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O rol de folhas brancas



2013-11-28

Para António Martinó

Especial cuidado pedia a roupa branca.
Recomendações de recato levavam a apagar as marcas indesejadas, o corpo cheio de fluidos que insistiam em vazar. A intimidade não devia se deixar ver (mancha amarelada, avermelhada, amarronzada ia ao tanque por mãos próprias, sem escapar-se para a trouxa da lavadeira).

Só me lembro da máquina de lavar pelos meus oito, dez anos. Antes, a remota imagem de uma trouxa presa com alfinetes, e, mais que a imagem, uma palavra. Rol.

Minha mãe punha atenção no rol de roupa, não fosse a lavadeira enganar-se e devolver menos do que levara. Findo o tempo da lavadeira, entrada em cena da máquina de lavar, o rol perdeu a função, separar as roupas por cores, categorias, colocar sabão, ligar, esperar, retirar a roupa lavada. Quarar, verbo antiquado.

Escrever é lavar. E não sou original na observação, Graciliano Ramos usou a imagem em Linhas tortas. As borras da família, os sucos da alma, poluções do cotidiano, tudo se limpa esfregadas as palavras contra papel branco, ou tela nua.

Ando lavando vida em águas de anil, e buscando o corpo da escrita chego a um rol de roupa branca, no largo dos Correios. Me descuidei , deixei cair o quê na trouxa da lavadeira, que ela me traz assim? Uma viagem, em ondas, pedras, palavras?

Pois tanto. Se chego ao Largo dos Correios/Fonte do Rosário, blog de António Martinó, repleto de “Crónicas lagóias, escritas algures em Peniche, entre a Berlenga e o Baleal”. Que sabor a me rolar na língua, essas palavras, lugares que não reconheço e imagino. Uma cidade, uma ilha, duas?

“Um rol de roupa branca” me vem dessas terras por que anseio. Material rico, instigante. E três exemplares de rol de roupa, dois livretos e uma almofada, souvenir do Porto. Pesquisadora da escrita, me deparo com esses objetos sofisticados para a administração da  vida doméstica, o rol obrigatório dos bens que saem e voltam a casa.

Sair de casa, voltar a casa. Escrever é isso também. Deixar a casa paterna, por não suportar as manchas tratadas às escondidas; voltar a ela, por muito tempo, até lavá-las ou descobrir que são perenes, tinta de indelével escrita.

Um rol de folhas brancas me espreita, esperando a tinta que derrame em trouxas alheias a roupa que me cabe lavar.

   



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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