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Impressões do Peru

2017-02-20


1. Quando eu era menino, queria viver num hipermercado, desses que vendem de iogurte a pneus. Fui crescendo e subindo na pirâmide de necessidades: aos 15, queria viver na National Gallery de Londres, com expedições à Portrait Gallery, que fica ao lado. A promessa cornucópica nunca me abandonou: quando estava nos museus de Lima, encantado pela cerâmica mochica ou pela paleta têxtil da cultura paraca, queria ser, por algumas horas, capaz de registrar todos os detalhes, como Funes, o Memorioso, de Borges. A máquina fotográfica não sacia essa vontade de lembrança total. É preciso ser mendigo: andarilhar de museu em museu, habitá-los até ser enxotado como um cachorro. É preciso ser fantasma e assombrar todos os museus do mundo, como um personagem de Sokurov.

 

2. A algumas quadras da Plaza Mayor de Cusco, está o convento de Santo Domingo, um prédio vermelho com um muro inca, cinza-escuro, cortando a fachada que dá para a avenida onde cusquenhos e turistas caminham olhando para o alto, ressabiados com o clima imprevisível da cidade. Ali ficava Qoricancha, o templo dourado, dedicado a Inti, o deus Sol, um dos locais mais sagrados da cultura inca. Não foi por acaso que os invasores espanhóis escolheram esse pedaço de terra para doar à Ordem dos Pregadores, nem por acaso os dominicanos o aceitaram.

O convento, lindíssimo, foi construído em substituição ao templo inca, utilizando sua estrutura: as paredes foram pintadas e os nichos originais, onde antes repousavam artefatos religiosos incas, passaram a abrigar imagens católicas. O convento fagocitou o Qoricancha em 1633, cem anos após a chegada dos espanhóis.

Diversos terremotos, porém, comprometeram a estrutura espanhola. Em 1650, o convento quase ruiu por completo. Em 1950 também. A cada abalo, o templo inca resistia, revertendo a fagocitose colonial. Hoje, o conjunto ainda serve como claustro dominicano, mas o edifício principal se tornou um museu, o Qoricancha/Santo Domingo, que expõe tanto as peças incas que não foram saqueadas quanto o acervo católico. Não é difícil perceber como esse amontoado de idas e vindas arquitetônicas ilustra a história da América Latina – e o quanto de controvérsia ainda existe na barra que divide o nome do museu.

Há uma tensão perene nos sítios arqueológicos peruanos. Mais de uma vez, ouvi que muitos espanhóis ficam irritados ao serem confrontados com o passado colonial. Por outro lado, em Machu Picchu fui perguntado se era holandês, porque a América estaria em outra situação se não tivesse sido colonizada por espanhóis e portugueses. Eu realmente gostaria de acreditar em Hamid Dabashi quando diz que o pós-colonialismo está em vias de extinção, mas não é o que se vê aqui – nem no Brasil.

 

3. Dizem que o clima de Cusco tem o caráter do amor. Chove, não chove; beija, não beija. Três graus à noite no verão, sol de brasa ao meio-dia.

 

4. Aqui, finalmente li os livros de Antal Szerb, cuja obra-prima, o romance "Utas és holdvilág", de 1937 (li na tradução da Pushkin Press: "Journey by Moonlight"), me impressionou profundamente. O misto de erudição (Szerb publicou diversos volumes de teoria e crítica, incluindo uma história da literatura mundial, antes dos 40 anos) e descarrilamento adolescente me pareceu único. Szerb morreu espancado em um campo de concentração em Balf, em 1945, depois de se negar diversas vezes a escapar. Queria compartilhar o destino de sua geração. Tinha 43 anos de idade.

 

5. As casinhas e templos de Machu Picchu me pareceram a folhagem rochosas dos imensos tubérculos de pedra fincados no planeta.

 

6. "A geografia é o meu mais potente afrodisíaco" (A. Szerb, "Journey by Moonlight").

 

7. Uma noite, enquanto eu dormia numa beliche de albergue, mais cedo do que os demais, uma sul-coreana acendeu a luz e me mostrou um papel escrito em inglês: "Me perdoe, mas vou embora amanhã e preciso acender a luz para arrumar a mala L". Foi a primeira e única vez que a vi.

 

8. Duas amigas me perguntaram, no estilo telegráfico buena onda dos viajantes, como eu me definiria. Fugi da pergunta, rodeei, rodeei, até que disse: "No lo sé. Vivo y veo". Aí está uma boa definição, as amigas disseram. Vivo y veo.


Victor Heringer
Victor Heringer (Rio de Janeiro, 1988) é escritor, autor de Glória (7Letras, 2012, Prêmio Jabuti), O escritor Victor Heringer (7Letras, 2015), Lígia (e-galáxia, 2014), entre outros. Colabora na revista Pessoa desde 2013.



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