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Por segunda e diferente vez



2014-03-05

Para Luiz Ruffato, em conversas

A criança é o ser mais desprotegido que há. Talvez por isso, tantas leis e instituições para falar pela infância, estado de quem não tem voz. Para enfrentar isso, quando possível, a imaginação que encontramos em livros como A História sem Fim, A Casa da Madrinha, Meu Pé de Laranja Lima.

Não li o romance de José Mauro de Vasconcelos na idade em que todos normalmente leem. Era adulta quando o livro foi publicado, e a obra de Zé Mauro me pareceu de um excesso romântico, que nunca me agradou. Vem agora a crônica de Luiz Ruffato* em El País para mostrar que a mim também escapou um dado importante na leitura apressada. A dedicatória.

O livro é dedicado aos dois irmãos do autor que sucumbiram à miséria, aos maus-tratos do pai e à omissão da mãe. As mulheres, quase tão desprotegidas quanto as crianças. Por isso comemoramos em breve o Dia internacional da Mulher. Porque é ainda uma condição a se fazer reconhecer, sem que a ela se agreguem visões pejorativas ou santificadoras, parte de um mesmo processo de negação de identidade. Mas, as crianças. Aquelas duas crianças, quando adultas, se suicidaram.

O autor terá se salvado pela literatura. Não pela leitura de literatura, como tanto se quer fazer crer, neste momento em que a experiência de leitura literária é francamente reconhecida como humanizadora, mas por escrever, sem a preocupação de estar ou não fazendo arte. São inúmeros os casos de grandes escritores e escritoras que, por escrever, liberam-se de sofrimentos físicos e psíquicos: Joyce, Tennessee Williams, Cecília Meireles, que construía paredes de livros para se abrigar na solidão. Transpassava as paredes decerto com sua dor, na viagem futura de sonhos a naufragar, de música de seda a suspender o tempo.

Disse a Ruffato, li mal Meu Pé de Laranja Lima, em contrapartida, Cazuza eu li muito bem, aí pelos 10 anos, ou talvez nessa idade nenhuma e de tempo sempre em que a gente busca nadar para fora das emoções que nos afogam. As imagens da vida miúda no interior do Brasil no início do século XX, a banalidade do cotidiano, a escola como caminho do pequeno cidadão. Desse livro, me vieram a primeira narração da morte, o reconhecimento da perplexidade e desamparo próprios à infância, a perspectiva de que alguns superam esses traumas a que estamos, a imensa maioria, condenados. Alguns, não todos. E nem sempre se salvam aqueles que revisitam sala de visitas, cozinha ou porão da vida por meio de palavras, não as que se dizem, mas as que se escrevem. Escrever literatura, como explica Tchecov, será sempre um tormento. Um tormento, no entanto, que permite estar ali, por segunda e diferente vez.

* http://brasil.elpais.com/brasil/2014/01/29/opinion/1391001943_971354.html



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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