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O princípio de ver histórias em todo lugar



2015-11-04

O cenário é o Rio de Janeiro. E a história se concentra em três meses da vida de um desanimado publicitário. Inquieto com suspeitas de traição da mulher que está em Munique a trabalho, ele decide dar uma oficina literária para se distrair com novas pessoas. É aí que inicia uma série de relações, cheias de inveja, violência e vingança, que envolverão seus alunos e borrarão as fronteiras entre a realidade e a ficção, o amor e o ódio. Leonardo Villa-Forte é autor do livro de contos O explicador (editora Oito e Meio) - eleito na Tribuna de Santos como um dos quinze melhores lançamentos nacionais de 2014 -, da série de colagens MixLit e da intervenção urbana Paginário. Seus textos foram publicados em jornais, sites e revistas no Brasil e na Inglaterra. Confira o primeiro capítulo.
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Eu não queria que a viagem dela fosse boa. Tudo o que eu desejava, com as forças que me restavam, era que fosse uma viagem infeliz. De que adiantaria a minha vontade, eu não sei, mas seguia torcendo, e naquele instante me perguntei: seria o momento de trazer tudo à tona? Faltava meia hora para a decolagem, trinta minutos para ouvirmos, de perto ou de longe, o ruído das turbinas do avião. Fiz o simples. Quando ela entrou no corredor que leva à sala de embarque, prestes a sumir por detrás da vidraça escura, rocei a língua nos dentes e disse:

– Boa viagem, Cecília, vá com Deus.
– Até a volta – ela respondeu.

Então girou nos calcanhares e num piscar de olhos não estava mais lá.

Dei de ombros, acomodando o novo peso sobre mim. Meus pés prenderem-se ao chão. Vou aproveitar, pensei, e enrijecer de vez, desistir de ser alguém que se mexe: um bloco de concreto em meio ao aeroporto.

Tive vontade de dar um soco em Cecília. Um soco no meio do seu rosto simétrico. Por causa dela, eu me sentia confuso e inseguro, o que não era nada fácil para mim, nada fácil: isso me despertava algo próximo do ódio. Uma parte de mim sabia que durante aquela viagem ela encontraria outro homem. Outra parte de mim talvez não tivesse certeza. Outra parte... Bom, por três meses, fui várias partes. Elas pouco se resolviam entre si. Juntas, atravessaram o tempo. Meus dias se desorganizaram, entrei em contato com o imprevisto. Vivi coisas nunca antes experimentadas. Se soubesse de antemão qual seria o final, talvez naquela noite de despedida eu calasse o “Boa viagem” e dissesse: “Que essa jornada seja proveitosa para nós dois”.

Deixado em terra firme, no saguão do aeroporto, eu mascava chiclete e previa uma traição. Duro como um poste, podia me ver esperando-a até o último dia, vigiando o pátio de decolagem, aceitando ofertas de estranhos, adivinhando as chamadas de voo e, por fim, sendo removido ao depósito de achados e perdidos. Quando Cecília pousasse, ao término dos três meses, contaria outra vez com ela. Contaria outra vez com sua companhia, seus limites e sua certeza. Seria o fim do isolamento. O fim dos maus sonhos e das especulações. O fim de uma longa espera. Seu retorno seria o meu retorno. Era a única maneira de tudo acabar bem. Não foi assim que aconteceu.


Revista Pessoa
 



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