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Ao lado de uma galinha ruiva



2013-09-11

 A literatura nos traz as personagens, essas bobinas vivas no dizer de Gide, em transcrição de Antonio Candido. Caminhamos ao lado delas, por páginas e páginas, construindo nossas próprias respostas aos enigmas da existência. Em minha vida, um enigma se impõe há algum tempo, bocado de tempo em verdade. Escritora ou professora, onde a porção mais autêntica de mim? Em qual dos lugares ficar, alimentando o inigualável sentimento de apenas aqui? Que resposta posso construir para a pergunta que o recente artigo de Luiz Ruffato, “Viver de literatura”*, vem revirar dentro de mim?  Que resposta construí previamente, da qual não me desvencilho?

É forte a sensação de uma primeira narrativa, mas se nem me lembro direito do que li, e recuso o que me dão no presente?  A Galinha Ruiva me chegou no espaço de  ampla biblioteca de escola pública modelar, luminosa e recém-construída. Havia um lobo metido com esta galinha ruiva, mas na maturidade ela surge como animal trabalhador, incansável, fazendo tudo sozinha, de semear, plantar, regar, colher, debulhar, moer o trigo, até sovar a massa, assar o pão. A cada uma das tarefas, convidou outros animais para ajudá-la, mas eles recusaram sistematicamente o trabalho, até verem o pão à mesa e se apresentarem para a refeição, da qual são enxotados, em moral irrepreensível da relação trabalho & ganho.

Essa a história que vejo escrita hoje. Mas na minha história havia um lobo metido com esta galinha ruiva, estou certa disso.

A vida é para ser vivida no verso, per verso, em bem organizado discurso a domar o cavalo empinado do real. Aquela galinha devia prenunciar outra que me embasbacaria numa análise em certa prova que nunca pude carregar comigo: a vida é desperdício. Uma galinha trabalhadeira, outra fugindo, ganhando precária liberdade, ambas construídas por humanos, habitando a literatura, essa mesma em que estou em conflito de preposições: viver de literatura, viver na literatura.

Não tivesse havido o magistério, teria havido a escritora? Sem Ulisses e o leito conjugal levantado da terra, sem Penélope e a tessitura do longo saber da espera, onde estaria essa felicidade conflituosa e clandestina?

Ainda sem resposta, meu estimado Ruffato, reconheço livro e escrita como amantes, cujo gozo partilho com tantos, alguns deles alunos e alunas, atuais leitoras e leitores, docentes já-quase.

* O Globo,  2/09/2013.



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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