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Para Débora Weinscheker e Javier Flor Rebanal

Ricardo Paoletti comenta a última crônica. Para ele, “Esse jovem é um porcalhão”. Coincidimos em que é um jovem – ou uma jovem ? quem sobe ao terceiro andar pelo lado de fora de um prédio sem andaimes ou escadas e deixa seu escrito. Não coincidimos no resto, mas se todos os pensamentos expressassem coincidências estaríamos no totalitarismo. Bem-vindo, Ricardo, com sua discordância.

Nesse ínterim em que recebi o comentário e refletia sobre ele, fui a Cantábria, costa norte da Espanha. Tenho uma amiga que mora lá, a visita estava prometida. Mas foram eles, Débora e Javier, que me proporcionaram uma visita extraordinária.

Estamos a 20 km de Altamira, a gruta que deslumbra o mundo com suas pinturas e inscrições rupestres. Há várias outras nessa região, e o passeio de domingo nos levou até El Castillo. O guia, José, não deu sobrenome, e foi cuidadoso, detalhista. Viajo a trabalho, em pesquisa, e o caderno de notas me acompanha como projeto e memória. José especifica que a arte móvel ou mobiliária, encontrada no grande salão, destinava-se à fruição de todos, enquanto as pinturas do interior da gruta, ligadas ao sagrado e à magia, estavam reservadas a um grupo seleto. Menciona teorias de que a primeira, realizada sobre suportes portáteis, vinculava-se ao cotidiano e seria um treino para pinturas parietais, o que não se justifica, na medida em que apresenta os mesmos motivos que essas e, por vezes, mais refinamento.

Meu Hamlet me assalta, vê como tenho razão? Devo me conformar com uma escrita vinculada ao privado e ao poder? A minha dúvida só cabe nos impressos de circulação restrita?

A capacidade humana para a abstração mostra-se dócil com a manipulação do simbólico. Desde sua invenção, a escrita determina quem vai usufruir dela, e não se vexa de marcar degraus: escritos para alguns, escritos para mais alguns, escritos para todos. A apropriação move-se para organizar um pouco essa divisão, recusar a aceitação cabal de “você para aqui, o outro para lá”. A maioria do grupo desfrutando da arte móvel, no uso público de utensílios de osso ou pedra. Outra parte tomando posse de espaços de difícil acesso, silenciosos e reduzidos, em que uma arte realizada sobre as paredes fazia-se objeto de uso privado.

Entre público e privado bascula o mundo, inclusive o reino da Dinamarca. Drama pessoal, destino da nação. Nesse mover, a escrita faz-se presente como meio de conferir humanidade (que diz as páginas do livro nas mãos do príncipe?), e eis-me já debruçada sobre os estudos de Arlette Farge, historiadora francesa que examina os escritos nas roupas e bolsas dos cadáveres encontrados nas estradas, pelas cercanias de Paris no século XVIII. Seus estudos levam-na a reconhecer a escrita como parceira de vida, grafo que acompanha o indivíduo do nascer ao morrer.

Hamlet ou porcalhão, esse jovem, essa jovem ambicionam entrar no espaço fechado das cavernas, embasbacar-se em face de representações capazes de trazer um grão de compreensão à inquietação que os arrasta.



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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