Imagem 020A2122016130744iI9UY.jpg

Clarice Lispector desenha com letras seu “Menino a bico de pena”, e entrega ao leitor o belíssimo retrato do menino na sala ensaiando movimentos, enquanto a mãe prepara a vida na cozinha.

Preparo a vida em meu escritório, almejo traçar o retrato de uma mulher. Não alcanço o bico de pena, são poucas minhas habilidades manuais. Ademais, Pensilvania se traçou em água-forte.

O nome veio de avó ou bisavó. Na família de nomes simples, reconhecíveis, a denominação do estado norte-americano aplicada à menina devia soar estranha. E a menina, de estranho só tinha uma singular resistência, delicada acuidade. Ainda analfabeta, era ouvinte de Gonçalves Dias: “Não chores, meu filho; / Não chores, que a vida / É luta renhida:/ Viver é lutar. / A vida é combate, / Que os fracos abate, / Que os fortes, os bravos/ Só pode exaltar.”

O “Canto do Tamoio”, recitado por Dona Ester, foi cartilha na casa dos Diniz Guerra. Pensilvania criou-se com os versos de exaltação à coragem, de brios em face da dor. Honra até hoje os conselhos do poeta, do indígena e da mãe. Mas pediu licença aos três, e colocou no centro de tudo a leveza. Que leveza, nos passos dela. Anda como rainha lenta no piso de sodalita azul em sua sala de jantar, com janela para o farol da Barra. Anda como governante decidida, a ordenar que todas as crianças de Mar Vermelho, todas, também aquelas morando no fundo de uma ravina, tenham o direito de entrar no caminhão do Leia Brasil, projeto de biblioteca circulante da Petrobras. Impossível subir as crianças, terreno asperoso, deslizante, íngreme. Não sobem, vivem lá. As coisas é que descem até eles.

Pensilvania mirou aquela Lilliput de Alagoas, perguntou como desciam as coisas até os moradores, nos caçuás dos burros, responderam. Então, é em caçuás que vão subir, disse. Podem começar.

Começaram, a voz decidida não admitia discussão. Desceram burros e seus caçuás, subiram burros e seus caçuás com duas ou quatro crianças, as maiores e as professoras a pé, os olhos doendo de tanto brilho: então, eles iam entrar no baile?

Entraram, viram sapatinho de Cinderela ser recolhido na escada pelo príncipe apaixonado, viram Gulliver ser pequeno em Brobdingnag, ser gigante em Lilliput.

Filha de Iemanjá, segundo babalorixá  de respeito, marulhar manso na fala, a colega de trabalho que encontrei há mais de trinta anos e carregou sonhos comigo me acalenta até hoje, nessa experiência humana única que é a amizade.



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




Sugestão de Leitura


Camões, bom tradutor

  Vou ao cinema, Um segredo em Paris. O título original está bem longe disso: Drôles d’oiseaux. Tem a ver com g ...

Com os dentes, na raiz

Conheci António Salazar por meio de práticas domésticas que, se não matavam ou feriam severamente o corpo, o mesmo n& ...

O bichano experimental

Pelas ruas de Paraty, após a última FLIP, o autor diz que escritores são os outros, e sai em entrevistas a perguntar: &ldquo ...
Desenvolvido por:
© Copyright 2019 REVISTAPESSOA.COM