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Viajo atrás da palavra escrita. E vim dar na Biblioteca Nacional de Espanha, na belíssima exposição “La Lengua y la Palabra”, comemorativa dos trezentos anos da Real Academia Espanhola. Realizado com esmero digno do aniversário, o evento exibiu inúmeros documentos, valiosas edições antigas, pinturas, retratos oficiais, móveis, objetos, telas de computador com os acessos ao dicionário da RAE. Logo à entrada, uma árvore de idiomas apresenta o ramo bem copado das línguas indo-europeias. No braço do Itálico, aparecem Osco, Umbro, Romeno, Italiano, Francês, Catalão, Espanhol. No último galho, na ponta direita, uma pequena etiqueta está colada sobre Português. Em letra menor que a utilizada em cada um dos galhos anteriores, está “Gallego y Portugués”.

Os dois descuidos saltam à vista no cenário de amor e orgulho pela língua castelhana. Esquecer a língua galega no seio da própria família, e remediar o esquecimento com recurso tipicamente colegial num espaço do mais alto grau acadêmico?

Houve tempo para substituir o plotter autoadesivo, e deixar exposta por menos tempo a exclusão. A mostra, que durou quatro meses, estava em seus dias finais. Que confissão assim se assina?

Vai se mostrando conceito corrente de que português e galego são estágios diferentes de uma mesma língua, marcado por volta do século XV o momento-chave da diferença. Entre quem navega e quem fica, divide-se a língua para multiplicar-se. Os que guardam a terra, guardam a língua. Os que tomam os mares, carregam-na por asas de caravelas. Nas colônias d’além-mar, a língua sabe diferente, salgadas as palavras, adoçadas as construções, temperadas com outras especiarias as íntimas imagens. O que deixou a terra como galego, volta como português, para mostrar-se mais tarde, em territórios distantes, brasileiro, base para o patuá di Macau e outras diversidades. Em variados processos de embates, é claro. Que um idioma não vai se diferenciando de outro sem que o primeiro tente retê-lo em si. Impedir realizações de autonomia, controlar as divergências semânticas, sintáticas. Imperar coroas sobre regiões de línguas próprias. Castella sobre Galícia. Ao submetido, que resta? Insurgir-se.

Foi em cantigas de ninar, histórias contadas às crianças e rica produção poética que o galego insurgiu-se contra o castelhano, que por muito tempo o rasurou. Omite-o ainda, buscando tornar invisível o que não pôde controlar.

Como o lápis do carpinteiro, do romance de Manuel Rivas*, a etiqueta colada no ramo da árvore anima-se. Anima-se e fala direto ao ouvido do assassino das coisas próprias do assassinado. Faz dele outro, faz dele dois e três.

*Manuel Rivas. O lapis do carpinteiro. Edicións Xerais.

O lápis do carpinteiro. Publicações Dom Quixote.

 



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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