensam a dor de mover-se numa ficção prolongada, com diálogos que nunca se ouviram, entre pessoas que jamais viveram.”

Na sequência dessa citação, Boris escreve: “Bábel, porém, não tem motivos para se envergonhar, nem pedir desculpas”. O mesmo poderia ser dito dele próprio, Boris Schnaiderman. “Se escrevesse uma autobiografia, centraria muito no meu caso, que é atípico, pois era um estrangeiro na FEB, mas eu queria contar a experiência coletiva”, me dizia Boris sobre seu romance naquela entrevista. Assim, nem tudo o que se passa com o personagem João Afonso, estudante de medicina, aconteceu com ele, mas “poderia ter acontecido”, ele assinalava, como quem nunca se cansa de imaginar, mas sempre a partir do vivido.

Abri esse breve parêntese para falar de Bábel e Graciliano porque, se os nomes desses dois escritores mencionados por Boris pareceram soltos naquela entrevista em formato de pergunta e resposta de mais de dez anos atrás, aqui não poderia deixar de ressaltar esses aspectos de suas biografias entrelaçadas às produções textuais com às do próprio Boris. Todos eles, embora em cenários e contexto distintos, percorreram territórios da escrita sob o jugo de memórias de violência vividas por eus em meio a eventos históricos.

Já no fim de nossa conversa, perguntei se ele pretendia escrever algum outro livro, ao que ele me respondeu, do alto de seus então 87 anos: “Sim. Quero voltar a esse tema. Em “Guerra em surdina” não pus tudo o que aconteceu”. “Então o senhor ainda continua insatisfeito?”, perguntei, brincando, porque ele já tinha me dito que tinha começado a escrever o livro ainda na Itália, no calor dos acontecimentos: “Escrevia e rasgava... Escrevia e rasgava... Foram dezenove anos até concluí-lo. Nunca ficava satisfeito”. Sua resposta à minha pergunta? Riu alto. Em 2015, Boris publicou “Caderno italiano”, pela Perspectiva, relato autobiográfico da sua experiência como pracinha. Cumpriu o prometido naquele riso, que ainda ecoa... Que não termine nada do que ele começou.


P. S.: Já tinha publicado este texto quando descubro que Boris tinha acabado de relançar (em 2016) sua tradução de O amor de Mítia, de Ivan Búnin, pela 34. O que apenas confirma a impressão de sem fim. Publicações póstumas devem surgir...



Luciana Araujo Marques

É mestre em Teoria Literária (USP) e doutoranda em Teoria e História Literária (Unicamp). É jornalista e atua no mercado editorial. Está entre os autores selecionados pelo programa Rumos Literatura, do Itaú Cultural, que teve como objetivo apresentar novos nomes da produção crítica brasileira com foco na produção literária contemporânea do Brasil, tendo como resultado a publicação do livro de ensaios "Protocolos Críticos" (2009).




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