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À mesa do café, na Gardunha



2014-03-21

Já é primavera em Paris. As pessoas retomam os espaços ao ar livre, nos jardins abrem-se páginas, telas, sorrisos.

Uma cidade de quem é, senão de seus habitantes, e mesmo dos turistas e visitantes que tomam de empréstimo paisagem, caminhos, convívio, naquilo que Aristóteles definiu como a melhor forma de o ser humano viver, protegendo-se mutuamente, sujeitos todos da polis a deixar a barbárie para fora dos muros?

Intramuros, a cidade, amante sábia, veste-se com seus diversos encantos. Parques, vias públicas, construções, cosmopolitismo. A cada um, água para sua sede.  Tomei o cartão da Librairie Portugaise, de onde levei para casa, há um bom tempo, Os Anjos, de Teolinda Gersão, e fui. Conto a aventura depois. Comprei O Teu Rosto Será o Último, de João Ricardo Pedro.

Encontrava-me na serra da Gardunha lá pelo café da manhã, quando minha filha mais velha, emocionada e indignada, trouxe a notícia de nossa última barbaridade, no Rio de Janeiro. Nossa, em corte afetivo e de responsabilidade. Uma mulher ferida, posta na mala do carro por policiais para ser socorrida, caiu e foi arrastada pelo chão. Chegou morta ao hospital.

Barbárie, e não estamos fora dos muros, mas dentro deles. Violentos, esses policiais sinalizam que a cidade não é a cidade, mas transformação perversa, monstro advindo do sono da razão, como lembra Goya. Lembrando Goya, vamos a Brecht, aquela imagem do rio, violento pelas margens que o comprimem.

Desumanizaram-se, muitos policiais do Rio, e de muitas outras cidades. Muitos, não todos.  E se assim aconteceu, é que a barbárie ficou para dentro dos muros, sufocou a polis. Mas não foram os policiais que se ordenaram a inumanidade. É preciso pensar nisso, pensar na autorização para a barbárie. E então somos todos responsáveis, inclusive pela submissão à forma como são tratadas pelos governantes profissões vitais à manutenção dos princípios da polis.

Mas a Gardunha, a serra da Gardunha , de  onde vinha o furriel Antonio Mendes, que não soube responder ao tenente-coronel António de Spínola nem a origem nem o significado dessa palavra. Foi dona Laura, viúva do doutor Augusto Mendes, quem respondeu: “Tenho a ideia de uma vez ter lido que Gardunha queria dizer refúgio, ou esconderijo. Em árabe.”

Oferecesse o Rio de Janeiro a propriedade de refúgio a seus habitantes, especialmente a Cláudia Silva Ferreira. A ela e a sua família, a polis precisa pedir desculpas por suas falhas irremissíveis. Desculpas e promessa cabal de empenho na restauração da polis, para que, primavera chegando, abram-se sorrisos, telas, páginas de cortesia e civilidade.

*  Foto de Cíntia Rabello.



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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