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Ulisses ainda não me arrebatou. A tradução de Antonio Houaiss, um dos críticos que me revela a mim como escritora, continua na estante, sem que tempo e desejo façam dele um volume de páginas abertas. Mas Retrato do artista quando jovem em algum momento segue esse destino e me impulsiona a escrever Viver é Feito à Mão / Viver é Risco em Vermelho, obra de 1989, que acaba de ser reeditada.

Foi um livro sonhado belo, com ilustrações de Regina Yolanda e Paula Saldanha abertas como grande espiral sobre mesa de bem seus três metros de diâmetro. Descomunal aquela mesa de madeira na sede da editora Agir, rua dos Inválidos, centro histórico do Rio de Janeiro. Tanta beleza que doía. Doía, e não aconteceu. Plano verão de algum governo, Sarney?, talvez. Aceitei a generosidade de Maria Antonieta Cunha e da própria Regina Yolanda, que cedeu alguns de seus desenhos para uma edição simples pela Miguilim. Antes dessa generosidade, a de Laura Sandroni, que me sugeriu modificações para que a obra se tornasse viável em edição comercial.

Há algum tempo, Marcelo del´Anhol me pediu o livro para uma reedição. Tenho em mãos o sonho de antes, diverso e mesmo, posto dentro de capa e lombada. Escolho duas das gravuras de Maurício Negro para emoldurar. Peço a ele que denomine a uma Meu tempo, a outra, Derrota.

Na colagem de sextante, recorte de mapa, rosa dos ventos, ondas do mar e terra alcançada faz-se Derrota*. O sentido da palavra, detectado em 1539, aponta direção, caminho de um navio, de um astro no céu; rota, conjunto de anotações da navegação de um navio em livro próprio, espaço percorrido ou por percorrer. De 1710 vem o sentido que hoje se cola à palavra, no léxico de uso: perda de uma batalha, insucesso, revés, fracasso. Perda da rota, em suma, desobediência ao caminho traçado (na suposição de que a vitória é traço natural).

Tenho muitos motivos para suspeitar que a segunda acepção esteja na raiz das assim chamadas grandes navegações. Colombo, Cabral, Magalhães escolheram desviar-se da rota. Foram, todos, atrás de sua invenção.

Minhas circunstâncias me traçaram uma rota. Meus instrumentos internos de navegação com frequência me convidam à derrota. Roteiros prévios perdem-se nas gavetas, murcham as oficialidades à falta d’água. Emergem desejos sob a terra seca, veios pagãos apontam em direção a novas minas.

Chegar é só um acidente.


* Derrota. Gravura de Maurício Negro. Ilustração para Viver é Feito à Mão / Viver é Risco em Vermelho, de Nilma Lacerda. Curitiba: Positivo, 2013.



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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