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Hamlet no alto de um prédio



2014-01-11

Para Maíra

Os ladrilhos aplicados nas construções mouras atravessam os séculos, perplexos da própria duração. Já os mosaicos de Ravenna simplesmente ignoram o tempo. Mostram-se há 1500 anos (a guia repete a informação, são do século V, e cada peça é do tamanho da cabeça de um polegar), em jogo de cores e perícia.

Ambição e humildade fazem-se argamassa nos edifícios a levar nomes imperiais, lavrados por mãos anônimas sem pergunta ou inquietação. Havia o desejo da Igreja, do rei ou de outro poderoso de servir ao sagrado, louvando o próprio nome. Levantar um túmulo, uma igreja, pavimentar um chão que perturbasse a visão do passante – para o artesão, o cotidiano cabia todo nesse empenho e comportaria, talvez, uma sensação para além de si, a prometida presença numa eternidade por meio da atuação naquela obra.

Tão cientes hoje dos resultados de nossos trabalhos, avaliados e avaliadores a todo momento, por vezes de atos sem qualquer significado e sem fornecer elementos que justifiquem o 0 a 5, o ruim ou excelente que vamos dar, de que forma encararíamos o parco pedaço de nosso trabalho em memória de um nome a se apagar?

Sem nada saber da identidade a ser inventada bem mais de um milênio depois, o homem da Idade Média não se perguntava isso. Mas este jovem (presunção natural sobre sua idade), como aqueles artesãos, arrisca a vida trabalhando no alto, subindo em andaimes precários, equilibrando-se em tábuas traiçoeiras, este jovem, que nem isso teve, escalou um terceiro andar com esforço e risco de seu próprio corpo, e, sem deixar nome de autor, expõe sua pergunta, votada a durar curto tempo na fachada do prédio que tomou por superfície.

Como quase todos que trabalhamos com a escrita, ele parece ignorar o quanto o escrito é apagável. Ilude-se, como nós, com a perenidade que a letra parece oferecer. No entanto, bibliotecas são queimadas, livros se perdem, documentos são rasurados, anulados. A toda hora, tomamos notas destinadas a se perder, registramos frases para um texto que não se completa, abrimos em consultas eventuais nossos cadernos de pensamentos, onde há páginas arrancadas.

O escrito nem sempre permanece, e se instala na memória de quem o lê, ele sabe disso. Como o príncipe da Dinamarca, entrando em cena com sua famosa questão, este grafiteiro traz sua inquietação ao mundo. Não é uma simples pichação o que nos dá a ler, ultrapassa em muito o propósito de ser marca gráfica nos muros da cidade.

Este Hamlet contemporâneo indaga-se sobre o mundo, sobre a existência, e marca em sua escrita a diferença entre ser e não ser.

Notas

* Recomendo a leitura dos magníficos estudos de Roger Chartier em Inscrever e Apagar, editado pela UNESP.

** Foto de Nilma Lacerda. Rio de Janeiro, Ilha do Governador, Estrada do Galeão, n° 2791, altura do 3° andar.  26/12/2013.



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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