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Sentinelas em Sol Maior



2013-11-04

Para Márcia Caetano e Danuse Pereira Vieira

Em Suíte Havana, filme de Fernando Pérez, um dos movimentos que encanta o espectador está no culto a John Lennon. Junto ao monumento do cantor numa praça entre as avenidas 17 e 6, no bairro do Vedado, um cubano monta guarda, dia e noite, noite e dia, chuva ou sol, frio ou calor.

Nas tantas vezes em que fui a Havana, nunca consegui ir ao parque. Dessa vez decidi que não me acomodaria à pressa ou à inércia, e terminado o Congresso Lectura 2013 – para Leer el XXI – fui até lá. Lennon de bronze, o banco, a calçada com os versos célebres. Rapidamente surgiu o vigia, a encaixar os óculos nos orifícios da fronte do cantor, aprontando--o para as fotos, que logo tiramos.

Em minha consciência, latejava a resposta que em algum momento ouvira. Por que, nesta ilha, montar guarda a uma estátua de Lennon?

“Para mostrar que aqueles que foram castigados por ouvir os Beatles ainda estamos aqui, e não nos esquecemos de nada.”

Em Cuba, nos anos 60, ouvir os Beatles foi motivo de expulsão da universidade para muitos alunos. Mais tarde o sistema alegou não ter conhecimento do que sucedia. Neste ano de 2013, me pergunto se um dia em meu país se dará o mesmo, os governantes dizendo que nada sabiam sobre a ação violenta da polícia na repressão aos movimentos das professoras, no Rio, em São Paulo.

A crônica aqui publicada no último dia 15 não teve menção ao dia do Professor. A chaga estava tão aberta que as palavras jorrariam, sangue e pus. Ainda que viva com ramos de indignações entre os braços, tomo a palavra como método e gérmen. No compasso entre Suíte Havana e o que ouvi em terra alheia, encontro a sentença para este momento.

“Ainda estamos aqui, ingratos governantes, e não nos esquecemos de nada.“

Os baixos salários, as desconsiderações, o desprezo, o tratamento de criminosas, spray de pimenta na cara, processo por abandono de emprego em tempo de greve justa, a ordem da polícia para bater muito, conforme advertiu uma colega, mãe de policial, a outras, que iriam para as ruas.

Elas foram, apanharam. Em suas manifestações, afirmavam, convictas: “Estamos aqui para mostrar que aquelas que foram castigadas por formar pessoas com consciência e dignidade continuam a fazê-lo, sem nada esquecer”.

Parabéns pelo Dia do Mestre, Mestras. Um dia, estátuas moldadas em bronze, sentinelas vivas velarão por nós.

 



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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