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Librairie Portugaise & Brésilienne: fragrância contemporânea



2014-04-01

Pois eu tinha dito que ia à Librairie Portugaise. Nas mãos, o cartão branco com letras em azul-escuro, endereço, telefone, o ícone de um bonde em tamanho reduzido, indicando, talvez, com ele se vai de Portugal ao Brasil à Africa à Ásia lusófona. De uma vez, sem paradas.

Já estou quase batendo na porta, sou assaltada pela idéia: e se mudaram? Sequer confirmei o endereço pela Internet. Mudaram. Para ali pertinho, o mapa indicava, chegar era de uma facilidade incrível. Tanta, que me perdi, e cinco ou seis pessoas depois, um senhor foi comigo até um desses mapas de que Paris é pródiga, e concluiu que não podia me ajudar. Talvez eu tivesse razão e, voltando pelo caminho que tomara... Voltei, e então a sétima pessoa consultada, uma jovem simpática, me indicou com exatidão o caminho.

Cheguei.  A Ana estava lá, do outro lado de uma mesa de atendimento. Eu precisava de um livro para meus ladrilhos. Disse isso a ela, o olho escorregou para o romance de João Ricardo Pedro. Peguei, paguei, saí rápido, volto com calma, disse.

Mas a Ana, veja só, descobri uns quinze dias depois, é a Ana Torres que traduziu Ana Maria Machado com primor e competência. E neste outro dia, que era o lançamento de Bisa Béa, Bisa Bel, conheci pela manhã na palestra de Ana Maria na Sorbonne a Ana Lima, embaixadora desta língua portuguesa e suas culturas na França. À noite, veio Michel Chandeigne, editor, livreiro, parceiro de Ana Lima.

Um público atento, numeroso, para o lançamento do clássico de nossa escritora. Um público habitual, pode-se deduzir pelos fios da rede logo lançados. Michel fala da resistência desta livraria como polo de cultura lusófona. Me informa mais tarde do lançamento de Lidia Jorge no próximo dia 9, pede o e-mail para enviar o convite.  A festa foi bonita, saio com a sacola pesada e em balbúrdia. Tomei o Aniki-Bóbó, de Manoel de Oliveira, como terei tomado outrora o conto que arrebatara minha colega Gigi, enfermeira de Juiz de Fora, que me indicou a livraria em 2001. Os anjos. Que inveja de Teolinda Gersão, recebendo o anjo Gabriel para dizer, a ti será dada esta história, prepara a gravidez.

O cartão de visitas da Livraria Portuguesa & Brasileira traz um gato junto de livros, com um manuscrito entre as patas. Fora daqui os ratos que roem letras, devoram páginas como se fossem ditaduras! A democracia entra pela porta, abril já está aí com seus cravos e 50 anos não são 50 dias. Apetece-me sorver este ar de primavera, intoxicar os pulmões do cheiro de prateleiras. As prateleiras, este odor a liberdades.


* Librairie Portugaise & Brésilienne 19/21 rue des Fossés Saint-Jacques (place de l’Estrapade) 75005 PARIS Métros Luxembourg, Cardinal Lemoine, Place Monge www.librairieportugaise.fr



Nilma Lacerda

Nilma Lacerda nasceu no Rio de Janeiro, onde vive. Autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, tem publicados ensaios e artigos científicos. Professora da Universidade Federal Fluminense e também tradutora, recebeu vários prêmios por sua obra, dentre os quais o Jabuti, o Prêmio Rio e o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil. No site da revista Pessoa, na Coluna Ladrinhos, Nilma publica quinzenalmente trechos das páginas lusófonas do Diário de navegação da palavra escrita na América Latina. O texto  ganhou talhe ficcional para publicação em Mapas de viagem, volume de contos que é fruto  de um projeto de formação de leitores. Ela também contribui com crônicas sobre o universo literário.




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