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Zero



2013-09-20

Zero (1975) foi um dos poucos romances censurados pela ditadura militar, que já quase ninguém ousa chamar “revolução”. Pudera: suas referências explícitas ao momento histórico, especialmente algumas descrições minuciosas da tortura praticada nos quartéis, eram uma denúncia muito forte para ser tolerada. Outros escritores retrataram o regime no auge da repressão, mas nenhum de maneira tão contundente como Ignácio de Loyola Brandão. Publicado inicialmente na Itália, Zero saiu logo em seguida no Brasil; o episódio dá uma interessante pesquisa (se ainda não foi feita) das relações entre a literatura e ditadura.

A forma do romance é tão representativa quanto seu conteúdo, e por sinal homóloga a ele. Isso torna o livro um tanto datado, mas é preciso observar que no início dos anos 1970 as coisas não apareciam tão claras como as vemos hoje. O autor construiu uma narrativa caótica e impura, e exatamente por isso Zero é uma das obras que melhor representam as possibilidades e limitações da cultura brasileira sob o regime dos generais. Traduz pioneiramente, por exemplo, a relação perversa entre sexo e violência que se tornaria, já desmoralizada qualquer intenção de censura, a nota dominante do imaginário social brasileiro.

No centro do relato está José Gonçalves, cujas aventuras compõem uma bizarra odisseia através da consciência histórica feita em cacos pela violência do regime. O percurso do protagonista é mais do que errático: beira o incompreensível. Sabemos que ele vivia de matar ratos num cinema, que morava num depósito de livros (dos quais leu muitos), que se tornou depois matador e finalmente se integrou num grupo guerrilheiro chefiado por Gê, um significativo (para a simbólica esquerdista da época) híbrido de Cristo e Guevara. Sabemos também que José se casa com Rosa e que, no meio do caminho, ela acaba literalmente consumida num ritual de macumba – episódio verdadeiramente obscuro, a não ser, talvez, para iniciados em religião africana.

A impureza da escrita é em boa parte intencional e responde pela surpresa que ainda é a leitura de Zero, mesmo para quem conheça os recursos icônicos abundantes no livro (efeito aparente da leitura de Dos Passos).  Não se justifica, porém, a ausência de uma revisão que suprimisse os muitos erros de gramática, evidentemente involuntários. Se ainda resta algum critério em literatura, o romance merece ser lido com todas as ressalvas que precisam ser feitas a um produto artístico mal acabado.  Ainda que histórica e esteticamente muito importante.






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