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Pendant: Rosa, Carrascoza



2013-08-18

Trago do francês esse termo perfeito para expressar uma alteridade simétrica. Não é que assim, sem tanto aviso, descubro como ficariam perfeitos numa parede “Se eu seria personagem”, da Tutaméia de Guimarães Rosa, e “Cristina”, d’Aquela água toda, de João Anzanello Carrascoza? Contam ambos desse sentimento que é saber-se um por estar ao lado do outro. De ver perder-se a paixão desenhada no horizonte íntimo e tímido, para descobrir que ela estava ali e além; ou para experimentar a salvação que vem das coisas boas, postas ao alcance da mão.

Prescindem de nomes próprios esses dois que se narram e têm como eixo a aventura da humana juventude: “Note-se e medite-se. Para mim mesmo, sou anônimo; o mais fundo de meus pensamentos não entende minhas palavras; só sabemos de nós mesmos com muita confusão.” A confusão, menos que de uma história de amor, será a de um eu que indaga por onde anda, conforme intempéries de dentro: “[...] eu era um menino-deserto, seco de alegrias, e mesmo se me aguassem eu continuaria a ver o mundo atrás de uma camada de verniz...”

Me penso em meus 14 anos, um vislumbre inusitado de rebeldia, eu, que só letrava cartilha de obediências. Tinha recebido uma acusação infundada, castigo a galope. Nenhum respeito por minha palavra, que negava o fato. Por que não dar vazão à fantasia tomada à literatura que me engrossava a vida? “Vocês não são meus pais. Me trocaram na maternidade.”

O meu corpo se contentaria bem com a pancada devida à primeira transgressão, não precisava da segunda. Mas terá sido essa pancada, mais forte e carregada do estupor paterno com tamanho disparate, que terá me revelado o tanto que eu era de mim? “Sou – ou transpareço-me?” pergunta ao final o narrador do conto de Rosa. Sou – ou me revelo em partes, de forma que a amada Orlanda possa em mim vislumbrar o amor verdadeiro? Nesse lastro, sou quando me afirmo revel? – eu me perguntaria longe, bem longe dos 14 anos.

Me trocaram na maternidade. Que ato de liberdade, esse. A possibilidade de criar uma nova genealogia, recusar castigos e cartilhas. Estabelecer outra moral, em que a palavra do indivíduo se fizesse pendente da credibilidade. Então, poderia dizer: “Atravessei a rua e fui andando devagar, aquela felicidade – que poucas vezes voltei a sentir – pulsando forte dentro de mim.”

E avançaria na história de amor de um eu por seu mim, arrumando pedaços de vida, rosa, carrascoza, bem postos na parede, a vida estampada em obra de arte.

* Edições 1969, José Olympio, para o texto de Rosa; Cosac Naify 2012, para o de Carrascoza.



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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